O Digitalks Expo, principal evento da economia digital e tecnologia do Brasil, entrou em seu segundo dia repleto de bons conteúdos. Este ano, apesar do formato diferente devido à pandemia do novo coronavírus, o que não mudou foi a qualidade das palestras e painéis de debate.

A programação contou com a presença de líderes de grandes players do mercado: Carolina Sevciuc, diretora de Transformação Digital da Nestlé; Daniel Knopfholz, CIO do Boticário; e Evandro Garcia, diretor Global da Phillips, que falaram sobre como a transformação digital tem se tornado uma constância das empresas, sobretudo em tempos de pandemia. 

Daniel começou o painel contando da sua história dentro do Boticário. Ele, que está na empresa desde 2008, é formado em Comunicação, mas acabou migrando para a área de tecnologia. Knopfholz contou sobre o início da carreira dentro deste setor e o quanto sentia que tal departamento precisava se renovar. 

“Primeiro não sabia nada, não conhecia, mas depois eu percebi que aquela área era formada por uma equipe de uma baixa autoestima: você tinha muitos Daniéis reclamando, dando feedbacks negativos e maltratando aquela equipe, levando para uma sensação de derrota, para uma sensação de ‘nada funciona’ e que o mundo vai ser sempre difícil para mim. Ao mesmo tempo, aquela equipe tinha dificuldades, limitações, era uma equipe que tinha sido educada para trabalhar com projetos, cada um no seu pedaço, na sua fatia”.

Diante desta situação, Daniel sentiu a necessidade de promover uma mudança cultural dentro da empresa para então, gerar inovação. “A primeira coisa que a gente fez foi reestruturar a hierarquia da organização: a gente deixou de trabalhar por diretoria, como a gente trabalhava antes, e passamos a trabalhar por cliente. Colocamos grupos multidisciplinares, de estilos diferentes, trabalhando para cada um dos clientes finais. A segunda coisa que a gente fez logo em seguida foi alocar esses times junto com as unidades, as marcas”.

Assim, ao mudar radicalmente a forma de trabalho dentro do Boticário e ter contratado vários desenvolvedores, a empresa deixou de ter uma área de inovação, esta que passou a ocorrer separadamente dentro desses grupos. 

“Quando você coloca a equipe especializada naquele cliente, sabendo quais são suas dúvidas, com as ferramentas suficientes para poder melhorar o tempo todo a experiência e a vida daquele cliente, a inovação acontece porque você tem um problema na mão e não um ‘Professor Pardal’ tendo ideias mirabolantes. Quando você joga o problema para alguém resolver e essas pessoas que estão comprometidas com o problema do cliente e não mais com entregar um projeto, elas são muito mais inovadoras”, destacou. 

Ele deu três recomendações para quem quer inovar, mas não sabe por onde começar. “É importante inovar, mas mais importante é resolver um problema. E se essa solução de problema for de uma forma inovadora, ainda melhor. A segunda coisa é que só se resolve o problema quem conhece o cliente. E a terceira coisa é que tem que persistir, porque quando você começa a fazer isso, você provoca muita mudança, muita gente sofre, muita gente fica com medo e você tem que acreditar muito que você tá indo para o caminho certo”.

Carolina Sevciuc, diretora de Transformação Digital da Nestlé (superior à direita), Daniel Knopfholz, CIO do Boticário (inferior à esquerda), Evandro Garcia, diretor Global da Phillips (inferior à direita) e Paulo Kendzerski, presidente do Instituto da Transformação Digital (superior à esquerda).

‘Evolução’, não ‘revolução’

Carolina Sevciuc, diretora de Transformação Digital da Nestlé, contou um pouco sobre o início de sua carreira dentro da Nestlé, chamando a atenção para o momento em que, a partir de uma conversa com o presidente da empresa, tinha como missão ser uma das responsáveis por colocá-la “em um outro patamar”. Segundo ela, o primeiro passo foi entender que a transformação digital é compreendida de forma diferente por cada um. 

“Por que transformação e por que digital? Digital, na verdade, vinha muito pela questão da agilidade, sobre fazer muito rápido, e transformação porque não tem como a gente fazer uma evolução (não estou falando de revolução, estou falando de evolução dentro da companhia) e alcançar novos patamares sem falar sobre transformar, e é transformar as pessoas”.

