A chegada do novo coronavírus trouxe impactos diretos para diversos setores. Segundo a Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo de São Paulo (Fecomercio- SP) as pequenas e médias empresas tendem a ser as mais prejudicadas, principalmente, pela interferência no volume de vendas.

Como não existe uma previsão de quando as coisas voltarão ao normal, a saída agora é se reinventar, o que, para alguns empreendedores, pode ser uma tarefa difícil, já que o isolamento social impede que espaços físicos continuem a funcionar.

Nesse cenário, algumas iniciativas podem ajudar a mitigar os impactos causados pela queda de clientes, e consequentemente, o número de vendas. Dentre elas estão as plataformas de crowdfunding.

Em geral, o crowdfunding é uma modalidade de investimento coletivo que permite a pessoas de todos os lugares investirem pequenas quantias a fim de dar vida à uma ideia. Assim, em um momento como este, empreendedores podem criar campanhas e oferecer benefícios para seus clientes como descontos e recompensas em produtos e serviço, evitando, dessa forma, que o fluxo de caixa seja estagnado e os negócios totalmente parados.

Para te ajudar a entender melhor sobre essa alternativa, o Startupi conversou com algumas plataformas de crowdfunding que falaram um pouco mais sobre o atual cenário e deram dicas de como criar uma campanha de sucesso. Confira!

Crowdfunding garante movimentação na economia

Para Candice Pascoal, fundadora da Kickante, as plataformas de crowdfunding possuem um papel importante nos negócios, pois ajudam tanto na movimentação da economia de negócios já existentes como também auxiliam no start de ideias que ainda não saíram do papel.

“Muita gente tem a impressão de que para potencializar um negócio ou começar um novo é preciso capital de bancos, familiares ou acabar com todas as economias. Mas, muitas vezes, as pessoas podem se identificar, comprar a ideia e financiar o projeto. Para um negócio obter sucesso é preciso ter recursos e visibilidade, e com a ajuda do financiamento online isso é possível de maneira descomplicada”, afirma.

Candice possui experiência em arrecadação de fundos e já esteve à frente de projetos de captação de recursos na Europa, Ásia e Américas do Norte e Sul. Além disso, trabalhou no planejamento de produção de mala direta para arrecadação de recursos, usando a prática de one to one com mais de 200 organizações como: Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha e Anistia Internacional.

Assim, a partir da observação das dificuldades enfrentadas pelas ONGs para arrecadar recursos, de modo profissional, a empreendedora fundou em 2013 a Kickante. “Estou engajada em ajudar os brasileiros que querem ser empreendedores, realmente quero mudar o cenário das pesquisas que mostram que 82% das pessoas tem a intenção de empreender, mas apenas 1/3 dessas pessoas conseguem colocar os planos em prática. Todos os dias surgem novos cantores, empreendedores, escritores e ONGs que precisam de um empurrão para decolar os sonhos”, ressalta.


Candice Pascoal é fundadora da Kickante

Durante a quarentena, mais de 4 mil campanhas foram criadas em razão da covid-19, segundo Candice. Entre os perfis, ela destaca as empresas que foram impossibilitadas de trabalhar por determinações do governo, quem perdeu o emprego ou quem teve uma redução de renda e precisou tirar ideias do papel; além de campanhas de doações lançadas por empresas que pretender reverter parte ou o total do valor arrecadado para projetos sociais.

Para ajudar esses empreendedores, ela também fala sobre como eles podem usar o crowdfunding para movimentarem o caixa de seus negócios. Uma das opções apresentadas por Candice é a possibilidade de oferecer serviços que serão usados pós-pandemia em forma de voucher. Na Kickante, a empreendedora conta que algumas empresas estão entregando recompensas via delivery de acordo com o valor doado na plataforma.

O cadastro na plataforma é feito online e em poucos minutos a campanha já fica disponível para todos. É possível também escolher entre dois modelos: a ‘Tudo ou Nada’ ou a ‘Flexível’. No primeiro, o criador só recebe se atingir ou ultrapassar sua meta estabelecida. Caso contrário, todas as doações serão devolvidas automaticamente aos contribuidores e também não será cobrada a taxa, fixada em 10%, em relação a campanha.

No modelo Flexível é possível receber todo o valor arrecadado no término da campanha, mesmo que não tenha atingido a meta estabelecida. Em ambos casos, nesta opção, será cobrada a taxa de 10%.

