* Por Paulo Krieser

Na psiquiatria, a euforia é seguida pela depressão. Os dois estados se alternam, formando o quadro chamado como transtorno bipolar. A dificuldade de equilíbrio do humor está no cerne do sofrimento da pessoa acometida pela doença. O mercado é claramente bipolar. Em 1860, o economista e médico Clément Julgar formulou a teoria dos ciclos econômicos de periodicidade regular, compostos por prosperidade, crise, liquidação e recessão.

Esse artigo, embora traga fatos recentes, pode ser visto como atemporal, pois a História se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Lembram da bolha das pontocom?

Havia muito dinheiro disponível por parte de venture capitalists. Só nos anos 2020 e 2021, foram investidos R$ 27,2 bilhões e R$ 47,4 bilhões, respectivamente, um aumento de 174% em um ano. Passamos por um ciclo forte de prosperidade e alta liquidez para investimento em startups de tecnologia. Porém, o ponto de inversão do ciclo chegou.

No ano, a Nasdaq acumulou perdas de US$ 9 trilhões, colocando uma bomba relógio no colo de fundadores de startups e VCs. Neste momento, as empresas de tecnologia precisam fazer as correções de rota para conseguirem sobreviver.

A queda dos unicórnios e o retorno ao propósito

Meu pai sempre me dizia a frase acima. Com tanto capital disponível, empreendedores sem um propósito claro foram atraídos pela possibilidade de captação de altas quantias, independente da correspondente necessidade de caixa. Neste cenário, o valuation das empresas subiu agressivamente, se descolando dos fundamentos econômicos.

É claro que muitos empreendedores focados em seu propósito sustentável também fizeram este movimento. Porém, com tanta competição por startups para investir e metas de investimentos por parte dos fundos, muito joio acabou passando por trigo.

Conversei recentemente com uma CFO que trabalhou em fundos de VC no passado. “Quando a startup levanta a rodada, a primeira coisa que fazem é alugar uma sede nova e contratar dezenas de desenvolvedores”. A justificativa dada pelos founders é que precisavam aprimorar o produto para crescer. Porém, depois do aporte, era muito raro o crescimento acontecer.

Como tudo o que sobe, desce, o mercado é feito de ciclos de correção. E, como os valuations estão astronômicos, a queda não será de paraquedas. O momento de correção vem em um cenário de aumento de juros, que forçou a avaliação das estratégias de crescimento das startups, que estão optando por prolongar o caixa disponível. 

“Prepare-se para o pior, pois o mercado será cruel”, diz a carta da Y Combinator, Economic Downturn, divulgada no dia 19 de maio. “Houve uma inversão no mindset de alguns empreendedores. Eles passaram a olhar o valuation como a meta do jogo”, diz Pierre Shurmann.

No recente evento Brazil at Silicon Valley, Kevin Efrusy, famoso investidor da Accel, comparou alguns empreendedores a crianças famosas, como as estrelas mirins que crescem com crise de identidade: “quando há muito dinheiro fluindo, como aconteceu nos últimos anos, diversos empreendedores nem param para pensar no que estão criando, só querem pegar esses recursos.”

O fim da era de dinheiro fácil para as startups acabou. Fernando Ulrich indica três séries sobre o tema: WeCrashed, The Dropout e Super Pumped.

Demissões em massa

Há algumas semanas, o unicórnio Quinto Andar anunciou no Big Brother Brasil – um dos horários mais caros para propaganda na televisão. Dias depois, a startup anunciou a demissão de 160 pessoas, o que causou indignação entre os funcionários pelas ações contraditórias.

Já no dia 26 de maio, a VTEX demitiu cerca de 200 pessoas. O interessante é que a ação foi tomada logo após um super evento com Lewis Hamilton. Parece que está virando padrão. Por um lado, a empresa necessita mostrar crescimento acelerado por meio de ações esbravejantes, mas por outro lado o caixa está acabando.

Além disso, nas duas últimas semanas, Loft, Facily e Creditas demitiram juntas cerca de 400 pessoas.

“Vendas e Compras Estratégicas”

Ao ler isso lembro sempre do Carlos Mira, CEO da TruckPad, que se esquivava a abrir qualquer número financeiro… A startup recebeu investimento do unicórnio chinês Full Truck Alliance, em 2019, além da Movile e Mercedes-Benz. Na última semana, foi divulgada a compra da startup pela JSL por R$ 10 milhões, muitíssimo abaixo do valuation pago pelos investidores.

Outro caso emblemático é o de uma startup de educação fundada em 2013, que recebeu venture capital de grandes fundos aqui no Brasil e foi vendida por um real. Na corrida pelo crescimento vertical, recentemente ocorreu uma onda de aquisições de startups pequenas adquirindo startups menores ainda. Acompanhei um caso onde a adquirida simplesmente sumiu depois do período de earnout dos antigos sócios.

