Doar. Segundo o dicionário Michaelis, é todo o ato de entregar-se a uma obra, causa, pessoa, dedicar-se. É comprovado cientificamente que os seres humanos carregam dentro de si o desejo involuntário de ajudar, sobretudo em momentos difíceis. Porém, no caso do novo coronavírus, mesmo que das formas mais simples e respeitando as medidas recomendadas pelas autoridades de saúde, esse compromisso com o próximo tem se acentuado ainda mais.

Por outro lado, empresas de vários setores da economia também passaram a olhar com mais atenção aos impactos causados pela covid-19, em especial às camadas menos favorecidas, propondo soluções para minimizar os prejuízos causados neste público em específico. 

Um exemplo dessas organizações são as chamadas socialtechs, startups com foco social que estão se firmando como ferramentas de estímulo às doações no Brasil durante a pandemia. O termo pode parecer novo, mas algumas delas já possuem um caminho consolidado no ecossistema. Confira:

Ribon 

Fundada em 2017, a Ribon é um exemplo de empresa que nasceu com o intuito de tornar a doação para caridade uma cultura do brasileiro, indo além das campanhas nacionais de televisão, tudo de forma simples, eficiente e acessível. Partindo desse propósito, criou um aplicativo que permite qualquer pessoa fazer uma doação sem precisar gastar dinheiro.

“Hoje são 40 mil usuários ativos mensais na Ribon que ajudam oito dos maiores e melhores projetos sociais do Brasil e do mundo. Nós convidamos as pessoas para que se juntem ao nosso trabalho dentro de um app que pode ser baixado gratuitamente para Android ou iOS. Assim que faz o login, nosso usuário tem acesso a boas notícias que acontecem pelo mundo que são selecionadas pela nossa curadoria. Cada uma delas vem com uma quota de moedas virtuais chamadas de “ribons”, que vão sendo resgatadas pelos usuários. O acumulado dessas moedas virtuais compõe um saldo de ribons”, explicou Rafael Rodeiro, CEO da empresa.

Cada um dos projetos disponíveis, portanto, recebe a quantia que a base de usuários direcionou para eles. Por fim, os ribons se transformam em dinheiro, o qual vem das marcas e fundações parceiras da socialtech. “Além da doação sem gastar dinheiro, criamos o primeiro serviço de assinatura de doações para causas sociais do Brasil para atender aqueles que querem fazer doações em dinheiro usando a Ribon. É possível ser assinante deste serviço doando a partir de R$10 por mês via cartão de crédito”.

Logo no início, a Ribon foi acelerada pela Cotidiano com um investimento de R$100 mil reais. Meses depois, ao alcançar resultados mais expressivos, a empresa fechou uma rodada de R$ 1,15 milhão, liderada pela Redpoint Ventures.

Rafael Rodeiro, CEO da Ribon.

No Brasil, a Ribon atua em vários projetos. Só o “Favela Sem Corona”, campanha para aquisição de testes de covid-19 em comunidades no Rio de Janeiro, gerou a compra e distribuição de 200 testes. Um outro projeto, chamado de “Ação da Cidadania”, que visa adquirir cestas básicas e itens de higiene para famílias que perderam renda com a pandemia, está próximo de superar a meta estipulada pela empresa de 10 mil refeições entregues. “Nosso trabalho de escolha de projetos que entram na Ribon seguem a linha do altruísmo eficaz. Ou seja, observamos formas inteligentes e que comprovem eficiência em beneficiar o maior número de pessoas usando os recursos que realmente são necessários”, destacou.

Plataforma da Ribon.

Fora do país, a startup também atua em projetos como o “Evidente Action”, que luta pelo acesso à água potável para comunidades carentes no Quênia, Malawi e Uganda e o “Project Healthy Children”, que tem como foco combater a desnutrição infantil por meio de ações que visem a fortificação alimentar de crianças para promover um crescimento saudável.

“As escolhidas fora do Brasil constam na lista de ONGs da The Life You Can Save, que elenca um ranking de trabalhos sociais mais eficientes do mundo, que conseguem fazer um trabalho de alto impacto com menos recursos financeiros. Como nenhuma ONG brasileira consta nesse relatório, a Ribon criou uma metodologia própria para começar a beneficiar instituições atuantes no nosso país que seguem basicamente os critérios falados até agora. A pandemia da covid-19 acelerou o processo e facilitou a observação de quem consegue agir rápido”, apontou Raphael. 

