* Por Julia De Luca

Hype virando Mainstream

Não é de hoje que termos como “transformação digital”, “Inteligência Artificial” e “Machine Learning” estão em evidência no Brasil e no mundo. O que chamou mais atenção por aqui foi a dinâmica veloz em que a indústria de tecnologia se desenvolveu. O que antes era classificado como uma moda provisória com escritórios mais despojados e maior flexibilidade de hierarquia, virou o necessário. Em poucos anos, vimos startups virando unicórnios, empresas tradicionais investindo significativamente em inovação e a indústria de venture capital cada vez mais madura no Brasil.

O mercado financeiro foi diretamente afetado por essa transformação que está em curso – dado que ela mudou paradigmas no meio empresarial e afeta os modelos de negócio. Quase que automaticamente, analistas e gestores de renda variável tiveram que se atualizar rapidamente. O maior desafio do mundo tech é justamente esse aprendizado constante – trata-se de um processo contínuo de evolução.

A indústria de renda variável no Brasil tem hoje cerca de R$ 531 bilhões sob gestão. A capitalização (ou Market Cap) de todas as empresas listadas na B3 somam quase R$  3,5 trilhões. Do ponto de vista dos fundos de ações, há duas maneiras de enxergar a evolução da tecnologia no Brasil: i) risco para as incumbentes investidas no portfólio dos fundos, e como consequência desvalorização de suas ações ou ii) oportunidade através do investimento em novas empresas vindo a mercado ou ao aumento de concentração naquelas que estão conseguindo fazer sua transformação digital de forma efetiva.

“Wake-Up Call”

Apesar das opiniões divergirem em relação ao momento exato em que o mercado brasileiro “acordou” para tecnologia – seja se ocorreu com a realização de lucros advindo do IPO do Mercado Livre em 2007 ou com o IPO da Stone e PagSeguro em 2018 – fato é que hoje a vasta maioria das casas possuem um analista dedicado ao tema. A curva de aprendizado das assets locais seguiu uma sequência muito similar: i) estabelecimento e manutenção de contatos com o setor através dos fundos de venture capital; ii) cursos, leituras e viagens para entender como havia sido o desenvolvimento em outras partes do mundo como China e Vale do Silício; iii) investimento dos sócios na física em empresas de tecnologia não listadas, e finalmente, (iv) a abertura de veículos ou fundos que possam do ponto de vista regulatório investir tanto em empresas listadas na Nasdaq quanto em rounds privados.

No entanto, a análise de tecnologia ainda é superficial no Brasil – e isso está refletido no número de empresas que são de fato tech native listadas na B3. Atualmente, podemos afirmar que é o caso da Locaweb, e, mais recentemente, do Méliuz e da Enjoei. Na minha visão, a razão para esse número ínfimo é que ainda há uma dificuldade entre investidores brasileiros em como avaliar essas empresas.  Já temos um entendimento claro da estratégia, mas ainda é um desafio definir o valuation delas de forma assertiva. O conceito de “caro” ou “barato” não está tão claro

Ainda é só o começo

O fato é que ainda estamos no início da revolução tecnológica no Brasil. Apesar de empresas chamadas “tech tradicionais” serem representadas na bolsa através de LINX e TOTVS, por exemplo, tivemos apenas no início de novembro o primeiro IPO de uma venture-backed company no Brasil, o Méliuz, empresa mineira de cashback. Por que esse IPO foi importante? Além de dar a oportunidade a investidores e gestores de expressarem suas visões do setor em uma true tech company (vis-à-vis através de uma operação originalmente de Varejo, como a MagaLu), ela abre caminho para uma fila de startups virem para a bolsa.

Apesar de sabermos que há uma dezena de empresas de tecnologia se preparando para listarem na B3 – ainda não é claro para mim se o mercado está maduro o suficiente. Ainda vemos alguns fundadores preferindo listar suas empresas na Nasdaq- mesmo tendo operação e foco no Brasil. Mas isso está definitivamente mudando – inegavelmente vimos esse ano o movimento de algumas empresas na dúvida de onde estrear no mercado, e muitas já focando os esforços por aqui. O trade off é muito claro: se por um lado, os brasileiros conhecem a marca e entendem a operação das empresas no detalhe (afinal, o Brasil tem suas idiossincrasias) por outro, investidores globais tendem a entender e pagar por múltiplos mais altos.

Alguns dizem que 2020 foi só o começo, e que em 2021 vamos ver ainda mais empresas tech sendo listadas na B3: “a Nasdaq será aqui”. Apesar de achar essa afirmação um pouco exagerada, acho sim que o Brasil está no caminho certo e que no ano que vem teremos uma enxurrada de ofertas de tecnologia por aqui. Com o tempo, tanto as empresas quanto o mercado ficarão cada vez mais maduros.  Trata-se do ciclo natural de uma indústria que até 3 anos atrás era inexistente e inexpressiva por aqui.

Mulheres na Tecnologia

Como mulher, trabalhando há mais de 10 anos no mercado financeiro e há 5 com tecnologia, não posso deixar de mencionar a nossa falta de representação. No caso do mercado financeiro, não é novidade que a desigualdade de gênero é uma realidade. Menos de 25% dos CPFs cadastrados para comprar e vender ações no Brasil são de investidoras. Em um dado ainda mais discrepante, apenas 6% dos gestores certificados pela ANBIMA (possuem o CGA) são mulheres. Infelizmente, no mercado de tecnologia não é diferente. Um estudo recente do Crunchbase relatou que apenas 1 entre 5 unicórnios possuem pelo menos uma mulher na liderança. Por outro lado, o mesmo estudo também mostra que 23% das mulheres em posição de liderança nessas empresas são promovidas, quando comparado à 19% do sexo masculino. Não há dúvidas que a tecnologia fomenta a diversidade no mercado de trabalho – e que quanto maior a diversidade, melhores os resultados. Na prática, ainda precisamos ver isso tanto no Brasil quanto no mundo.


Julia De Luca é especialista Tech na área de Equities Sales do Itaú BBA, empresa membro do Cubo Itaú. Julia se juntou ao Itaú BBA em Outubro de 2018 como Tech Specialist na mesa de Equities Sales Insitucional. Antes disso, trabalhou por um ano e meio em Business Development de Tecnologia na Stone Pagamentos. Ela começou sua carreira em 2011 no Gávea Investimentos, onde trabalhou como Hedge Fund Sales Offshore por cinco anos. Julia é formada em Economia pela PUC-Rio.