* Por Rafaela Bassetti

As startups surgem para inovar, questionar o status quo e transformar o mundo. Mas como transformar o mundo fazendo tudo do mesmo jeito de sempre?

As empresas fundadas por mulheres, assim como as fundadas por outras minorias, geralmente estão focadas em produtos e serviços que endereçam uma necessidade ou ineficiência do mercado, normalmente identificada através da sua experiência pessoal. São novos problemas a serem resolvidos e novos mercados a serem atendidos, exatamente o que buscam os investidores da indústria de venture capital. Contudo, esses mesmos players do mercado não buscam aprender e se educar a respeito destes produtos, mercados e oportunidades, especialmente quando não são temas familiares e conhecidos.

Assim, muitas oportunidades de investimento são rapidamente descartadas, muitas vezes ainda na fase do pitch, o que sugere que o problema está mais nas lentes de quem observa do que no objeto de análise. Aqueles investidores que conseguem “ajustar as suas lentes”, buscando entender esses ativos e suas vantagens competitivas, conseguem avançar com a análise e se aprofundar no seu potencial.

Dados do mercado

De acordo com o mapeamento realizado em 2020 pela ABStartups, as startups no Brasil são basicamente compostas, dos fundadores aos colaboradores, por homens brancos e heterossexuais. Quase 60% delas são fundadas exclusivamente por homens e outros 18,5%, pela maioria de homens, enquanto 27% não possuem nenhuma mulher em seu time, em nenhum nível.

Programas têm sido criados para oferecer conteúdo, capacitação e mentoria para as fundadoras, mas sem acesso a capital. E a dificuldade em acessar capital para alavancar seus negócios está no topo da lista dos seus desafios. Em 2020, enquanto o volume de investimentos em startups bateu recorde, o aporte naquelas fundadas por mulheres retrocedeu a níveis históricos, correspondendo a 2% do valor investido. Uma pesquisa da KPMG confirmou que, em épocas de crise, os investidores buscam por negócios que apresentam menos riscos e a tomada de decisão segue o viés inconsciente de, ao buscar por segurança, buscar seus iguais.

Fazer diferente

Para evitar esses vieses, dois requisitos são imprescindíveis no processo de investimento. O primeiro é a diversidade no time de investidores e, principalmente, na sua liderança. Diversidade impacta em como investidores buscam e identificam empreendedores, avaliam oportunidades e alocam capital. Pessoas diferentes buscam atributos distintos e, diante da tendência biológica de buscar e confiar em seus semelhantes, trazem novas oportunidades. O segundo é a definição e o acompanhamento de métricas específicas de diversidade dentro do portfólio, para que a busca por essas oportunidades seja ativa. Enquanto a maioria dos fundos e investidores dizem se preocupar com diversidade, poucos acompanham o funil do processo de investimento para entender que, se estão investindo pouco em mulheres em uma ponta, é porque na outra não estão se dedicando a buscar ativamente por elas.

Para negociar um deal com fundadoras com menos vieses inconscientes, os investidores precisam atuar de forma ativa nesta direção, tendo como premissa que esses investimentos trazem melhor retorno financeiro para o seu portfólio. Isso porque a diversidade é o driver de inovação e startups mais inovadoras performam melhor. Além disso, por receberem menos investimento e precisarem se provar mais, essas startups demonstram na fase de captação melhor gestão e métricas de sucesso mais consistentes do que aquelas lideradas somente por homens.

Para isso, os investidores devem buscar ativamente oportunidades de investimento em startups mais diversas, se educar mais profundamente sobre os produtos, segmentos e mercados em que atuam e se cercar de times e parceiros mais diversos na tomada das decisões de investimento.

Mulheres e a busca por investimento

Muitos também são os desafios enfrentados pelas mulheres ao negociar uma captação. Um estudo da Columbia University demonstrou que as mulheres são mais questionadas quando apresentam suas ideias, especialmente sobre suas falhas e riscos do negócio, enquanto os homens recebem menos perguntas, geralmente acerca de suas potencialidades. A Harvard Business Review identificou que as mulheres são mais penalizadas por características de comportamento entendidas como “femininas”, como ser calorosa ou expansiva. Já a British Private Equity & Venture Capital Association demonstrou que a simples presença de uma mulher na apresentação do pitch diminui as chances de uma startup receber investimento.

Podemos citar então cinco principais desafios para as fundadoras ao buscarem investimento: 1) elas buscam menos investimento e, quando buscam, pedem por cheques menores, 2) elas têm menos exemplos e cases de sucesso de outras fundadoras para se inspirar, 3) elas têm pouco network, comparativamente com fundadores homens, que as ajudem a impulsionar seus negócios, 4) elas têm menos acesso a investidores e ainda menos a investidoras, que ainda não minoria no mercado, e 5) elas ainda precisam se educar mais a respeito do processo de investimento.

Diante deste cenário, a forma mais efetiva de mitigá-los é se conectar a redes de empreendedorismo feminino, onde podem aprender sobre processo de investimento e se conectar com fundadoras que já captaram, encontrar mentores para seus negócios e conhecer investidores que focam em diversidade e, em especial, com investidoras e fundos com mulheres em sua liderança.

Então transformaremos o mundo fazendo de um jeito diferente. Se as startups solucionarão os grandes problemas da sociedade, elas devem ser inovadoras e inclusivas, através da diversidade. E não veremos isso de forma concreta no ecossistema enquanto não alocarmos capital com este foco.

A indústria de venture capital está construindo o futuro. Qual futuro está sendo construído?


* Natural de Belo Horizonte, Rafaela Bassetti é advogada especialista em direito societário e tributário e em fusões e aquisições.