Para Rafael, as socialtechs cresceram consideravelmente neste período de pandemia e estão dando uma amostra do potencial que elas têm. “Sou otimista em dizer que, no nosso setor, podemos fazer muito mais. Aliás, o mundo sempre precisou de pessoas dispostas a ajudar e isso nunca ficou tão evidente quanto agora. Colocar a tecnologia nessa equação significa uma possibilidade de escalarmos o impacto dessa ajuda de uma forma nunca antes imaginada”.

A Ribon segue em constantes negociações para fechar parcerias com novas fundações que tragam mais causas para o aplicativo. Assim, após a pandemia e dados os bons resultados obtidos até o momento, a empresa pretende fortalecer sua presença com causas brasileiras e, junto com isso, avançar no caminho da internacionalização da Ribon. 

“Recentemente fomos finalistas na etapa mundial da Seedstars em que, além de sermos a única startup brasileira classificada, éramos também a única que representava o setor de socialtechs. Essa e outras conquistas são sinais de que em breve a maneira brasileira de fazer doações para caridade será exportada para outros continentes”, finalizou.

eSolidar

Outra empresa que também está engajada nas causas sociais é a eSolidar. Criada há 7 anos, a startup portuguesa com atuação no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos, oferece às instituições de caridade espalhadas pelo país ferramentas fáceis para atrair recursos e aumentar a visibilidade.

“A eSolidar é uma nova forma de as pessoas e empresas poderem apoiar as causas sociais e as organizações sem fins lucrativos com que mais se identificam e preocupam. É possível comprar ativos vendidos pelas ONGs, participar em campanhas de crowdfudning, leilões solidários e fazer donativos. O registo na eSolidar é gratuito e permite às pessoas e empresas apoiar as organizações sem fins lucrativos, da forma que lhes for mais confortável”, explicou Rui Ramos, cofundador e CEO da eSolidar. 

As empresas, por sua vez, tem à disposição uma plataforma SaaS que permite gerir suas iniciativas de responsabilidade social, incentivando a participação, comunicação e o trabalho em equipe, além de aumentar e melhorar o envolvimento dos funcionários.

“A ideia passa também por dar poder aos seus funcionários para que eles sintam que fazem parte da empresa e colaboram com as decisões, podendo apoiar ativamente as causas sociais com que mais se identificam. Dessa forma, espera-se que as empresas aumentar e medir o impacto positivo, o branding, reputação e o envolvimento da empresa com a comunidade através da responsabilidade social”. Desde a sua criação, a eSolidar já captou cerca de 1 milhão de euros em investimentos.

Rui Ramos, CEO da eSolidar.

Atualmente, a eSolidar possui aproximadamente 100 ONGs registradas no Brasil e conta com uma comunidade de cerca de 65 mil pessoas. Durante a pandemia, a startup se juntou ao G10 Favelas e ao Canal Transformadores para ajudar diversas favelas brasileiras. Além disso, abriu abriu vaquinhas online para captar recursos para comunidades como Heliópolis e Paraisópolis, as duas maiores de São Paulo, e Rocinha, no Rio de Janeiro.

“O nosso trabalho junto das comunidades brasileiras, em colaboração muito próxima com o G10, tem sido fundamental nesta altura da pandemia, com diversas campanhas de crowdfunding a decorrer, através das quais já foram angariados cerca de R$ 1 milhão. Temos outras ONGs que têm obtido resultados incríveis, como por exemplo a ABRALE (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia), que através da nossa ferramenta de leilões, em menos de 1 mês angariou mais de R$ 10 mil e a Casa Ronald McDonald do Rio de Janeiro, também com quase R$ 20 mil angariados”, destacou. A ferramenta também é utilizada há 5 anos pelo Rock in Rio para criar e gerir seus leilões em prol da Amazônia. 

eSolidar e equipe do G10.

De acordo com Ramos, neste momento, a atuação das socialtechs, que fazem parte do terceiro setor da economia brasileira, são imprescindíveis e precisam da tecnologia para realizarem seus projetos. “Durante muitos anos, foi um setor esquecido pelo investimento e pela tecnologia. Com esta pandemia, tal como em outros setores, a transformação tecnológica foi acelerada e as organizações tiveram de reinventar os seus processos, quer de captação de recursos, quer de apoio às comunidades. Não tenho a menor dúvida de que quando regressarmos ao novo normal, empresas e cidadãos vão continuar a apoiar causas. Para isso, quanto mais soluções tecnológicas existirem, mais fácil será engajar as pessoas, medir o impacto e agir mais rápido”, finalizou.