Existem duas formas dos investidores terem retorno investindo em startups: ou com o exit ou com o IPO. 

Muitos empreendedores já criam a empresa com o objetivo de venderem 100% de sua participação e ficarem ricos e famosos, com o foco muito maior em objetivos egocêntricos do que em propósito. Estes dias vi um story onde a founder afirmou: “quando vendermos a nossa startup, vamos fazer tal coisa”. Porém, nem sempre a startup “dá certo”. Mas, até isso acontecer, já saíram do negócio e levaram a sua voluptuosa parte. Esta linha de ação me lembra o famoso esquema Ponzi.

WeWork, Groupon, Uber e Patinetes

Previ a queda de Eike Batista, em 2012, quando publiquei um artigo sobre o tema. Neste texto, procurei analisar os balanços das seis empresas do grupo EBX. Todas com prejuízos astronômicos!

Na primeira vez que visitei um coworking da WeWork, fiquei impressionado com o ambiente moderno e atrativo. A startup de um amigo estava alocada ali e fui visitá-lo. No final da visita, às 17 horas, ele me convidou para tomar uma cerveja: “Paulo, a partir das cinco da tarde temos chopp liberado, todos os dias”. A minha sensação passou de animação para estranhamento. “Todos os dias? É saudável termos esta postura num ambiente de trabalho? Deve ser caro manter tudo isso!”

O excêntrico ex-CEO Adam Neumann fazia festas de semanas nas Maldivas, usava jatinhos particulares e carros de luxo, curtindo a vida de modo hedonista. Com seu bom papo, convencia os investidores que, em algum momento no futuro, a empresa daria lucro. Enquanto a empresa era de capital fechado, ninguém conseguia ver que o navio estava afundando. Porém, a cada nova rodada, o valuation só aumentava.

Prestes a fazer o IPO, as coisas para Neumann começaram a desandar. O prejuízo da empresa estava na casa dos bilhões e o preço das ações não atingiu o valor esperado. A bola da vez é o Uber. No Brasil, é muito comum os usuários reclamarem que os motoristas estão cancelando as corridas. Por outro lado, os motoristas reclamam que a Uber não aumenta o valor repassado a eles, mesmo com o aumento substancial dos combustíveis no Brasil. Além disso, os processos de qualificação dos motoristas foram extremamente afrouxados.

Quem se lembra do Groupon? E das patinetes?

Sobre propósito

O sonho da maioria dos empreendedores de tecnologia é tornar a sua startup um unicórnio, ou seja, ser avaliada em mais de um bilhão de dólares. Além disso, há pressão social e de investidores para que isto aconteça.

Ao mesmo tempo, tem se falado muito na definição de propósito das startups, onde os founders são questionados sobre qual o benefício que querem trazer para a sociedade.

Afinal, qual é a real intenção quando se cria uma startup?

De volta aos fundamentos

Uma criança cresce organicamente dentro do útero, nutrida pela mãe até o nascimento inevitável. Não pode ser apressada ou forçada. Crescimento a todo o custo para ganhos de curto prazo era rei. Digo mais, aumentar exponencialmente o valuation era o rei. Agora o cenário mudou: geração orgânica de caixa é rei – sustentabilidade econômica.

Onde estão as empresas feitas para durar, citadas no clássico livro Feitas para Durar, do Jim Collins? Nele, Jim Collins cita o exemplo de Darwin Smith, que quando se tornou CEO da Kimberly-Clark, parou de se preocupar com o jogo anual de previsões de Wall Street que fazia as pessoas se concentrarem no curto prazo e simplesmente parou de divulgar tais previsões.

Vivemos em uma era em que as pessoas são viciadas em ganhos no curto prazo, porém o pagamento no longo prazo é inevitável. O grande mal reside quando investidores e empreendedores fazem uso consciente deste artifício para tirarem rapidamente o seu ganho e deixarem o espólio para os outros.

Uma vez uma jornalista perguntou ao Warren Buffett por quanto tempo era o ideal manter uma ação. A resposta dele: para sempre!

O que vai acontecer daqui para a frente?

Resposta simples e direta! O já previsto por Clément Julgar em seus ciclos econômicos: Ajuste do mercado e crise para startups e investidores calçados em pilares de curto prazo.

O SoftBank, um dos maiores grupos de investimentos em tecnologia do mundo, anunciou que vai ser muito mais seletivo nos seus investimentos depois de publicar uma perda de mais de 27 milhões de dólares no seu Vision Fund do último ano fiscal.

Em momentos turbulentos é que surgem grandes oportunidades. Qual startup não está com dificuldades em contratar gente boa? Muitos bons profissionais foram demitidos e outros sairão por conta própria em função do clima que se instala na organização.

Para quem está tendo crescimento sustentável e possui caixa saudável este é um ótimo momento.

Em terra de unicórnios, quem é camelo é rei.

* Paulo Krieser é CEO da Econodata, plataforma de dados para vendas B2B