A Kickante ainda auxilia o criador com um plano de marketing digital que o ajudará tornar o projeto um sucesso de captação em 60 dias.

“A Kickante é a única plataforma que dá o pontapé inicial sempre fazendo a primeira doação. Além disso, entramos diariamente em contato com quem contribuiu e que não teve sua transação aprovada (ou até aqueles que abandonaram a transação no meio do caminho) e pedimos que eles voltem e finalizem a contribuição. E o nosso time trabalha com afinco para usar as melhores técnicas de marketing digital e captação para melhorar o desempenho e arrecadação de cada campanha”, afirma Candice.

Para ela, o êxito está em uma campanha transparente, com o máximo de informação possível, e se possível, fotos e vídeos para manter os doadores informados. Além disso, o criador deve contar uma história encantadora, com título curto e direto para ganhar o público.

“Oferecer recompensas também é um fator a mais, elas não são obrigatórias, mas podem fazer grande diferença no valor arrecadado. Muitas pessoas podem se sentir atraídas pelo motivo da campanha. Já outras podem contribuir somente devido à recompensa que receberá. Além disso, divulgar o link nas redes sociais e entre os amigos para que ele seja ainda mais difundido, é sempre uma excelente estratégia”, aconselha.

Entre os cases de PMEs que criaram a campanha durante a quarentena, ela destaca a Casa Gentileza, do setor de turismo, localizada na Chapada dos Veadeiros. Através de recompensas, a empresa está oferecendo diárias compartilhadas, diárias em quartos privados ou até mesmo diárias em camping para quem doar.

Economia sustentável

Criado em 2011, o Catarse também nasce de uma dor:ver gente brilhante com projetos engavetados”, conta Leandro Saioneti, do time de Comunicação do Catarse.

Para ele, o crowdfunding oferece caminhos alternativos dentro da economia de forma sustentável e inovadora, excluindo a necessidade, por exemplo, de passar por diversas etapas intermediárias ou até processos burocráticos.

Logo, durante momentos como a crise atual, empreendedores conseguem manter seu negócio funcionando sem recorrer a medidas extremas. Além disso, as campanhas também podem ajudar no fluxo de caixa ao disponibilizar produtos ou serviços aos apoiadores do projeto.

“Outro ponto importante é a chance desse empreendedor ter contato com novos públicos, que talvez ainda desconheçam a sua empresa. Pegando o Catarse como exemplo, mais de 700 mil pessoas já apoiaram ao menos um projeto na plataforma, desde sua fundação”, ressalta Leandro.

Em relação ao apoio às campanhas criadas na plataforma, ele conta que o Catarse oferece ferramentas para ajudar o criador durante o planejamento e o lançamento da campanha, além de ajudar na divulgação das campanhas nas plataformas de comunicação da empresa.


Leandro Saioneti compõe o time de Comunicação do Catarse

Além dessas ações, para uma boa campanha, Leandro fala sobre o papel do empreendedor. “O realizador deve ter ciência sobre a importância de suas redes próximas para o start da arrecadação. Será a partir delas que o projeto ganhará impulso dentro do meio digital, ramificando-se para novos públicos”.

Ele também concorda que é essencial manter uma comunicação constante com os apoiadores compartilhando novidades do projeto, além de tirar dúvidas e relatar problemas. “O apoiador precisa ter conhecimento sobre o que está acontecendo na campanha apoiada”.

Agora, durante a quarentena, além de reforçar a divulgação de projetos que combatem as consequências da pandemia, a plataforma de crowdfunding criou o Catarse Solidária. A ação permite que os realizadores escolham a taxa paga ao Catarse pela campanha (antes fixada em 13%). “Uma decisão inédita em nossa história, que tem o objetivo de reforçar o laço mútuo de solidariedade que tanto precisamos agora”, diz Leandro.

A loja de roupas El Cabriton, localizada em São Paulo, foi uma das empresas que utilizou o crowdfunding para manter o caixa durante a quarentena. Em troca da doação, a marca ofereceu vale-compras com desconto (para uso imediato na internet ou troca posterior). Ao total, a campanha teve 303 apoios e arrecadou mais R$ 34.975.

A criação da campanha no Catarse também é feita online. Além do material de apoio, a plataforma também disponibiliza uma equipe de suporte dedicada a ajudar apoiadores e realizadores.

