* Por Marcos “Rasta” Schestak

Vivemos numa época fascinante e desafiadora. Economia, sociedade, trabalho, educação: tudo muda rapidamente, de forma muito profunda e contínua, o que exige de todos nós uma constante revisão de métodos, estratégias e conhecimentos.

O grande vetor das transformações neste início de século 21 é a revolução tecnológica, que vem provocando mudanças em diversas áreas, como na educação corporativa. E se a transformação digital já chacoalha o mercado de trabalho há algum tempo, com a pandemia, essas mudanças foram aceleradas de tal forma que os profissionais, da noite pro dia, precisam agora desenvolver novas competências e habilidades, sejam elas técnicas ou comportamentais. 

Para as empresas, o momento atual traz o desafio de refletir sobre novos conceitos, visões e estratégias para garantir o desenvolvimento de suas equipes num mundo a cada dia mais frágil, ansioso, não linear e incompreensível – o mundo BANI, conforme o conceito desenvolvido pelo antropólogo e futurista americano Jamais Cascio.  

É nesse contexto que vejo o microlearning como uma das grandes tendências na área de educação corporativa em 2021. Trata-se de uma nova abordagem educacional orientada por pequenas unidades de aprendizagem e conteúdo consumidos num curto espaço de tempo. São pílulas de conteúdo multiformatos (vídeos, games, textos e podcasts), organizados em jornadas de aprendizagem que podem ser acessadas a qualquer momento e por diferentes devices – o celular, por exemplo.

Embora a curta duração seja uma das características dessa nova metodologia, esse é só um dos aspectos que definem o microlearning. No fundo, estamos falando de um modo diferente de ensinar e aprender, que deve ser estruturado a partir de objetivos claros e previamente estabelecidos. Ele deve ser pensado como uma trilha de aprendizagem moderna e flexível, com desafios e jornadas de conteúdos gamificados. Tudo isso para criar uma experiência única e engajadora de aprendizado para os colaboradores das empresas.

Repare que isso é bem diferente de simplesmente oferecer dezenas ou centenas de vídeos curtinhos para o funcionário acessar, e o RH ficar satisfeito acreditando que capacitou sua equipe. O ponto relevante é que o microlearning proporciona, de fato, resultados de aprendizagem mais efetivos.

Doses diárias de conhecimento

Segundo uma pesquisa veiculada pelo Journal of Applied Psychology, publicação da American Physiological Society, o microlearning apresenta como vantagens o fato de ser 17% mais eficaz no processo de aprendizagem que os métodos tradicionais (e-learning), facilita a retenção de informação e possibilita uma maior compreensão sobre o que é ensinado. Além disso, seu formato e linguagem se mostram mais adequados aos novos hábitos de consumo de informação na era digital, especialmente por parte dos millennials, que já representam cerca de metade da força global de trabalho, segundo estimativas da Forrester.

Dados da Association for Talent Development (ATD), a maior organização do mundo dedicada ao desenvolvimento de talentos nas organizações, indicam que 53% dos millennials preferem treinamentos on-the job – durante o trabalho – em vez das abordagens convencionais de capacitação, como palestras ou cursos presenciais ou online com dia e hora marcados.    

É exatamente o que muitos especialistas e pesquisadores defendem: que a aprendizagem se encaixe naturalmente no fluxo de trabalho diário, distribuída em pequenas doses que podem ser acessadas quando, onde e como a pessoa quiser.

O microlearning envolve os funcionários na participação voluntária, baseando-se na ciência do cérebro (como as pessoas realmente aprendem), adaptando-se continuamente para cimentar o conhecimento necessário para ter sucesso e, por fim, estimular comportamentos que gerem resultados específicos de negócios, como alcançar as metas de uma campanha de vendas, por exemplo.

“A sociedade está começando a ver uma revolução no mundo do trabalho, e talvez o formato que essas startups estão oferecendo seja uma maneira de se manter atualizado e relevante”, escrevem Alexandre Teixeira e Clara Cecchini, autores do livro recém-lançado “Aprendiz ágil – lifelong learning, subversão criativa e outros segredos para se manter relevante na Era das Máquinas Inteligentes”. “A curta duração tem apelo para gente com apetite para aprender, mas sem disposição ou tempo para encarar um MBA inteiro, fazer outro curso universitário ou uma pós-graduação. Essas pessoas parecem estar olhando cada vez mais para opções mais rápidas e customizadas.”   

É por essas e outras razões que diversas empresas já oferecem o microlearning aos seus colaboradores. É o caso da Red Bull, Danone, e Volkswagen, entre outros gigantes de vários setores. Os programas rodados por essas companhias muitas vezes são desenvolvidos por startups que têm plataformas especializadas em microlearning, indicando um segmento novo e promissor na área de tecnologia.

Um aspecto importante que cada vez mais organizações enxergam é a necessidade de desenvolver uma cultura de aprendizagem ágil e moderna, baseada em experiências significativas e flexíveis. E sempre apoiada em objetivos claros e mensuráveis por parte da empresa, como o desenvolvimento de competências específicas nos colaboradores ou capacitação de equipe de vendas ou atendimento.

Por suas características, o microlearning é uma metodologia que pode funcionar bem para todas essas situações. Com a vantagem de que tudo pode ser acompanhado e medido, praticamente em tempo real, pelos gestores de RH e líderes de equipes.

* Marcos “Rasta” Schestak é CEO e fundador da BASE Digital e da Grano.