A inteligência artificial ainda patina dentro das empresas não por falta de ferramentas, mas porque raramente está conectada ao que realmente acontece no dia a dia dos negócios. Essa é a premissa da Drachma, startup fundada pelo engenheiro de software brasileiro Leonardo Felipe Nerone, que acaba de captar US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhões) em uma rodada pré-seed para acelerar o desenvolvimento de agentes de IA sob medida para o ambiente corporativo.
Diferentemente de soluções genéricas de automação ou chatbots, a Drachma propõe agentes capazes de interpretar solicitações em linguagem natural, acessar bases de dados distribuídas em diferentes sistemas — incluindo data warehouses, legados e APIs internas — e executar consultas ou ações dentro de regras e contextos específicos de cada organização.
“O problema não é falta de ferramenta de IA. O problema é que ela não está conectada ao contexto real das empresas, dados, sistemas e processos. Sem isso, vira só uma demo interessante”, afirma Leonardo, natural de Guarapuava (PR) e atualmente baseado em Nova York.
O empreendedor construiu sua trajetória desde a adolescência com olimpíadas científicas e programação autodidata, passou por uma fintech no Brasil e conquistou bolsa para estudar nos Estados Unidos, onde aprofundou atuação em sistemas de dados e infraestrutura antes de migrar para o empreendedorismo em IA.
Na prática, a solução permite que usuários técnicos e não técnicos interajam com dados complexos sem navegar manualmente por múltiplas interfaces. Entre os casos já desenvolvidos, a startup criou um agente integrado à plataforma Databricks, viabilizando consultas avançadas sobre grandes volumes de informação estruturada.
“O valor da IA aparece quando ela deixa de ser uma camada isolada e passa a operar dentro do fluxo real de trabalho da empresa”, diz Leonardo.
““O valor da IA aparece quando ela deixa de ser uma camada isolada e passa a operar dentro do fluxo real de trabalho da empresa”, diz Leonardo.”
Um dos principais desafios técnicos enfrentados pela Drachma está na construção de sistemas confiáveis. Modelos de linguagem isoladamente não garantem precisão e segurança em contextos empresariais. Por isso, a arquitetura combina modelos de grandes provedores com uma camada própria de integração que inclui regras de negócio, permissões e dados internos.
“A engenharia de contexto é o que define se a IA funciona de verdade dentro de uma empresa ou não”, explica o fundador.
O modelo de negócios ainda está em fase inicial de validação, trabalhando com projetos customizados e precificação orientada ao impacto gerado — como ganho de eficiência, redução de custos e aumento de produtividade. “Nosso foco é que a solução se pague com impacto real, não com promessa de tecnologia”, afirma Leonardo.
A estratégia tecnológica da startup é pragmática: em vez de desenvolver modelos próprios, ela aposta em arquitetura de integção e engenharia de contexto como diferencial, construindo uma base reutilizável que permita escalar soluções sob medida com alto grau de personalização.
O movimento da Drachma reflete uma tendência global de transição da IA — de ferramentas genéricas para sistemas profundamente integrados às operações empresariais. A expectativa é que, nos próximos anos, a inteligência artificial atue como uma camada central de infraestrutura nas empresas, conectando dados, sistemas e processos desde automações até decisões estratégicas.



