* Por Paula Viel

A comunicação é o aspecto mais importante da evolução humana. Então, por consequência, está inserida no sucesso de todas e quaisquer áreas e profissões. Saber se comunicar é um soft skill essencial para o desenvolvimento de carreira e liderança, mas a comunicação também se apresenta como ciência. Nesse quesito, especialistas estudam os comos e os porquês – e muito mais do que isso! – da comunicação na sociedade, como no ambiente corporativo. 

As Relações Públicas fazem parte desse campo de estudos, e trazem desde debates epistemológicos a ações práticas e cotidianas de como a comunicação atua nas organizações. A formação em RP é muito focada em estratégia e em planejamento, para que as mensagens transmitidas sejam captadas pelos espectadores da maneira mais precisa possível. E essa foi a minha formação: pensando em cada aspecto da comunicação, não só nas palavras em si, mas na forma, estética e significados, considerando os públicos, os contextos e as mensagens. 

Há um dilema no mercado: devemos ser profissionais multidisciplinares que topam tudo ou as empresas precisam se conscientizar do escopo de trabalho de cada área e profissão e não exigir conhecimentos que o ultrapassem? Pessoalmente, eu voto nas duas opções. É claro que as vagas para “Analista de Comunicação Jr” que exigem conhecimentos em softwares gráficos, HTML, edição de vídeo, social media, direção de arte, escrita criativa, etc etc etc, são absurdas porque têm o objetivo de reduzir custos, unificando funções, em detrimento do próprio candidato/colaborador. 

Ao mesmo tempo, uma formação multidisciplinar é um grande diferencial de carreira. Mas é preciso saber como combinar os diferentes aspectos de cada atuação. No meu caso, sempre entrei na comunicação e saí no design. A área criativa é uma paixão pessoal e eu desenvolvi diversas habilidades ao longo dos meus estudos e carreira. Eu fui (e sou!) a profissional capaz de fazer (quase) qualquer coisa. E isso me esgotou e impactou negativamente a minha saúde mental… mas isso é papo pra outro texto! Quero contar aqui como os raciocínios que desenvolvi como relações-públicas são utilizados na minha atuação como designer, mais especificamente como designer de produtos digitais (ou UX/UI designer, como o mercado gosta de chamar). 

O pensamento do Product Designer precisa considerar sempre os públicos, as mensagens, o trabalho e o caminho que o usuário vai ter que percorrer para executar as tarefas propostas. Dentro de um aplicativo, o PD desenha os fluxos para cada atividade e desenvolve as interfaces que permitirão a realização delas. Nas relações públicas, a atuação não é muito diferente. Apesar de outcomes distintos, o racional tem como ponto chave a estratégia de otimizar a mensagem para que o usuário ou espectador a receba efetivamente. Na construção de um texto, a narrativa vai levando o leitor à interpretação. No universo dos produtos digitais, a interface, a usabilidade e as chamadas são as responsáveis por criar esses caminhos. 

Além disso, nos quesitos planejamento e mensuração, as áreas também se complementam. O foco na estratégia e na elaboração e organização de um plano tático de comunicação integrada pode ser incorporado para o design, uma vez que o processo de criação não deve ser apenas baseado em estética, achismos e modismos, mas em dados e informações que baseiam e direcionam as decisões. Na hora de metrificar, pensar desde o início o que vai ser medido e seguir o projeto prestando atenção nas oportunidades que se apresentam. 

Trago, então, a reflexão de que uma formação e atuação multidisciplinar não se trata apenas de possuir habilidades distintas que preenchem o currículo, mas de entender como elas se relacionam e podem trabalhar juntas, emprestando suas características e raciocínios para melhorarem a execução das atividades vizinhas. Ser um profissional multidisciplinar é saber ler nas entrelinhas. Sabe aquele questionamento de quando a gente estava na escola estudando matemática e se perguntando quando iria usar tudo aquilo que estava aprendendo? Talvez eu nunca mais use a fórmula de Bháskara, mas o raciocínio que eu desenvolvi aprendendo sobre ela é muito bem-vindo e aproveitado no meu cotidiano como profissional criativa e de inovação.


Paula Viel é mãe da Elis em tempo integral e product designer da Intelipost, startup membro do Cubo Itaú, nas horas vagas. Formada em relações públicas pela ECA-USP, mas construiu uma trajetória multidisciplinar na área criativa, atuando desde a estratégia, até a execução e mensuração de campanhas de comunicação integrada, desenvolvimento de produtos digitais (UX/UI) e customer success. Coleciona mais de 10 anos de experiência, passando por startups, empresas de tecnologia, agências de publicidade e agências boutique de comunicação.