NetMovies disputou o título de assunto mais falado entre os empreendedores na última segunda-feira com a lista de selecionados do Start-Up Brasil, porque o “Estadão” divulgou uma matéria polêmica com o título: “NetMovies desiste de concorrer com o Netflix”. No texto, o repórter dizia que o NetMovies “fracassou”, que o negócio foi repassado “a um funcionário da empresa a custo zero” e que havia muita “queima de capital” na operação. As informações foram atribuídas a uma fonte sigilosa do repórter (leia a íntegra aqui).

O fundador da empresa Daniel Topel assume que a história da companhia foi turbulenta, mas, segundo ele, a história está mal contada e a fonte do repórter foi maliciosa. Conversei com Daniel ontem à tarde sobre o assunto para tentar contar o outro lado dessa história para vocês.

“Ninguém vendeu nada a custo zero e a empresa nunca teve problemas financeiros. Quando você está crescendo, você realmente faz investimentos, o que é muito diferente de ‘queimar dinheiro’. Qualquer empresa, quando cresce, consome recursos”, explica o fundador.

Fundação e crescimento

A NetMovies colocou seu serviço no ar em 2006, com a proposta de fazer a entrega de DVDs, Blu-rays e oferecer um serviço de streaming de vídeos. Inicialmente, eles receberam um aporte da IdeiasNet.

Em 2010, a Tiger Global comprou a parte da IdeiasNet e de um investidor anjo na empresa em uma aquisição que não teve o valor divulgado. Segundo Daniel, a Tiger pagou sim R$ 11 milhões para a IdeiasNet, conforme divulgado pelo “Estadão”, mas ele ressalta que esse valor corresponde apenas a uma parte da empresa. “Esse valor também não inclui o valor que a Tiger investiu na nossa operação.”

Com a chegada do novo fundo, o fundador diz que a ideia era mesmo expandir “absurdamente rápido”, mas ele assume que os sócios achavam que talvez o mercado estivesse mais maduro para o streaming do que ele realmente estava. “Nós investimos muito em conteúdo, fizemos acordos com a Miramax, a Disney e a Viacom. Ao contrário do que diz a matéria do ‘Estadão’, a maior parte dos estúdios queria sim licenciar para gente o conteúdo. Eles queriam ajudar a balancear o poder do Netflix na América Latina”, diz Daniel.

E foram 14 meses de investimento pesado em marketing e no crescimento da estrutura da empresa. “Aceleramos muito e quadruplicamos de tamanho até o início de 2012”, lembra ele. Foi quando a companhia percebeu que havia uma insatisfação do mercado com o modelo de streaming, já que havia essa promessa de acesso a muito conteúdo a qualquer horário, mas o consumidor não sabia que o conteúdo disponível pela internet era mesmo mais antigo do que ele estava acostumado nas locadoras ou mesmo na TV a cabo. A falta de velocidade da banda larga no Brasil também contribuiu para somar à frustração, diz Daniel.

“A gente sabia das métricas de outras empresas e estavam todos assim. A gente fazia muita aquisição de novos clientes, mas a perda de assinantes era alta. O negócio sempre esteve crescendo, mas tinha essa grande rotatividade. Por outro lado, o tamanho do mercado ainda não comportava o investimento em conteúdo que estava sendo feito. Começamos a ver que o mercado era de uma ordem de magnitude menor do que precisaria ser para suportar o investimento feito”, afirma o fundador. “Quando a gente fez o plano de negócios, imaginávamos que, em alguns anos, o projeto teria escala e o mercado ia amadurecer em termos de banda larga, Smart TVs e tablets. Imaginávamos que em dois ou três anos, a escala que o negócio teria tomado seria suficiente.”

Desaceleração

Mas não foi suficiente. E a equipe decidiu pisar no freio em relação aos contratos com estúdios e esperar para ver se o negócio de entrega de DVDs e Blu-Rays ainda era forte. “A diretriz foi desacelerar um pouco porque o mercado ainda não estava maduro, mas nesse meio tempo os próprios fundos não ficaram felizes com a situação. É uma realidade de mercado e isso gerou uma tensão”, explica Daniel. “A empresa quadriplicou de tamanho, escalou muito rápido e começou a ficar difícil a gestão.”

Foi quando Daniel foi “removido” do seu posto de CEO, em maio de 2012, segundo um relato dele mesmo. O fundador continuou como acionista e os fundos procuraram um gestor que seria mais adequado para aquela situação. A escolhida foi Cláudia Woods.

“Ela ficou seis meses, até novembro, só que continuou-se gastando muito dinheiro. E, ao invés de crescer, a empresa estava retraindo. Houve uma deterioração até o ponto em que os fundos pediram para eu voltar”, diz o ex-sócio da NetMovies. Ele conta que, naquele momento, não sabia se ainda dava para salvar o negócio e passou um tempo avaliando suas possibilidades. “Em janeiro de 2013, ficou claro para mim que dava para reverter e estabilizar a empresa, mas dado o estrago feito eu recomendei enxugar a nossa atuação física, equilibrar as contas, ficar no positivo e vender a empresa.”

Segundo Daniel, levaria tempo demais para fazer a reestruturação total que possibilitaria que o NetMovies voltasse a inovar. “A gente não queria mais investir e ia demorar muito tempo para voltar a inovar. No mercado de hoje, um ano é uma eternidade. A gente tinha perdido o timing do mercado”, conta.

Foi quando os fundos Tiger Global e Kaszek Ventures perderam o interesse decidiram sair do negócio e Daniel conta que comprou a parte dos fundos. “Peguei uma empresa no negativo, com um passivo grande com relação a contratos futuros com os estúdios de Hollywood e assumi esse risco, porque achava que conseguia trazer a empresa para o positivo e renegociar os contratos.”

Venda

Seguiram-se meses de renegociações e reestruturação e Daniel seguiu em busca de um comprador, após conseguir reverter a empresa para o positivo novamente. “Eu não queria ficar mais em algo que não fosse líder de mercado e não pudesse voltar a inovar tão cedo”, explica. A venda da empresa foi fechada no início de junho. Segundo Daniel, foram vendidos o serviço NetMovies e a marca NetMovies, mas o CNPJ da empresa segue com ele. “Quando alguém compra com custo zero, essa pessoa assume um CNPJ cheio de dívidas, para pagar as dívidas e ai vem o ‘custo zero’. Mas eu não vendi o CNPJ”, diz.

Agora, Daniel atua como fundador de uma nova startup, ainda sem dar grandes informações sobre o novo projeto, que usará o CNPJ da NetMovies. “Teve turbulência? Muita. Mas é diferente de dizer que a gente ‘falhou’ ou ‘vendeu por custo zero’”, defende. Ele diz que trabalhou para pagar direitinho e dar uma continuidade ao NetMovies, já que existe uma equipe grande que depende do negócio.