quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Uma Previdência para o novo mundo do trabalho

Por Devanir Silva, presidente da Abrapp – Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar.

Um recente estudo do Boston Consulting Group sobre a previdência na Europa traz um alerta que deveria interessar ao Brasil. Realizada na França, Alemanha, Itália e Espanha, a pesquisa constatou que 80% dos poupadores com menos de 250 mil euros em ativos não se sentem preparados para a aposentadoria. Apenas 18% possuem alternativas de previdência privada.

Há outro dado especialmente relevante. Muitas pessoas simplesmente desconhecem as alternativas disponíveis. Apenas 60% dos entrevistados sabiam da existência de opções de previdência privada e, quando essas possibilidades lhes eram apresentadas, aumentava significativamente a disposição de poupar para a aposentadoria.

Guardadas as diferenças entre as realidades, o estudo ajuda a iluminar um problema que no Brasil é ainda mais profundo. Nosso modelo previdenciário foi estruturado para um mundo do trabalho baseado principalmente no emprego formal, em vínculos relativamente estáveis e em contribuições regulares. Esse mundo mudou.

Milhões de brasileiros trabalham hoje como autônomos, microempreendedores individuais, profissionais de plataformas ou em atividades informais. Outros alternam períodos de emprego formal com diferentes formas de ocupação e geração de renda. O trabalho continua existindo e se transformando, mas já não cabe necessariamente no modelo tradicional que serviu de base para a construção do nosso sistema previdenciário.

É por isso que precisamos superar a ideia de que os desafios da Previdência serão resolvidos apenas por novas reformas paramétricas. O equilíbrio financeiro e atuarial é indispensável, sobretudo diante da situação fiscal do país. Mas mudanças em idade mínima, alíquotas, tempo de contribuição ou fórmulas de cálculo não respondem, sozinhas, a uma questão anterior. Como incorporar à proteção previdenciária milhões de brasileiros que estão fora dela ou contribuem de maneira descontínua?

O Brasil precisa de uma Nova Previdência. E ela precisa começar pela inclusão.

Há um enorme contingente de brasileiros que trabalha, produz renda, empreende, consome e movimenta a economia, mas permanece à margem de uma proteção previdenciária adequada. Se não formos capazes de incluí-los agora, teremos no futuro milhões de pessoas chegando à velhice sem renda suficiente. Um problema que hoje é de cobertura previdenciária se transformará também em um grave problema social e fiscal.

Não existe resposta sustentável para o envelhecimento da população brasileira que ignore essa realidade. Precisamos construir um modelo capaz de combinar responsabilidade fiscal, solidariedade, poupança de longo prazo e proteção social, levando em conta as novas relações de trabalho. A Previdência precisa acompanhar o cidadão ao longo de sua vida profissional, independentemente da forma como ele trabalha ou gera sua renda.

Isso exige ampliar as portas de entrada, criar mecanismos compatíveis com rendas variáveis e desenvolver formas mais simples e flexíveis de contribuição. Nesse esforço, a Previdência Complementar Fechada tem condições de contribuir com sua experiência em poupança de longo prazo e proteção previdenciária. Mas a discussão é maior do que qualquer segmento. Trata-se de pensar como o país protegerá uma população que viverá mais e terá trajetórias profissionais cada vez menos lineares.

Também precisamos aproximar a Previdência das pessoas. O estudo europeu mostra que, quando as alternativas são apresentadas e há orientação, o interesse em poupar para a aposentadoria cresce. A dificuldade, portanto, não está apenas na capacidade de poupança, mas também no acesso à informação e na compreensão sobre a importância de se preparar para o futuro.

Previdência ainda é frequentemente apresentada por meio de conceitos técnicos, regras, cálculos e uma linguagem distante da vida cotidiana. Para a maioria das pessoas, no entanto, pensar em Previdência significa algo muito mais concreto. Significa renda no futuro, proteção da família, segurança e capacidade de manter autonomia e dignidade ao envelhecer.

A tecnologia também pode ajudar a reduzir essa distância. O estudo do BCG mostra que os jovens com menos de 35 anos já recorrem à inteligência artificial em busca de orientação sobre aposentadoria mais do que a consultores financeiros. Ferramentas digitais podem ampliar o acesso à informação e tornar decisões complexas mais compreensíveis, embora não substituam a confiança necessária quando se trata de planejamento de longo prazo.

O desafio brasileiro é urgente. Viveremos mais, teremos novas formas de trabalhar e precisaremos financiar a proteção social de uma população que envelhece rapidamente. Ao mesmo tempo, milhões de trabalhadores continuam fora de uma cobertura previdenciária adequada.

Podemos continuar discutindo Previdência principalmente quando surgem déficits, pressões fiscais ou propostas de aumento de idade e tempo de contribuição. Ou podemos mudar a pergunta.

Em vez de discutir apenas quanto custa a Previdência, precisamos discutir qual Previdência queremos construir para o Brasil das próximas décadas.

Uma Nova Previdência precisa ser sustentável, mas também inclusiva. Precisa reconhecer que o mundo do trabalho mudou e criar caminhos para que quem trabalha, produz e gera renda possa construir proteção para o futuro.

O maior desafio previdenciário brasileiro talvez não seja apenas fazer quem já está dentro contribuir por mais tempo. É encontrar uma forma de trazer para dentro milhões de brasileiros que hoje permanecem do lado de fora.

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