Mobilização rápida

Luiz Felipe Gheller, CEO e cofundador do Vakinha, conta que a plataforma surgiu em 2011 com o objetivo de criar uma ferramenta na qual os processos de arrecadação pudessem ser feitos online, de forma transparente, com baixo custo e sem a exposição de contas bancárias, por exemplo, mas possibilitando diversos meios de pagamento.

Segundo ele, o crowdfunding possibilita uma mobilização rápida para diversas causas. “A velocidade com que essas arrecadações acontecem gera o resultado no momento de maior necessidade, aumentando ainda mais o impacto dessas ações. São centenas de milhões de reais que trocam de mão de forma eficiente, indo de pessoas com capacidade de ajudar para pessoas que necessitam ajuda ou para viabilizar projetos que não existiriam sem esses recursos.

Ainda, segundo ele, as plataformas de crowdfuding são um dos métodos mais democráticos de distribuição de dinheiro por ser em ambiente aberto e possibilitar que as pessoas escolham em quais campanhas aportarão recurso, tornando-se assim uma alternativa diante do atual cenário. “É justamente em momentos de crise que esse movimento se torna mais importante, já que essa agilidade e eficiência são mais cruciais para a economia, permitindo que a própria sociedade eleja suas prioridades, se mobilize e viabilize as ações num espaço curto de tempo”, afirma.

Após o início da pandemia de coronavírus aqui no Brasil, Luiz Felipe revela que o Vakinha teve um aumento de 40% no número de campanhas criadas diariamente. Por dia, estão sendo criadas em média 2 mil campanhas, atingindo, ao total, 60 mil por mês.

“A solidariedade também aumentou muito, e não só para as campanhas relacionadas ao coronavírus. Tivemos mais que o dobro de doações mensais no Vakinha, o que mostra bem o perfil solidário do brasileiro”, afirma o empreendedor.

Luiz Felipe Gheller é CEO e cofundador do Vakinha. (Foto André Feltes/Divulgação)

Além das campanhas criadas em causa própria, ele diz que também surgiram outras vakinhas criadas por entidades e grupos a fim de ajudar empreendedores neste momento. “Tivemos desde a vaquinha do pipoqueiro da escola, que com o fechamento das escolas ficou sem ter para quem vender, vaquinhas para ajudar a diaristas, manicures, até empreendimentos de médio porte”, conta.

Um desses empreendimentos foi a 4beer, espaço dedicado à cerveja e gastronomia que possui algumas unidades em Porto Alegre. Usando a estratégia de recompensar os doadores com vouchers, o estabelecimento conseguiu arrecadar mais de R$ 30 mil até o momento.

Em paralelo a isso, clientes fidelizados da cervejaria organizaram uma outra campanha para bancar o voucher de maior valor da campanha original. “Uma vaquinha para ajudar na vaquinha”, exclama Luiz Felipe.

Segundo ele, a dica para alcançar o êxito em um crowdfunding é a divulgação. “Uma vaquinha só tem sucesso quando os amigos e familiares fazem as primeiras doações. Vaquinhas com grande repercussão tem uma quantidade incrível de doadores que não conhecem o criador da campanha, mas que ficam sabendo através dos primeiros doadores”.

Para apoiar também esses empreendedores, o Vakinha criou uma página que concentra todas as campanhas criadas em função do coronavírus. Com ela, “o usuário pode buscar as campanhas mais próximas a seu local, já que isso é fundamental para os estabelecimentos. Essa exposição aumenta muito o alcance dessas campanhas”, explica.

Além disso, a empresa buscou parcerias que pudessem impactar positivamente os estabelecimentos. Dentre elas está o PayPal e a SafePay que ao serem escolhidas como meio de pagamento para as doações dentro da plataforma, também contribuem com uma quantia.

No Vakinha, para criar uma campanha o usuário deve realizar um rápido cadastro e inserir algumas informações como meta e data de encerramento. A partir do valor arrecadado, a plataforma debita uma taxa fixa de 6,4% mais R$ 0,50.

“O Vakinha garante que estas transações sejam realizadas da forma mais segura possível. Portanto, este processo é concluído em 14 dias após a data da doação e é analisado e habilitado para a finalização, excluindo riscos de fraudes, explica ele. “O nosso modelo de negócios garante que todo o valor arrecadado seja transferido de forma completa para o usuário, independente de atingir a meta pré-estabelecida no ato da publicação”, conclui.


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