sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Elas apostaram na profissionalização do marketing de influência no Brasil. E colocaram essa história num livro

Beta Whately e Priscila Palacios autoras do livro 'Relevância Não É Sorte': "Nós aprendemos sem manual e, por isso, ajudamos a escrever um".
Em "Relevância Não É Sorte", Beta Whately e Priscila Palacios analisam a evolução do setor, os bastidores do empreendedorismo feminino e o avanço da economia de criadores.

As empresárias Beta Whately e Priscila Palacios lançam, no dia 9 de novembro de 2026, o livro “Relevância Não É Sorte: Uma história sobre união, empreendedorismo e a construção de um novo mercado”. Publicada pela Editora SerMente, a obra retrata a trajetória da agência Fizz, fundada pelas autoras em 2013, e analisa a transformação da economia de criadores e do marketing de influência no cenário nacional. 

A publicação mapeia os bastidores de mais de uma década de atuação da empresa, período em que atendeu mais de 300 marcas. O texto detalha a junção de perfis complementares na liderança do negócio: a atuação de Beta Whately na área de relações públicas e conexões de rede, combinada à trajetória de Priscila Palacios na gestão de marketing, planejamento estratégico e experiência internacional.

Ao analisar o processo de consolidação da empresa e o surgimento do segmento no país, Beta Whately destaca que o aprendizado ocorreu de forma prática durante a estruturação do mercado: “O livro fala sobre a Fizz, mas também sobre amizade, sociedade, coragem e permanência. Nós começamos quando esse mercado ainda não tinha nome e aprendemos fazendo, errando, acertando e, principalmente, construindo relações. Relevância nunca foi sobre aparecer mais. Sempre foi sobre ter o que dizer, para quem dizer e construir confiança ao longo do tempo”, afirma.

Com foco em marketing de relacionamento e influência, a agência opera sob o modelo boutique e optou por não agenciar a carreira de influenciadores, mantendo independência de curadoria na seleção de perfis para estratégias de conteúdo, ações de seeding, gestão de comunidades e eventos. A obra também aborda os impactos da inteligência artificial e das métricas de algoritmos no setor de comunicação, defendendo que a consistência e a credibilidade continuam sendo os pilares centrais para a construção de marcas.

Sobre a disciplina exigida para manter a competitividade operacional em um mercado em constante transformação, Priscila pontua: “Existe muito trabalho por trás daquilo que, olhando de fora, pode parecer sorte. Construir uma empresa, formar um time, conquistar a confiança de grandes marcas e acompanhar um mercado em constante transformação exige visão, disciplina e disposição para mudar sem perder a essência. Este livro revela parte dessa construção”.

O livro também registra a experiência da gestão feminina à frente do negócio e projeta os desdobramentos futuros da comunicação corporativa, ressaltando o equilíbrio necessário entre análise de dados, ferramentas tecnológicas e a sensibilidade do relacionamento humano.

E para saber mais sobre o livro, a GZM e o Startupi conversaram com as autoras com provocações sobre o tema. Confira:

GZM/Startupi: O título do livro afirma que relevância não é sorte. Mas a Fizz nasceu em 2013, justamente quando o marketing de influência começou a se profissionalizar no Brasil. Até que ponto o sucesso de vocês não foi também beneficiado por estar no lugar certo, na hora certa, e como separar competência de timing de mercado?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: O título não nega a sorte, as circunstâncias ou as oportunidades, mas questiona a ideia de que relevância aconteça por acaso. Seria ingenuidade dizer que o timing não ajudou: em 2013, as marcas começavam a descobrir os influenciadores, e não havia métricas nem tabela de preços. Estávamos, sim, no lugar certo e na hora certa.

Mas a influência sempre existiu. O que mudou foram as ferramentas e os comportamentos, e eles não pararam de evoluir. Passamos pela era das blogueiras, pelo Instagram estético, pela chegada do TikTok, pela força dos micro e nano influenciadores, pela creator economy e, agora, pela inteligência artificial. Nosso maior diferencial foi ter consistência e resiliência para nos adaptar a cada uma dessas fases sem perder o que nos define. Muitas agências nasceram na mesma época, mas são poucas as que perduram até hoje e nós temos crescido consistentemente dois dígitos por ano.

