* Por Jeferson Manhaes

Nos últimos tempos, vemos o crescimento da discussão acerca do avanço tecnológico e econômico aliado com a preservação do meio ambiente. Nesse contexto, surge a ecoinovação, que consiste na aplicação de um modelo de negócios centrado em inovação, mas forjado por uma estratégia que incorpore a sustentabilidade em todas as operações dos negócios. Essa estratégia tem como base o pensamento de todo o ciclo de vida e em cooperação com os parceiros de toda a cadeia de valor.

Muito em voga na Europa e na Ásia, a ecoinovação é, acima de tudo, uma oportunidade para as empresas. Ela transforma fatores como a escassez de recursos em chance para reduzir custos, a crescente demanda por produtos sustentáveis em ensejo para lançar tendências e o cumprimento e antecipação às pressões regulatórias ambientais em vantagens competitivas importantes no mundo dos negócios globais.

Pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) constatou que empresas ecoinovadoras de todos os tamanhos estão crescendo, em média, a uma taxa de 15% ao ano, num momento em que os seus respectivos mercados permanecem estabilizados. Startups são particularmente suscetíveis à ecoinovação devido à sua adaptabilidade e flexibilidade. 

A startup francesa Eco2Distri, por exemplo, beneficiou-se do desenvolvimento de soluções ecoinovadoras para combater os impactos negativos, tanto ambientais como econômicos, de embalagens plásticas. Trabalhou com parceiros para produzir uma máquina de venda automática de refil de produtos dentro dos supermercados.

A Eco2Distrib aumentou o volume de negócios em 200% em três anos, dentro e fora da França. Sua estratégia de negócios é mudar os padrões de consumo e atender à demanda do mercado dos fabricantes, varejistas e consumidores finais por menos embalagens, unindo, assim, a redução de custos e de impacto ambiental.

Mercados emergentes, como a Índia, há tempos já fazem uso de métodos sustentáveis, apesar de menos technology-intensive, mas com o mesmo objetivo de reduzir o impacto ambiental ao mesmo tempo em que reduz custos. Em uma visita ao país em 2019, fiquei impressionado ao ver refis de garrafas de água potável em todas as estações de trem e o uso de guardanapo artesanal, feito com sobras de jornais, em padarias e restaurantes.

Minha avaliação é que nem sempre inovação necessita de um alto nível de tecnologia para responder às demandas de consumidores e da sociedade, mas sim de criatividade, sobretudo em se tratando de demandas ambientais. 

Frente a isso, como entender e analisar uma ecoinovação? Segundo o Manual de Oslo, utilizado como referência de análise pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ela pode ser compreendida e analisada em três aspectos: 

Alvo (target): em produtos e processos focados em desenvolvimento de tecnologia ou em marketing, com ênfase na promoção da sustentabilidade. 

Mecanismo: qual resultado a ecoinovação almeja alcançar? Criar pequenas modificações, alternativas de soluções mais conscientes de consumo ou, ainda, a introdução de produtos inteiramente novos e serviços ainda não explorados? 

Impacto: quais os objetivos do impacto? No meio ambiente, na cadeia de produção, em ambos, ou ainda algum outro aspecto? 

Lideranças corporativas já identificaram a necessidade de mudar suas estratégias de negócios nessa direção e apontam a mudança sistêmica levando em conta todos esses fatores. Temos o caso da Natura, quarto maior grupo de cosméticos do mundo e considerada uma referência global de ecoinovação pela ONU.

Sua estratégia de negócio baseia-se na inovação para sustentabilidade e diferenciação no mercado. Por meio de suas inovações na linha de produtos para corpo SOU, por exemplo, a Natura propôs um novo produto aos consumidores, elaborado para reduzir impactos ao longo de seu ciclo de vida, inovando nos ingredientes da fórmula e na embalagem com sua cadeia de fornecimento. Menos materiais foram usados, e o tempo de manufatura e o transporte foram melhorados e otimizados.

Os clientes receberam muito bem a novidade, que ainda custa de 20% a 40% menos em comparação às outras linhas de produto da empresa. Em razão do sucesso, depois de um período experimental de seis meses,  a Natura expandiu a venda da linha SOU para todo o Brasil.

Os benefícios da ecoinovação são perceptíveis ao longo de toda a cadeia de valor: matérias-primas sustentáveis, como o uso de fontes alternativas de energia; na fabricação do produto, como a utilização de embalagens recicláveis ou processos otimizados; na venda, com produtos mais leves e com preços mais atraentes para o consumidor; e no final do seu ciclo de vida, focado na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia, em um modelo de economia circular, em detrimento ao modelo econômico predominantemente linear, baseada no processo de “extrair – produzir – descartar”. 

Aliado aos benefícios na cadeia produtiva, está o aumento da demanda por soluções sustentáveis e o crescimento nos investimentos em empresas do setor. Esses aspectos proporcionam um momento adequado para repensar o uso de tecnologias verdes, pois existe uma demanda não atendida nos mercados globais por produtos e serviços sustentáveis.

Segundo um relatório sobre ecoinovação conduzido pela ONU e pela União Europeia, um estudo recente concluiu que apenas 6% dos consumidores na Alemanha e 10% na Coreia do Sul consideraram ser suficiente o número de produtos sustentáveis disponíveis. 

Para atender a essa demanda, os investidores têm se movimentado. O chamado green investing (investimento verde) tem explodido nos últimos anos, e veio para ficar. Com um aumento de 25% na emissão de green bonds (títulos de ações verdes) em 2019, investidores chineses, norte-americanos, franceses e alemães dominam o mercado de green bonds. A tendência deve continuar em alta, em função da busca por parte dos consumidores, aliada a uma enxurrada de novas e ambiciosas regulações ambientais, sobretudo na Europa. 

No Brasil, existe uma crescente demanda por tecnologias verdes, especialmente no agronegócio. Isso pode ser comprovado com a premiação da startup Silo Verde, por exemplo, que recebeu prêmios de sustentabilidade com seu silo (estrutura destinada ao armazenamento de produtos agrícolas) feito com embalagem PET reciclada.

O Brasil é um vasto campo de empreendedorismo criativo, ancorado com responsabilidade ambiental. Todos podem aproveitar este momento propício para aproveitar de onda verde para ajudar a construir um mundo tecnologicamente ambiental com a ecoinovação.

* Jeferson Manhaes é especialista na intersecção entre Inovação e Sustentabilidade.  Mestre em Relações Internacionais (Sorbonne), mestrando em Ecoinovação (Paris-Saclay), possui longa experiência internacional, atuando atualmente   na co-criação de soluções que impactam tecnologia e meio ambiente.