Enquanto o capital de risco tradicional ainda digere ciclos de retração, um modelo híbrido de investimento silenciosamente reescreveu as regras do jogo global de inovação: corporações que não apenas compram inovação, mas a financiam desde a origem. É esse movimento, que já representa uma em cada cinco rodadas de investimento em startups no planeta, que coloca São Paulo no centro do tabuleiro nos dias 15 e 16 de setembro, quando a cidade recebe a 10ª edição do Corporate Venture in Brasil, a maior conferência de Capital de Risco Corporativo da América Latina e a segunda maior do mundo.
Um mercado de US$ 233,8 bilhões em plena aceleração
Os números explicam por que o tema migrou dos departamentos de inovação para os conselhos de administração. Segundo dados divulgados pelo Brasil 61, com base no estudo World of Corporate Venturing 2026, do Global Corporate Venturing (GCV), mais de 3 mil corporações investiram em startups em 2025, participando de 5.221 rodadas — volume 30% superior ao ano anterior. As operações movimentaram US$ 233,8 bilhões, alta expressiva de 75% em relação a 2024.
Diferentemente do venture capital tradicional, o CVC combina retorno financeiro com objetivos estratégicos: acesso antecipado a tecnologias, novos modelos de negócio e a transformação de operações legadas. E há um vetor dominante nessa alocação — conforme levantamento do GCV citado pelo Brasil 61, 41% dos recursos de rodadas com participação corporativa em 2025 foram destinados a startups de inteligência artificial.
O Brasil entra no radar — com liderança corporativa em 45% das rodadas
O mercado nacional acompanha a curva global. Levantamento da EloGroup, em parceria com ApexBrasil, ABVCAP e GCV, publicado pelo Brasil 61, identificou a participação de corporações em 66 rodadas de investimento em startups brasileiras, que movimentaram US$ 700 milhões entre julho de 2024 e junho de 2025. O dado mais relevante para fundadores e gestores: em 30 dessas rodadas — 45% do total —, os CVCs lideraram as captações, com US$ 358 milhões aportados.
Promovida pela ApexBrasil em parceria com o GCV, a conferência reunirá cerca de 100 palestrantes, workshops e uma delegação de pelo menos 35 investidores estrangeiros vindos de China, Estados Unidos, Singapura, Reino Unido, México e Japão. “O Corporate Venture in Brasil já se tornou uma das maiores plataformas globais de Corporate Venture Capital, trazendo dezenas de investidores estrangeiros para se conectar com a economia brasileira. A agenda deste ano trará nomes de peso e conteúdos estratégicos para seguir apoiando o desenvolvimento dessa atividade no país, além de atrair mais capital para fundos e startups”, afirma Helena Brandão, gerente de Investimentos da ApexBrasil.
Da IA Física ao WhatsApp: uma agenda desenhada para decisores
A programação reflete as fronteiras que os executivos precisam monitorar. Guilherme Horn, Head do WhatsApp for Strategic Markets, responsável por Brasil, Índia e Indonésia, está entre os confirmados, ao lado de executivos e investidores de organizações como Scania, Caterpillar, Vale Ventures, Natura, Boticário, Meituan, 3M, Banco do Brasil e Toronto Stock Exchange. Outro destaque é Brandon Wang, vice-presidente do Corporate Strategy Group da Synopsys, que abordará as perspectivas da Physical AI (Inteligência Artificial Física), tema que vem capturando a atenção dos investidores globais.
A agenda inclui ainda tendências internacionais de CVC, modelos de corporate venturing, integração entre investimento corporativo e P&D, métricas de desempenho de unidades de CVC e a visão dos fundadores sobre a relação com investidores corporativos, além de pitches, mesas-redondas, reuniões individuais de negócios e o Corporate Venture in Brasil Awards, que premia categorias como maior investimento e CVC mais ativo do ano.
Uma década construindo pontes de capital
Realizado pela primeira vez em 2015, o evento nasceu com um propósito claro: conectar o ecossistema brasileiro de inovação aos grandes investidores corporativos internacionais e estimular a inovação aberta nas empresas nacionais. Os resultados acumulados, segundo o Brasil 61, evidenciam a eficácia da estratégia: mais de 4,5 mil participantes, 1,3 mil reuniões promovidas e 164 CVCs internacionais trazidos ao país que, somados, já investiram mais de US$ 800 milhões em fundos e startups brasileiras. O GCV, parceiro da iniciativa, mantém uma rede conectada a mais de 7 mil corporações em diferentes mercados.
Para executivos, gestores de fundos e fundadores, a mensagem é objetiva: o capital corporativo deixou de ser alternativa e passou a ser protagonista na estrutura de captação.