quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Como a integração entre software e mercado financeiro definiu a consolidação das techfins no Brasil

Análise mapeia a evolução do setor desde as primeiras fusões no B2B até o uso de inteligência artificial na gestão de riscos e eficiência transacional

A consolidação do modelo de techfin no Brasil passou por uma transformação estrutural nos últimos anos, migrando da oferta básica de contas digitais e cartões para a integração direta de serviços financeiros dentro de softwares de gestão (ERPs) e sistemas de automação comercial. De acordo com uma análise realizada por Ticiana Amorim, fundadora e CEO da Aarin, startup especializada em Embedded Finance, o setor superou a etapa de infraestrutura operacional e passou a focar na inteligência e orquestração de dados.

A transição do segmento é sustentada por cinco marcos temporais definidos pela especialista. O ponto inicial no mercado B2B ocorreu em 2020, quando operações de crédito passaram a ser oferecidas diretamente nas interfaces dos sistemas de gestão das empresas. No ano seguinte, o varejo registrou a convergência entre os meios de pagamento e os softwares de ponto de venda (PDV), unificando cobranças ao controle de estoque. 

Segundo o levantamento, o ano de 2022 marcou a entrada das grandes instituições bancárias na oferta de capital para viabilizar as transações realizadas pelas empresas de tecnologia.

Paralelamente, o avanço das arquiteturas de Banking-as-a-Service (BaaS) permitiu que companhias de diferentes portes implementassem produtos financeiros próprios por meio de APIs. Conforme a avaliação do estudo, a partir de 2024 as movimentações de fusões e aquisições (M&A) redirecionaram o foco do volume de usuários para a eficiência transacional e mitigação de riscos, impulsionadas pelo avanço de soluções de inteligência artificial e segurança digital.

Em sua análise sobre o momento do setor, Ticiana argumenta que a criação de produtos financeiros básicos tornou-se padronizada. “A criação de contas digitais corporativas e a emissão de cartões via Banking-as-a-Service (BaaS) viraram recursos triviais. Hoje, o vetor de valor e o foco dos novos investimentos migraram da mera prateleira de produtos financeiros para a inteligência na orquestração e análise de dados”, explica a executiva.

A evolução apresentada indica que os serviços financeiros deixaram de atuar de forma isolada na infraestrutura corporativa. O panorama traçado aponta que a competitividade das empresas do setor continuará associada à capacidade de utilizar a base de dados integrada para reduzir custos operacionais, prever inadimplências e otimizar a segurança das operações no ambiente digital.

Confira abaixo o que Ticiana considera como os cinco marcos da consolidação das techfins no mercado nacional:

1. O Marco zero do B2B techfin (2020)

Até então, softwares de gestão empresarial (ERPs) serviam apenas para organizar a operações internas (estoque, fluxo de caixa, emissão de notas). Para conseguir crédito ou financiamento para comprar de fornecedores, o empresário precisava sair do sistema e negociar diretamente com os bancos. Quando ocorre a aquisição de controle da Supplier pela Totvs, o crédito passa a ser oferecido diretamente de dentro da tela do ERP no momento da compra. Isso inaugurou o conceito de techfin: usar a tecnologia de software não só para gerenciar, mas para financiar o negócio do cliente com base nos dados que ela já possui.

2. A fronteira do varejo e meios de pagamento (2021)

As maquininhas de cartão eram encaradas como commodities (meros terminais de cobrança), enquanto o sistema de automação comercial da loja (software da Linx que roda no caixa/PDV) gerenciava o estoque e as vendas. A fusão entre Stone (processamento de pagamentos) e Linx (líder em software para varejo) acabou com a separação entre o sistema de caixa e a maquininha. Assim, o ato da cobrança e a gestão do estoque/vendas viraram uma coisa só. O lojista ganhou eficiência, e a credenciadora garantiu a fidelidade do cliente, já que trocar de meio de pagamento passou a exigir a troca de todo o sistema do caixa.

3. Escala institucional de embedded finance (2022)

Oferecer produtos financeiros exige duas coisas cruciais: tecnologia de distribuição e muito capital em balanço para bancar as operações (como concessão de crédito em grande escala). Enquanto a Totvs tinha o software e a distribuição (o relacionamento com milhares de empresas), o Itaú tinha o balanço financeiro, a capacidade de captação e o know-how regulatório de grande banco. Essa união mostrou que o embedded finance não era uma ameaça aos grandes bancos, mas sim um novo canal estratégico de distribuição.

4. Onda de aportes em banking-as-a-service e orquestradores (2022 – 2023)

Antes, criar a infraestrutura técnica para operar serviços financeiros do zero era algo extremamente caro, complexo e burocrático, acessível apenas para instituições tradicionais ou grandes fintechs. No entanto, as empresas enablers construíram essa infraestrutura e começaram a vendê-la “como serviço” via APIs. Como resultado, qualquer empresa de médio ou grande porte pôde criar seu próprio “banco de marca” (conta digital, cartão próprio, emissão de Pix), sem precisar se regularizar. O investimento massivo nesse sistema acelerou a democratização das soluções financeiras corporativas.

5. A era do M&A de eficiência e inteligência de risco (2024 – Presente)

Com a infraestrutura já amplamente disponível, o mercado enfrentou novos desafios como o aumento da sofisticação de golpes digitais, inadimplência e custos crescentes de transação. Por conta disso, o foco das aquisições e fusões mudou do “crescimento a qualquer custo” para a “eficiência operacional”. Em vez de comprar empresas para ganhar novos clientes, elas passaram a comprar startups focadas em nichos específicos de inteligência de dados para utilizar ferramentas de inteligência artificial para prever calotes, algoritmos de biometria comportamental e roteadores para encontrar a menor taxa de transação em tempo real.

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