Há alguns meses, especialmente após o início da retomada do “mundo normal” após os piores momentos da pandemia de Covid-19, o Brasil tem visto um número considerável de seus unicórnios demitindo em massa suas forças de trabalho. Em fevereiro, a foodtech Liv Up – que já levantou mais de US$ 83 milhões -, demitiu cerca de 15% de seus funcionários. A QuintoAndar, unicórnio que recebeu mais de US$ 755 milhões, também anunciou o corte de 4% de seus empregados, um total de 160 pessoas. O marketplace Facily foi um dos que mais demitiu: cerca de 60% da folha de pagamentos da startup foi desligada. 

Hoje, a fintech curitibana Ebanx anunciou o corte de 20% de seus colaboradores, cerca de 340 pessoas. Em comunicado, a startup diz que “a decisão foi tomada com base no cenário atual do mercado de tecnologia como um todo, impactado de forma profunda e veloz pelo ambiente macroeconômico.”

Além desses nomes, há startups como Loft, Zak, Olist, VTex, Sami e Afterverse, empresa de games da Movile. O último relatório da SlingHub, plataforma de inteligência de dados sobre o ecossistema de startups latino-americanas, mostra que o ecossistema de startups da região está desacelerando. Os investimentos em abril de 2022 foram 35% menores em comparação ao mesmo mês do ano anterior, e 12% menor em comparação a março deste ano. 

Mas o ciclo de queda registrado no mercado está longe de ser um sinal grave de uma crise no ecossistema. Como explica Felipe Matos, presidente da Associação Brasileira de Startups: “É natural, porque o mercado acontece em ciclos. Sempre que temos um ciclo de muito crescimento, vem um momento de depressão, de correção, e depois vem um novo ciclo de crescimento”, diz.

Demissões e desaceleração do mercado

Para o especialista, esse cenário inevitável de desaceleração do ecossistema de startups foi adiantado por causa da pandemia. “A gente veio de dois anos de pandemia, onde os governos do mundo inteiro  fizeram pacotes de injeção de incentivos nas suas economias pra elas não quebrarem durante o período mais crítico da pandemia, mas isso tem um preço: isso gera inflação. E, para conter a inflação, é preciso subir a taxa de juros. Isso foi um movimento global, a taxa de juros subiu no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Além disso, com a retomada, a gente teve uma mudança no perfil da demanda”. 

Felipe Matos, presidente da ABStartups

A onda de demissões em massa das big techs não atinge exclusivamente o Brasil. Um relatório da Challenger, Gray & Christmas mostra que as empresas de tecnologia norte-americanas cortaram mais de 4 mil postos de trabalho no mês de maio. Recentemente, Elon Musk insinuou que demitiria 10% dos funcionários da Tesla por um “mau pressentimento”, e Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, líder global em serviços financeiros, disse estar vendo um “furacão econômico se aproximando dos EUA”.

Empresas como Microsoft e Meta também anunciaram redução nas contratações. Embora a recessão no mercado americano ainda seja um tema amplamente debatido, o fato é que os fundos de investimento estão freando seus aportes milionários. “O grande agressor da crise das startups foi o mercado de capitais que reajustou o valuation das grandes empresas de capital aberto, e isso afetou as empresas que abriram capital nos últimos dois anos. Obviamente, trouxe o valuation do mercado privado para baixo. Na prática, uma recessão do mercado americano impactaria empresas que ou vendem para o mercado americano ou o apetite de investidores americanos de entrarem em mercados como o brasileiro, já que boa parte dos investimentos a partir feitos a partir da série B no Brasil são feitos por fundos americanos, em sua grande maioria”, diz Pedro Waengertner, cofundador da ACE

Para ele, a onda de demissões tem a ver com as startups que fizeram megarrodadas de investimentos. “O que aconteceu na prática foi que essas empresas reprecificaram, e isso esticou a corda dos fundos de investimentos. Os fundos, por sua vez, também aumentaram o nível de exigência de tração, performance e queima de caixa das empresas. O que acontece na prática é que elas vão ter que se provar mais eficientes, gastando de maneira mais inteligente, e consequentemente esticar o runway, que é quanto tempo elas têm de vida, com o investimento que elas receberam dos fundos. Na prática, isso significa que elas têm que reduzir custos.”

Pedro Waengertner, cofundador da ACE

E, como grande parte dos custos de uma startup é o time, essas empresas demitem. Essa regra vale especialmente para startups mais maduras e com valuations mais altos. Para as early stage, os impactos maiores estão na precificação das empresas e nos números de deals que elas fecham.

Quem contrata

Esse cenário não significa que as startups estão deixando de contratar, muito pelo contrário. A Hypeone, marca de tecnologia da NEO, empresa de Customer Succes, tem mais de 100 vagas abertas para desenvolvedores, gerentes e executivos. “Estamos planejando aumentar nosso market share tanto em produtos, quanto projetos de consultoria, que cresceram bastante ao longo de 2022. Estamos com um time extremamente diferenciado e nosso delivery aliado com a estratégia de Produtos e Serviços vem se consolidando cada vez mais”, explica Bruno Consul, vice-presidente da Unidade de Negócios Digital da NEO e líder da Hypeone.

Para contratar centenas de novos talentos, a Hypeone tem parcerias com outras empresas e programas de treinamentos para perfis juniores. “Esta é uma estratégia que se prova muito assertiva, tendo em vista que cresceremos muito até o fim do ano”, diz.

A Botmaker, de desenvolvimento de bots na América Latina, está com 15 vagas abertas para contratação de profissionais para as áreas de engenharia de software, marketing, vendas e Recursos Humanos. A fintech Bankly tem 58 vagas abertas, indo de estágio até coordenação, em diversas áreas, como: tecnologia, compliance, finanças, produtos e dados. A Squadra Digital, consultoria de tecnologia, tem 46 oportunidades para compor seu time.


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