Feito isso, para que a transformação digital ocorresse de fato dentro da empresa, Carolina destacou o papel preponderante da inovação, esta que deve ir além do produto final em si. “Pode ser uma solução, pode ser um modelo de negócio, um impacto positivo dentro da sociedade. Sabendo disso, viramos a chave e com isso veio a cultura e o mindset de transformação digital”. 

Além de reforçar o papel importante da área de tecnologia da informação dentro da Nestlé, ela destacou a relevância da equipe de vendas digitais, que acompanhou o aumento das compras pela internet durante a pandemia. Em três meses, o setor saltou de 7 colaboradores para 108, somente com realocações dentro da própria empresa. “Elas tinham amplitude e um pensamento que elas estavam se olhando como consumidoras. Eu não preciso sair fazendo pesquisa: eu tenho lá dentro consumidores que podem gerar impacto positivo para o meu negócio em um tempo muito menor”, disse.  

Rapidez e cuidado com as “armadilhas”

Evandro Garcia, diretor global da Phillips, começou pontuando a preocupação da empresa com a transformação digital, destacando a presença da companhia em vários setores e mercados da sociedade com soluções para hospitais, clínicas e consultórios médicos. 

Segundo ele, o Brasil já possui tecnologias avançadas na área da saúde, estas que seguem sendo essenciais no combate ao novo coronavírus. “Essa cultura de digitalização de saúde já está mais avançada no Brasil, que iniciou isso há 25 anos atrás. Em países como Alemanha, por exemplo, a cultura ainda não é tão forte nesse sentido”, afirmou. Por outro lado, ele chama a atenção para as “armadilhas”, que podem trabalhar contra o mindset de transformação, como a demora em colocar em prática as soluções.

“Acho que é importante que o usuário interno, que o cliente, quer quem esteja envolvido no processo, tenha entregas rápidas ou resultados rápidos, algumas vitórias rápidas que mostram a eficiência da transformação. Isso é super importante. Ou aumentar muito o custo, você ter uma transformação em todo o processo, mas no final, o alto custo não tiver um retorno eficiente. Não faz muito sentido isso. Por fim, ter uma organização, como estruturar essa transformação”. Neste último caso, ele aconselha um papel ativo da liderança da companhia, bem como a criação de parcerias estratégicas.

Insights

Ao fim do debate, cada um dos convidados deixou algumas considerações. Daniel aconselhou que, para começar um processo de transformação digital, as empresas precisam se cercar de pessoas que saibam do que estão falando, ou que possuem um bom senso para isso. “Não contrate os mágicos, não contrate aqueles que ficam prometendo grandes revoluções imediatas ou que tenham receitas prontas. Esse provavelmente vão fazer você perder mais tempo”.

Carolina finalizou dizendo que, em primeiro lugar, é preciso levar em conta o ambiente em que a sociedade está inserida atualmente, que também tem influenciado e acelerado a mudança de comportamento do consumidor. “Tem uma coisa que é única quando se fala de transformação digital: foco no consumidor, no cliente, isso depende de pessoas”. 

Ela concordou com Daniel e reforçou a participação de pessoas e pensamentos diversos durante o processo de transformação digital. “Cerque-se de parceiros. Transformação digital não se faz sozinho, é uma agenda da organização, tem que ser orquestrado, tem que ter um portfólio onde você orquestra algumas iniciativas e lidera outras. Isso tem que transbordar os valores da empresa, se isso não tiver princípio e valor da empresa, não é sustentável”.

Já Evandro terminou o debate dando algumas algumas dicas para orientar o empresário de médio porte no Brasil. “Eu aconselho que ele estruture uma área focada nisso, com líderes, com uma estratégia bem definida, dentro dos modelos que existem no mercado, no segmento que atuam. E tem que implantar isso o quanto antes, se ele ainda não tem iniciado”. 

No caso do empresário menor, o diretor da Phillips indicou que, em um primeiro momento, é preciso começar uma transformação digital olhando tanto para os funcionários quanto para o cliente final. “Tentar ser mais eficiente no que hoje talvez seja um gargalo que impossibilita reduzir custos importantes para o seu negócio ou implementar a sua receita no curto prazo de tempo. A gente fala muito de ser digital, mas às vezes ser mais lean no processo também traz um resultado tão bom quanto e impulsionará a transformação digital dessa empresa em um momento futuro”, finalizou.