No meu entendimento, a importância de se conhecer teorias, modelos e exemplos reside no fato de que isso pode aprimorar as práticas. Isso serve especialmente (não “inclusive”) quando só se fala em mudar, mudar, mudar.

Descrever para entender, entender para resolver

Um dos melhores argumentos que encontrei fora da badalada comunidade startup mundial – e que, mesmo assim, serve para balizar a importância de questionar premissas, validar hipóteses, modelar negócios com o famoso canvas e desenvolver clientes – veio de Dan Roam. Contextualizando: ele é um piloto licenciado, formado em biologia e belas artes e fundou a empresa de consultoria em gestão Digital Roam para aplicar ao mundo dos negócios seu entendimento sobre visualização de problemas complexos. Trabalhou para Microsoft, eBay, Google, Wal-Mart, Boeing, Lucas Film, Gap, Intel, Cisco, IBM, Kraft, Stanford University, Carnegie-Mellon, MIT Sloan School of Management, Marinha dos Estados Unidos e até para o Senado dos Estados Unidos.

Roam lançou os famosos livros “O verso do guardanapo: resolvendo problemas e vendendo ideias com imagens” (que já foi o quinto livro de negócios mais vendido na Amazon) e “Desdobrando o guardanapo: o método prático de resolver problemas complexos com imagens simples“. A proposta de valor dele é:

a pessoa capaz de descrever melhor o problema é a que tem mais chances de solucioná-lo“.

Hábitos são conjuntos automatizados de ativações, comportamentos e recompensas – e nem tudo pode ser mudado

É aí que entra outro cara: Charles Duhigg. Jornalista, repórter investigativo do New York Times, já escreveu sobre como empresas queriam se aproveitar de idosos e sobre causas e consequências da crise financeira. Já recebeu diversos prêmios (como o da National Academies of Science) e foi finalista do Prêmio Pulitzer (equivalente ao Oscar, só que para jornalistas e escritores).

Em seu livro “O poder do hábito: por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios“, ele foi fundo e pesquisou coisas como a origem do pensamento científico na propaganda, a necessidade do aroma e da sensação refrescante para que as pessoas usassem creme dental, e como um presidente da gigante dos minérios Alcoa focou na segurança do trabalhador como ponto central da sua estratégia de produtividade.

Pessoas inovadoras buscam a todo momento fazer as coisas de jeito diferente dentro do contexto em que atuam, seja como funcionário, seja como membro de uma entidade ou ainda líder ou fundador de alguma iniciativa. E já virou até piada interna no meio empreendedor o número de vezes em que as startups dizem que querem fazer do mundo um lugar melhor. Eu não acho que isso seja uma piada, acho muito nobre, mas sei que não basta querer, nem basta ficar tentando com força. Tem coisas que não podem ser mudadas.

Lembra da frase “o papel aceita tudo”, ou da expressão “página em branco”? Significam que qualquer coisa que você imaginar você pode escrever ou desenhar (dependendo apenas da sua habilidade imediata). Da mesma forma, computadores são uma página em branco e aceitam tudo. Por isso, muita gente programa aplicativos tão inusitados e até com pretensões de revolucionar o mundo. E não é só no software: no mundo físico isso também acontece com vários produtos e também na elaboração de Planos de Negócio a imaginação e a teorização correm soltos, sem pudor ou restrição. Entretanto, a realidade pune.

Conforme expliquei em outro editorial, é possível entender que alguns produtos e serviços são como ferramentas, utilitários que fazem uma coisa em específico. São como peças ou engrenagens que precisam não apenas encaixar, mas engrenar, girar junto com tantos outros componentes de algo que podemos chamar de “grande motor da economia” ou ainda “ordem geral das coisas no universo”. Cito isso porque o problema, muitas vezes, é que a sua criação (seja em papel, seja em software, seja em hardware, seja em Plano de Negócio) nem sempre engrena: fica apenas girando em falso sem tração. Muitas vezes, isso deve-se ao fato de as propostas de valor serem revolucionárias e ingênuas demais: “eu proponho que agora as pessoas consumam tal coisa de tal forma”, ou “que trabalhem” ou “que façam” qualquer coisa.

Nem mesmo o mais poderoso dos empresários e investidores consegue que o mundo obedeça seus caprichos. O jeito é estudar os hábitos das pessoas, o comportamento dos usuários, o processo dos clientes, e aí sim moldar uma engrenagem que, quando colocada lá no meio desse hábito/comportamento/processo, siga girando em seu favor. Assim, procure primeiro decifrar os hábitos, comportamentos, processos: eles são a sua área de atuação, o seu “problema”. Saiba descrevê-lo. Aí sim, busque uma solução que vá pontualmente encontrar seu lugar no meio da “rotina” do problema.

Recomendo o livro a todos. Está muito bem embasado, não se limita a auto-ajuda. Outro cabeção, o ensaísta Ralph Waldo Emerson, oferece um alerta bastante inspirador:

“pode haver mais de um milhão de métodos, mas são poucos os princípios; quem souber os princípios pode selecionar seus métodos, mas quem testar os métodos ignorando os princípios certamente terá problemas“.