* Por Manuel Beaudroit, cofundador e CEO de belo
Os jovens de hoje estão vivendo uma realidade financeira profundamente digital. Nascidos em um mundo conectado, acostumados a resolver praticamente tudo pelo celular, eles, naturalmente, têm construído uma relação diferente com o dinheiro em comparação às gerações passadas.
Mais do que consumidores de novas tecnologias, são usuários de uma nova infraestrutura financeira. Uma infraestrutura que é global, instantânea e cada vez mais digital.
Para se ter ideia, segundo o Raio X do Investidor Brasileiro 2025, da Anbima, apenas 13% dos jovens entre 16 e 29 anos investem na caderneta de poupança. Em vez disso, eles distribuem seus recursos entre diferentes produtos financeiros, como títulos privados, fundos de investimento, ações e, sim, criptomoedas.
Longe de ser um movimento unicamente do Brasil ou mesmo da América Latina, isso reflete uma mudança geracional que vem sendo observada em diferentes mercados ao redor do mundo. Dados do Bank of America Private Bank, por exemplo, mostram que investimentos alternativos e criptomoedas representam 31% das carteiras de investidores entre 21 e 43 anos, enquanto entre aqueles com mais de 44 anos essa participação é de apenas 6%.
Quando vejo esse cenário, penso que a conversa sobre a possibilidade dos jovens usarem ativos digitais ou novas tecnologias já foi. Não é uma questão de se isso vai acontecer, essa realidade está posta.
E é justamente por isso que acredito na necessidade urgente de atualizarmos a forma como falamos sobre educação financeira.
Nova infraestrutura financeira, novos ensinamentos
Durante muito tempo, educação financeira significou ensinar conceitos fundamentais como orçamento, reserva de emergência, juros compostos e planejamento de longo prazo. Esses temas continuam sendo essenciais, é verdade. Só que, dado o contexto digital, eles não são suficientes.
Hoje, a educação financeira também precisa incluir questões sobre segurança digital, gestão de risco, prevenção a golpes, compreensão sobre novas tecnologias financeiras e capacidade de distinguir oportunidades reais de promessas ilusórias. Precisa preparar as pessoas para tomar decisões conscientes em um mundo onde o dinheiro circula de forma cada vez mais global, instantânea e digital.
Isso é especialmente importante para a geração mais nova porque estamos falando de uma fase da vida em que hábitos financeiros estão sendo construídos e decisões tomadas hoje podem produzir impactos por décadas. Ao mesmo tempo, é uma geração que experimenta novas tecnologias com muito mais naturalidade e velocidade do que qualquer outra antes dela.
Não à toa, a já citada pesquisa da Anbima mostra que, além de serem os que mais utilizam canais digitais para investir, os jovens também estão entre os mais expostos a fraudes financeiras. Ou seja, a adoção dessas ferramentas avançou mais rápido do que a disseminação do conhecimento necessário para utilizá-las com segurança.
As stablecoins são um bom exemplo dessa transformação. Muitas vezes elas ainda são associadas apenas ao universo dos investimentos, mas seu potencial vai muito além disso. Estamos falando de um ativo digital capaz de simplificar pagamentos internacionais, reduzir barreiras em transações globais e ampliar o acesso a serviços financeiros. Para uma geração acostumada a interagir com o mundo sem fronteiras pela internet, essa lógica faz cada vez mais sentido.
De novo, o desafio não é convencer a juventude a usar tecnologia aplicada ao dinheiro. Ela já faz isso naturalmente.
A grande missão dos profissionais e das instituições dentro do mercado financeiro é garantir que esse público tenha conhecimento o suficiente para utilizar tais recursos com autonomia, responsabilidade e segurança.
Na belo, aprendemos desde cedo que simplificar tecnologia financeira não significa apenas construir produtos intuitivos. Significa, sobretudo, ajudar as pessoas a compreenderem as transformações que estão moldando o futuro do dinheiro. Até porque inclusão financeira não acontece apenas quando alguém tem acesso a uma ferramenta; ela se dá quando essa pessoa entende como utilizá-la para tomar decisões melhores.
Se o dinheiro está se tornando digital, a educação financeira também precisa evoluir nesse sentido. E quanto antes começarmos essa conversa, mais preparados estaremos para construir uma geração que não apenas utiliza novas tecnologias financeiras, mas que sabe extrair delas valor real para sua vida.