Igual

Fundada em 2018 por André Mendes, Gabriel Pinheiro e Marcelo Raimondi, a Igual é uma plataforma que converte compras em impacto social, conectando marcas, instituições e consumidores. Funciona da seguinte forma: através da plataforma, o usuário escolhe quais os projetos que gostaria de ajudar com os seus “iguais”, a moeda social da startup. Assim, quando a quantidade de iguais necessária para a realização de um projeto for atingida, ele é realizado. “É uma plataforma social de cashback no Brasil que conecta marcas, pessoas e instituições”, destacou Marcelo Raimondi, fundador e CMO da Igual.

A Igual atende 17 projetos de impacto social, quatro deles realizados entre setembro e fevereiro do ano passado, quando a empresa ainda estava em fase inicial (ou alpha). A empresa ainda possui várias iniciativas voltadas para redução da desigualdade social. “Este é o motor para o desenvolvimento sustentável e inclusivo no Brasil”.

André Mendes, Gabriel Pinheiro e Marcelo Raimondi, sócios da Igual.

Desde a sua criação, os sócios já investiram aproximadamente R$ 450 mil no negócio e pretendem colocar, até o fim do 2020, mais R$ 1,5 milhão de reais na empresa. Com o aplicativo em atividade lançado no mês passado, Marcelo espera aumentar o número de clientes. “Temos 300 usuários cadastrados vindos de nossa fase alpha, ou seja, mesmo ainda não tendo o app disponível para download, nos surpreendemos com este número. Acabamos de lançar o nosso app (maio/2020) e a nossa meta para 2020 são 10.000 usuários”, afirmou. A primeira versão do aplicativo da Igual já está disponível para download na App Store (iOS) e Google Play (Android).  

Para o CMO, as socialtechs têm fundamental importância no cenário atual, mas não apenas durante este cenário. “A pandemia colocou uma lente de aumento em um problema já existente. Por ser global, o impacto foi devastador. No entanto, a medida em que a pandemia for sendo controlada, a tendência é que as pessoas fiquem menos sensibilizadas, por imaginarem que o problema também está reduzindo. Só que sabemos que o problema ainda estará lá. Tendo um layer extra adicionado decorrente do impacto do covid-19, é exatamente este o momento em que as socialtechs devem focar, na continuidade da solução de um problema pré-existente e que estará ainda maior para manter a engrenagem rodando”, afirmou.

Além disso, Marcelo acredita que com a pandemia, o desafio de encontrar marcas e pessoas que acreditem que gerar impacto social está além do lucro e benefício próprio, através de um modelo de negócio consciente, se torne cada vez menor. “As empresas irão perceber que o consumidor cada vez mais busca por marcas que compartilham ideais, causas. Seja para consumo ou para trabalho. É um movimento natural que já está acontecendo. Os consumidores estão buscando em empresas para solucionar para problemas sociais e econômicos e elas serão cobradas por isso. O consumidor de hoje, será o investidor de amanhã”.

Diante do atual cenário, especialistas apontam indícios de que a forma de consumir deve mudar. Assim, Raimondi aponta que ter um propósito social real fará a diferença na hora do cliente escolher uma marca ou produto em detrimento de outro. “O consumo já estava em transição. Tudo que está acontecendo apenas acelerou este processo, sem dúvida nenhuma. O propósito social será um fator decisivo, seja na compra de um produto ou de um serviço. Se você tem dois produtos com qualidade e preço similar, um tem causa e o outro não, qual você irá escolher depois que você viu de perto todos os problemas que a “lupa” do covid-19 trouxe a tona?”, finalizou.

Polen

A Polen é uma startup curitibana que usa tecnologia para descomplicar iniciativas de impacto social, permitindo que empresas dos mais diferentes tamanhos e tipos possam abraçar as causas que acreditam sem burocracias, engajando seus clientes. 

“Além de ser uma forma simples e acessível para as marcas apoiarem projetos sociais confiáveis, o papel do Polen é sempre trazer transparência para todas essas ações com um módulo exclusivo de relacionamento com a organização, envio automatizado de emails de prestação de contas e compilando dados financeiros e fiscais em um único local para que a empresa tenha controle e transparência total da ação”, afirmou Renata Chemin, cofundadora e CEO do empresa.

