* Por Lígia Lopes
A biometria facial se consolidou como símbolo da digitalização do sistema financeiro brasileiro. A abertura de contas ficou mais rápida, a experiência do usuário melhorou e as exigências de identificação passaram a ser atendidas de forma prática. O problema é que eficiência operacional não significa, necessariamente, proteção contra fraudes.
Existe hoje um paradoxo no onboarding financeiro: a tecnologia mais associada à conformidade regulatória não é, necessariamente, a mais eficaz para identificar riscos. Segundo análises da Serasa Experian, 56% das fraudes detectadas no mercado financeiro brasileiro são identificadas por inconsistências cadastrais, como informações incompatíveis de renda, endereço ou histórico financeiro. São sinais que uma selfie simplesmente não captura.
A biometria facial responde a uma pergunta importante: a pessoa é quem diz ser? Ela verifica a correspondência entre rosto e documento, detecta tentativas básicas de fraude e confirma a presença de um usuário real. Mas, o desafio atual do setor financeiro vai além da autenticação da identidade.
Grande parte das fraudes contemporâneas ocorre com documentos legítimos, CPFs válidos e identidades reais. O problema está no contexto. É nesse espaço que surgem inconsistências que revelam riscos ocultos, mas que permanecem invisíveis para sistemas focados apenas na validação biométrica.
O cenário se torna ainda mais desafiador diante da evolução tecnológica. O avanço das ferramentas de inteligência artificial generativa ampliou significativamente a sofisticação dos ataques digitais. Deep fakes e outras técnicas de manipulação de imagem reduzem a eficácia de sistemas tradicionais de verificação, exigindo abordagens mais robustas.
Ao mesmo tempo, o ambiente regulatório também está mudando. As novas resoluções publicadas pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional em 2025 reforçam a necessidade de cruzamento de informações e consultas a bases externas durante os processos de onboarding. Na prática, isso representa um reconhecimento de que a validação biométrica, sozinha, não é suficiente para sustentar os níveis de segurança exigidos pelo mercado atual.
Nesse contexto, ganha força o conceito de cadastro inteligente. A proposta não é substituir a biometria facial, mas integrá-la a outras camadas de análise capazes de gerar uma visão mais ampla do cliente. O Open Finance desempenha papel central nessa transformação. Com autorização do usuário, instituições podem acessar dados financeiros que permitem confrontar informações declaradas com comportamentos efetivamente observados. Renda, padrão de consumo, histórico de movimentações e relacionamento com outras instituições passam a compor uma avaliação muito mais consistente.
Outra frente relevante é a biometria comportamental, que analisa padrões de navegação, digitação e interação digital para construir perfis dinâmicos de comportamento. Diferentemente de uma fotografia estática, esses sinais evoluem continuamente e oferecem novas possibilidades de identificação de anomalias e tentativas de fraude.
A principal mudança, porém, é estratégica. Historicamente, o onboarding foi tratado como uma etapa burocrática necessária para cumprir exigências regulatórias. O cadastro inteligente propõe uma lógica diferente: transformar o primeiro contato do cliente com a instituição em uma fonte contínua de conhecimento.
Em vez de encerrar o processo com a confirmação de uma identidade, o onboarding passa a iniciar a construção de um modelo capaz de apoiar decisões futuras de crédito, prevenção a fraudes, personalização de ofertas e gestão de relacionamento. No cenário financeiro atual, conhecer o cliente tornou-se tão importante quanto identificá-lo. E essa diferença pode determinar quais instituições estarão preparadas para competir em um mercado cada vez mais orientado por dados.
*Lígia Lopes é CEO da Teros



