Um movimento sutil, mas expressivo, está se desenrolando no mercado de venture capital: enquanto fundos internacionais chegam ao Brasil em busca de fintechs e plataformas de experiências, o maior banco privado do país adota a direção oposta e investe em uma startup americana de inteligência artificial que pode prever como indivíduos, organizações e mercados respondem a diversas situações. São sete rodadas, mapeadas pela Bloomberg Línea, que vão de US$ 15 milhões a US$ 250 milhões — e que deixam bem evidente onde os executivos devem direcionar o foco nos trimestres que estão por vir.
Fever: US$ 250 milhões e um recorde no setor de entretenimento ao vivo
A maior operação da semana — e a maior já realizada por uma empresa de tecnologia do setor de entretenimento ao vivo — foi da Fever, plataforma global de eventos e cultura. Conforme a Bloomberg, o investimento inicial de US$ 250 milhões foi liderado pela EQT, a maior gestora de mercados privados da Europa, além da Point72 Private Investments, da Baillie Gifford e dos acionistas atuais.
Para o Brasil, o investimento é de fato significativo: a Fever atua como bilheteira em grandes eventos, como a Bienal Internacional do Livro de São Paulo e o Salão do Automóvel, e também realiza eventos próprios, como os concertos “Candlelight” e a exposição “Titanic: Uma Viagem Imersiva”. De acordo com informações internas que foram divulgadas pela Bloomberg Línea, a receita da empresa cresceu mais de três vezes nos últimos três anos, e o Ebitda está positivo — uma situação incomum de crescimento rentável em um setor que está sendo pressionado pela economia da experiência. Os recursos irão financiar a expansão para além dos 55 países atuais e um investimento mais robusto em tecnologia para promotores e organizações culturais.
NG.Cash: crédito, criptomoedas e a busca pela geração Z
A NG.Cash, que opera no setor das fintechs, conseguiu um investimento estratégico de US$ 15 milhões, liderado pela Blockchain Capital, pouco mais de um ano após uma rodada série B de US$ 26,5 milhões, de acordo com a Bloomberg Línea. O cap table já conta com a participação de grandes nomes como a16z e Monashees.
Os números revelam o apetite dos investidores: a fintech aumentou de 8 milhões para 10 milhões de clientes desde abril, quando introduziu o Crédito CLT, uma forma de empréstimo consignado privado. O objetivo é atingir R$ 1 bilhão em crédito originado até o final de 2027. Os fundos serão investidos em crédito e criptoativos — uma jogada estratégica enquanto o Banco Central estabelece normas para as Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais. A empresa já está funcionando com direitos adquiridos em relação à licença e tem em mente produtos como compras internacionais liquidadas em dólar tokenizado e, no futuro, ações tokenizadas. Para o restante do ano, estão previstas inovações como stablecoins, uma conta internacional e a expansão da corretora, que atualmente oferece apenas bitcoin e ethereum.
Itaú amplia seus horizontes: o investimento na Simile e a IA preditiva
A manobra mais elaborada da semana, em termos estratégicos, partiu do Itaú Unibanco. Através do Itaú Ventures, o banco investiu na extensão da série B da startup americana Simile, que cria fundações e agentes generativos que imitam o comportamento humano, cada um com indicadores de confiança relacionados a seus resultados. De acordo com a Bloomberg Línea, a rodada original de US$ 200 milhões foi liderada pela Greenoaks, avaliando a empresa em US$ 2 bilhões — o montante investido pelo banco brasileiro não foi divulgado.
Um ponto que os executivos devem anotar: o Itaú foi o primeiro cliente da Simile na América Latina, antes mesmo do investimento, o que possibilitou acompanhar a tecnologia desde o começo. Trata-se do clássico roteiro de CVC estabelecido — experimentar como cliente antes de investir financeiramente. Fundado em 2019, o Itaú Ventures realiza investimentos nas áreas de serviços financeiros, infraestrutura, cibersegurança e inteligência artificial aplicada. Essa movimentação destaca como os bancos do Brasil começaram a competir por capacidades tecnológicas em um cenário global, e não apenas regional.
Loora: US$ 22 milhões para explorar a falta de inglês no Brasil
Com o radar se encerrando, a israelense Loora conseguiu uma rodada Série B de US$ 22 milhões, liderada pela Union Tech Ventures, elevando seu total levantado para US$ 43,25 milhões, conforme relatado pela Bloomberg Línea. A plataforma de ensino de inglês com inteligência artificial já conta com 15 milhões de usuários em mais de 100 países, e nos últimos doze meses, sua receita e retenção de clientes mais que dobraram, graças a um tutor que se adapta a cada aluno, alimentado por um conjunto de dados de 200 milhões de interações.
O Brasil foi oficialmente designado como um mercado prioritário na nova etapa de expansão — e a justificativa reside em uma estatística que todos os líderes de Recursos Humanos e de expansão internacional reconhecem: apenas 1% da população brasileira é fluente em inglês, conforme o British Council. Essa falta de capital humano, em uma economia que deseja atrair investimento produtivo e exportar serviços tecnológicos, representa tanto um obstáculo competitivo quanto uma oportunidade de mercado.
O que a semana indica para os compromissos executivos
Consideradas em conjunto, as quatro rodadas indicam três direções: a consolidação da economia da experiência como um ativo em larga escala, a aceleração da regulação das criptomoedas, que abre oportunidades para produtos tokenizados em fintechs nacionais, e a internacionalização da estratégia de IA dos bancos brasileiros. Para conselheiros e fundadores, a questão evoluiu de “se” o capital vai circular — para “onde” sua empresa se posiciona nesse fluxo.