Timing abre a porta, mas não segura ninguém dentro por treze anos. O que separa sorte de competência é o que você faz quando a onda muda, e ela mudou muitas vezes.

Estar no lugar certo contribuiu, e muito. Mas continuar relevante por mais de uma década exige escolhas, consistência, capacidade de adaptação e, principalmente, muito trabalho.

GZM/Startupi: Vocês dizem que aprenderam “fazendo, errando e acertando” enquanto o mercado ainda não tinha nome. Hoje, com o setor muito mais competitivo e regulado, esse modelo ainda se sustenta?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: Aprender fazendo continua essencial, mas o jeito de experimentar mudou. O setor está mais competitivo, os profissionais das marcas conhecem melhor o assunto, o CONAR tem um guia específico para influenciadores. O peso no consumo também cresceu: segundo a Nielsen, 81% dos brasileiros já compraram um produto indicado por um influenciador, e a Kantar aponta que 61% dos profissionais de marketing pretendiam aumentar o investimento em creators em 2026.

Hoje, experimentar significa formular hipóteses, definir indicadores, testar na escala certa e só então ampliar o investimento. Foi com essa lógica que criamos o Fizz Lab, que testa diferentes mensagens e territórios de uma marca na voz de diferentes creators de UGC e gera uma matriz de resultados para orientar uma campanha maior. É o aprendizado sendo usado na construção da escala.

O repertório nos ajuda a fazer perguntas melhores, e os testes nos impedem de acreditar que já temos todas as respostas. Errar faz parte. Repetir o mesmo erro por falta de método é outra história.

Nós aprendemos sem manual e, por isso, ajudamos a escrever um. O que não muda é a escuta.

GZM/Startupi: A agência optou por não agenciar carreira de influenciadores para manter independência de curadoria. Mas o modelo boutique, com curadoria independente, consegue competir em escala com grandes grupos que controlam talentos, mídia e dados?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: Escala não é sinônimo de qualidade, e independência não é sinônimo de limitação. Não temos casting próprio para que nenhuma recomendação dependa de quem está sob contrato. Nosso compromisso é com o resultado da marca, e isso passa por escolher o creator certo e respeitar a voz dele.

Os grandes grupos têm vantagens reais em investimento, integração de serviços, dados e negociação em volume. Uma boutique compete por outras: senioridade, proximidade, velocidade de decisão e soluções sob medida. Isso não significa abrir mão de tecnologia. A FAZZ, nossa plataforma, recebe cadastros de creators todos os dias, e nosso banco de dados reúne treze anos de campanhas. Também ampliamos capacidade por meio de parcerias, como a VOZZ, joint venture entre a Fizz e o Grupo Live, que une a gestão de carreira da Live ao planejamento e à criação da Fizz, em uma empresa separada.

A longevidade das relações mostra que o modelo funciona: Bacardi desde o início da Fizz, ADCOS por quatro anos, Mercado Pago há três e, em 2026, a Meta.

Não queremos ser menores por princípio, nem crescer a qualquer custo. Queremos uma escala compatível com a qualidade da entrega. 

GZM/Startupi: O livro defende que consistência e credibilidade continuam sendo pilares centrais em um cenário de IA e métricas de algoritmo. Como convencer o mercado de que “relação humana” ainda importa quando marcas e agências são cada vez mais cobradas por performance, automação e ROI de curto prazo?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: Não há oposição entre relação humana e performance. A inteligência artificial já faz parte do nosso dia a dia: analisa dados, identifica padrões e acelera processos. Mas nenhuma ferramenta, sozinha, explica por que uma pessoa confia em outra ou dá credibilidade a uma recomendação.

Os dados de 2026 mostram isso. Segundo a Kantar, só 27% do conteúdo de creators tem conexão forte com a marca, ou seja, boa parte do investimento se perde por falta de estratégia. Pela Nielsen, apenas 6% dos brasileiros escolhem um influenciador pelo tamanho da audiência, e 87% querem transparência nas parcerias pagas. Confiança virou resultado.