Atualmente, várias instituições, entre elas algumas de abrangência nacional e internacional, fazem parte da empresa, como a Central Única das Favelas (CUFA), Casa Ronald McDonald, Endeleza, Fundação do Câncer, dentre outras. “Já são mais de 300 empresas doando e essas conexões de impacto já destinaram mais de R$ 500 mil reais para projetos de transformação social”.

Renata Chemin, cofundadora e CEO do Polen.

Entre os outros serviços oferecidos pelo Polen, a empresa trabalha com a iniciativa do “troco solidário automatizado”, que já tem a adesão de e-commerces da plataforma Loja Integrada. A solução viabiliza o arredondamento do valor das compras realizadas em e-commerces e, em breve, estará disponível também para sistemas de lojas físicas. Essa automatização facilita inclusive a declaração fiscal dos valores doados, de modo que a empresa não tenha trabalho com isso.

“Funciona como nossa caixinha padrão, mas quem paga a doação é o consumidor, com um valor adicionado no checkout. Já com lojas físicas, estamos iniciando nossa operação com algumas parcerias. Em breve, já teremos alguns supermercados utilizando a tecnologia e tendo toda a curadoria e engajamento das ONGs realizado através do Polen. É um jeito simples de ajudar quem mais precisa”, afirmou.

Equipe da startup curitibana Polen.

Além de ações durante a pandemia, a empresa também trabalha com atividades voltadas à causas ambientais, por exemplo, além daquelas específicas de cada mês do ano, como outubro rosa, novembro azul e o Natal. Para Renata, empresas com verdadeiro cunho social estão preparadas para uma mudança social já há muito tempo e seus clientes podem responder aos desafios de forma rápida também. “Temos um grande mentor que costuma dizer que a diferença entre o empreendedor e o empreendedor social é que o empreendedor social sabe pra onde o mundo deve andar e por isso já está preparado para isso. Por essa razão, a resposta foi tão rápida e os impactos são visíveis”.

Ela já planeja as próximas ações da empresa pós pandemia. “Nosso roadmap está lotado! É incrível a quantidade de insighs e feedbacks que estamos recebendo sobre nossas soluções e tecnologias. Então estamos à todo vapor desenvolvendo diversas novidades para atender nossos clientes em outras frentes e cada de forma cada vez mais completa”.

Aporte recebido pela Polen

No início deste ano, a Polen recebeu um aporte de R$ 380 mil em rodada de investimento, que contou com a participação do GVAngels, Bossa Nova Investimentos, Angels4Impact, Curitiba Angels e investidores independentes. “Com o aporte que recebemos, pudemos fazer contratações importantes para responder rapidamente às constantes mudanças que esse momento vem no trazendo, além de nos permitir focar em excelência no atendimento dos nossos clientes e fortalecimento da nossa tecnologia. Além disso, a expertise e o smart money dos grupos nos ajuda muito a passar pelos desafios do dia a dia”, destaca a CEO. 

Foi a primeira vez que a GVAngels investiu em uma startup de impacto social. Para Kim Machlup, diretora do grupo de investimento, é de extrema importância aportar em empresas deste setor, sobretudo nos dias de hoje.

“Impossível não considerar que os negócios são corresponsáveis pelo bem-estar social e o meio ambiente. O Brasil possui diversos problemas estruturais e sistêmicos que precisam de soluções inteligentes capazes de criar a transformação necessária em seus respectivos setores. Estamos falando de educação, geração de renda, saúde, reciclagem. Uma boa tese de investimento permeia a resolução de um problema grande. E negócios de impacto social certamente possuem esse objetivo. Precisamos incentivar o empreendedorismo de impacto”.

Para ela, negócios de impacto socioambientais possuem desafios ainda maiores pois, em sua maioria, lidam com transformações culturais. “Tem surgido um número cada vez maior de socialtechs e bons empreendedores, muitos sendo empreendedores de segunda viagem. Apesar dos desafios e ao contrário do que muitos acreditam, podemos ver retornos financeiros de mercado para essas startups. Em um investimento de impacto, o retorno vai além do financeiro, pois através dele, permite ao investidor ser um catalizador de uma herança positiva à sociedade”, finalizou.


O Startupi segue trazendo iniciativas de empresas que estão trabalhando para minimizar os impactos causados pelo coronavírus. Quer saber mais? Clique aqui.