A atualização da NR-1, Norma Regulamentadora nº 1, marca uma mudança estrutural na forma como as empresas brasileiras devem lidar com saúde mental no ambiente de trabalho. A partir da nova diretriz, riscos psicossociais — como estresse crônico, burnout e sobrecarga cognitiva — deixam de ser tratados como questões individuais e passam a integrar a agenda de gestão corporativa, com exigência de monitoramento, indicadores e planos de ação.
O movimento ocorre em meio ao agravamento da crise de saúde mental no país. Dados da Gupy apontam recorde de afastamentos por transtornos mentais em 2025, com mais de 546 mil casos registrados. Ao mesmo tempo, cerca de 4 em cada 10 profissionais já apresentam algum nível de risco psicossocial.
Para Rui Brandão, da Conexa, o impacto financeiro desse cenário é significativo e já mensurável. “Estamos falando de aproximadamente R$ 3,7 bilhões pagos em benefícios, considerando uma média de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil por mês por beneficiário, durante cerca de quatro meses de afastamento”, afirma.
Além do custo direto com afastamentos, Brandão destaca efeitos indiretos relevantes. “O custo por reposição de um trabalhador no Brasil gira entre R$ 15 mil e R$ 25 mil, considerando desligamento, recrutamento e rampagem. E colaboradores com transtornos mentais podem gerar até três vezes mais custos médicos, pressionando a sinistralidade dos planos de saúde”, diz.
Produtividade sob pressão
Um dos principais pontos de atenção da nova NR-1 é a sobrecarga cognitiva, identificada como um risco disseminado nas empresas. Levantamento da Conexa em parceria com a Zenklub indica que 93% das companhias apresentam alto risco nesse fator.
Segundo Brandão, esse cenário afeta diretamente a performance. “Não estamos falando só de saúde, mas de resultado de negócio. Esse ambiente leva ao presenteísmo, quando o profissional está trabalhando, mas produz menos. Estudos mostram que isso pode reduzir a produtividade em até 30%, além de aumentar erros e retrabalho”, afirma.
Ele acrescenta que o impacto é amplo: “No fim do dia, isso se traduz em menor eficiência operacional, queda de performance e aumento de custos invisíveis”.
O que muda com a NR-1
A atualização da norma exige que empresas passem a identificar e monitorar riscos psicossociais de forma estruturada, com participação ativa dos trabalhadores. Na prática, isso implica a adoção de novos indicadores e processos internos.
“O primeiro passo é aplicar questionários para mapear os riscos. Depois, é necessário cruzar esses dados com indicadores já existentes, como pesquisas de clima, atestados médicos, afastamentos e dados do plano de saúde”, explica Brandão. “A partir disso, a empresa deve estruturar um plano de ação.”
Outro ponto relevante é que os riscos são considerados transversais, atingindo diferentes setores e perfis. “A sobrecarga cognitiva aparece em praticamente todos os segmentos. O que muda é a forma como ela se manifesta — seja por multitarefa, ritmo intenso ou metas rígidas”, diz.
Retorno sobre investimento
Apesar do aumento das exigências, especialistas apontam que a gestão estruturada da saúde mental pode gerar retorno financeiro. Estudos da Organização Mundial da Saúde indicam que cada dólar investido em saúde mental pode gerar até quatro dólares em produtividade.
“Empresas que adotam uma estratégia proativa conseguem reduzir afastamentos e melhorar indicadores críticos para a sustentabilidade do negócio”, afirma Brandão. Ele também destaca ganhos em retenção: “Dados mostram que colaboradores engajados em programas de saúde mental permanecem, em média, 30% mais tempo nas empresas”.
Além dos indicadores mensuráveis, há efeitos reputacionais. “Existe impacto direto na percepção de marca e na capacidade de atrair talentos, além da redução do presenteísmo”, conclui.
Com fiscalização prevista a partir de maio de 2026, a atualização da NR-1 pressiona empresas a acelerarem a adaptação. O novo cenário exige que saúde mental deixe de ser tratada como benefício e passe a integrar a estratégia de gestão de riscos e compliance.
Na prática, isso significa incorporar métricas, tecnologia e governança para lidar com um problema que, além de social, já se consolidou como um fator relevante de desempenho econômico.
Aqui, Janguiê Diniz fala sobre os impactos da NR-1 para instituições de ensino superior, confira!