Relação humana também não é desculpa para deixar de medir. Nosso trabalho é mostrar como a qualidade das relações aparece em atenção, engajamento qualificado, consideração de marca e conversão. Por isso cobramos pela inteligência e pelo desenho do projeto, e não por post.

A tecnologia melhora a execução, mas é a estratégia que dá a direção. Quanto mais automatizado o mercado fica, mais valiosa se torna a capacidade de construir conexões.

GZM/Startupi: Vocês destacam a gestão feminina à frente do negócio e os bastidores do empreendedorismo feminino. Como vocês avaliam a posição das mulheres quanto ao protagonismo empresarial no Brasil?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: As mulheres ganharam muito espaço, mas ainda há distância entre ocupar o protagonismo e ter as mesmas condições de crescer. Segundo o Sebrae, o Brasil chegou a 10,4 milhões de mulheres donas de negócio, recorde histórico. Ainda assim, elas são 34,3% do total, e sua renda média é 24% menor que a dos homens.

Conhecemos esses desafios de perto. A Fizz nasceu quando a Priscila deixou a carreira corporativa com um bebê de seis meses em casa, e atravessamos a pandemia trabalhando de casa, com os filhos em alfabetização. Hoje, nossa diretoria é 100% feminina e, em 2020, fomos selecionadas para o programa Winning Women, da EY.

GZM/Startupi: Depois de mais de 400 marcas atendidas em uma década, o que a Fizz ainda não conseguiu resolver? Existe algum fracasso, cliente perdido ou aposta errada que ficou fora do livro?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: Há quatro anos, investimos doze meses e recursos importantes no desenvolvimento de uma nova plataforma tecnológica. Ao final, ela ficou cara demais para ser executada e foi superada pela velocidade da tecnologia. O aprendizado mudou nossa forma de inovar: hoje testamos em ciclos curtos antes de investir pesado, e o Fizz Lab nasceu dessa lógica.

Nem toda perda de cliente é falha na entrega, assim como nem todo crescimento de receita significa um negócio mais saudável. O desafio permanente é rever processos e reconhecer quando uma forma de trabalhar deixou de fazer sentido.

GZM/Startupi: Considerando que o livro é também uma estratégia de posicionamento da Fizz, como vocês dosaram a questão da análise isenta e acurada do setor?

Beta Whately e Priscila Pádua Palacios: Seria artificial dizer que um livro escrito por duas empreendedoras, a partir da empresa que construíram, não posiciona o negócio. Posiciona, sim. O que não queríamos era uma apresentação comercial disfarçada de livro.

Para equilibrar, seguimos algumas regras. Todo dado de mercado vem de fontes independentes e identificadas, como Nielsen, Kantar, McKinsey, eMarketer, Goldman Sachs, Sebrae e IBGE. Não analisamos concorrentes nominalmente, para não transformar o livro em comparação comercial. E os erros entram com o mesmo peso dos acertos. O livro reconhece os avanços do mercado, mas também suas contradições e seus limites, e respeita que existem diferentes modelos para chegar a resultados.

Temos convicções e não as escondemos: a força das relações, a importância da curadoria e o tratamento estratégico da influência. Se o livro ajudar marcas e profissionais a fazer perguntas melhores, terá cumprido seu papel.

O melhor posicionamento não é o que uma empresa declara sobre si mesma, mas o que ela constrói quando compartilha conhecimento e demonstra, na prática, aquilo em que acredita.

Escrevemos o livro que gostaríamos de ter lido em 2013. Ele não ensina fórmulas, porque elas não existem, mas traz um pouco da nossa jornada, através de cases, metodologias e processos que aplicamos no dia a dia.

E para saber mais sobre o marketing de influência e sobre a agência Fizz, confira uma entrevista com Beta Whately, no canal FAAPCast. Ela é ex-aluna da instituição e falou, em 2024, sobre temas que são abordados, como o marketing de influência, e outros, como o empreendedorismo feminino e sua trajetória profissional.

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