* Por Alexandre Gotthilf

A cultura de uma determinada região é responsável por ditar boa parte dos costumes e hábitos da sociedade. Desde alimentação, vestimenta, moradia – quase tudo tem como origem a questão cultural. Quando pensamos em consumo isso não é diferente. Aqui no Brasil, por exemplo, nossa forma de adquirir bens está muito atrelada a ser, de fato, “dono de coisas”. 

Quando observamos como pessoas de outras regiões lidam com essas questões, a exemplo de Estados Unidos e Europa, percebemos que lá, culturalmente, o aluguel, leasing e a assinatura de bens é muito mais popular, ao passo que em nosso país ainda enfrentamos algumas resistências. No entanto, visto os inúmeros benefícios que o mercado de aluguel proporciona, por quanto tempo mais essa resistência deve durar? A meu ver, pouco.

Passamos a perceber, mesmo que timidamente, algumas mudanças no ato de consumir entre os brasileiros. Podemos trazer como exemplo o mercado de automóveis. Os veículos não estão atrelados somente a eficiência de locomoção, mas também ao status de uma pessoa, pois culturalmente são objetos de desejo. Quem nunca ouviu alguém falar que sonha em ter o seu próprio carro?

Pois é, acontece que números divulgados pela ABLA  (Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis), demonstram uma alta no índice de aluguel de carros nos últimos 5 anos, com destaque para 2021, que apresentou crescimento de quase 13%, e não para por aí. De acordo com o Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores), as vendas de veículos caíram 38,9% de dezembro de 2021 para janeiro de 2022, durante picos elevados da pandemia da Covid.

É de conhecimento geral que um automóvel é um investimento caro e que isso também pode ser motivo para o aumento na busca por aluguéis, contudo, também temos o caso de artigos mais acessíveis e rotineiros, como as roupas, e eu não estou falando de vestidos de debutante ou ternos de corte italiano para ocasiões especiais.

O mercado de aluguel de roupas já é uma realidade em diversas empresas, e isso ocorre porque as pessoas têm percebido que alugar é muito mais acessível, rápido, e sustentável. Uma consultoria publicada pelo Wall Street Journal e realizada pela GlobalData Retail apontou que esse segmento faturou US$ 1 bilhão em 2021, e que esse número deve superar os US$ 2,5 bilhões em 2023.

Um case de sucesso que também traduz bem o crescimento da tendência de aluguel pelo mundo é o da Airbnb, que é um serviço on-line comunitário, no qual as pessoas anunciam, encontram e reservam acomodações para hospedagem.

Segundo dados da Airdna, consultoria que analisa dados do mercado de aluguéis de curto prazo, as listagens de imóveis ativos globais da Airbnb aumentaram 2,5% em fevereiro de 2021 em comparação a 2020. Globalmente, havia mais de 5,4 milhões de anúncios ativos no Airbnb. Isso significa que no período em que esses números foram divulgados, a empresa tinha 63% a mais de unidades disponíveis para aluguel do que as redes de hotéis Marriott, Hilton e IHG.

Logicamente por estar muito atrelado à hospedagem de viajantes, a startup sofreu com a pandemia por conta da impossibilidade de se viajar, tendo que demitir cerca de 25% do seu quadro de colaboradores. Porém, durante o período, cresceu a busca por locais com maior espaço vital, mais quartos e em destinos mais remotos, onde foi possível praticar o distanciamento social e isso permitiu um melhor desempenho quando comparado com formas mais tradicionais de hospedagem, mostrando o quão flexível é o mercado de aluguéis.

Outro ponto forte a favor do mercado de aluguéis são todas as vantagens ecológicas que ele proporciona, afinal, quanto mais os produtos circularem entre diversas pessoas, menor vai ser a taxa de descarte. Um exemplo que eu posso dar é justamente a da locação de equipamentos eletrônicos, mercado que tenho acompanhado de perto há muitos anos. Em 2019, o Brasil foi classificado como quinto país que mais descarta resíduos eletrônicos, e este é um gargalo que o mercado de aluguel de equipamentos de TI pode ajudar a solucionar.

O debate ecológico tem se mostrado cada vez mais presente e mais pautado pela população, e isso logicamente afeta o comportamento da pessoa quando ela assume o papel de consumidor. Como os números acima nos mostraram, o mercado de aluguéis não apenas é eficiente para os negócios, uma vez que movimenta quantias gigantescas, como também pode ser nossa melhor opção quando pensamos em sustentabilidade.


AlexandreAlexandre Gotthilf é cofundador e CEO da Plugify, startup brasileira de HaaS – Hardware as a Service que simplifica o acesso e a gestão de TI para empresas de todos os portes. O executivo estudou na Graded School e cursou Relações Internacionais na ESPM e MBA em Administração e Gestão de Negócios na FGV. Antes de criar a Plugify, Alexandre foi Gerente Geral na Pitzi e Trader na Cisa Trading.