* Por Exame.com

A Yuca, startup do mercado imobiliário, acredita que cada vez mais as pessoas vão querer compartilhar espaços – até a sua casa. Mesmo com a pandemia do novo coronavírus e as medidas de isolamento social, a startup de compartilhamento de apartamentos continua com lista de espera de interessados e de investidores. A empresa foi criada em 2019 e hoje, tem 70 quartos para locação em 45 apartamentos. Há 800 pessoas cadastradas na fila de espera para dividir a casa com outras cinco pessoas.

Para Rafael Steinbruch, cofundador e diretor de mercado imobiliário da Yuca, o processo de alugar um apartamento é pouco profissional e muito trabalhoso. Não há muitas grandes empresas que intermediem a conversa entre locador e locatário. Além disso, os apartamentos muitas vezes precisam de reformas ou investimentos em manutenção, mas que o proprietário não quer realizar.

Por isso, centralizar o processo em uma empresa maior, responsável por gerir e manter os apartamentos em ordem, pode ser melhor para o morador e até mais barato. A startup cuida da limpeza, pagamentos de boletos, condomínio e IPTU. Os apartamentos também vêm mobiliados com uma cozinha completa, sala de televisão e quartos com escrivaninha.

Outra vantagem de centralizar as operações em uma grande empresa é ganhar escala para a reforma. Os mesmos materiais são usados em diversos projetos. As obras começaram custando R$ 1.800 por metro quadrado e hoje o custo é de R$ 1.500 por metro quadrado.

Início da ideia

Steinbruch trabalhou por cinco anos na Starwood Capital Group, um fundo global de investimento imobiliário com mais de US$ 60 bilhões de patrimônio sob gestão

Sediado em Nova York, ele percebeu que a grande tendência do mercado nos últimos anos era a volta da valorização da vida nas grandes cidades. Os americanos passaram as últimas décadas indo em direção aos subúrbios.

Hoje, a geração Y, ou Millenials, voltou a ocupar a cidade – e de forma mais colaborativa. A nova geração também compra menos imóveis – por motivos culturais ou mesmo financeiros. O mesmo estava acontecendo no Brasil: há um interesse maior de morar no centro das cidades, para perder menos tempo no trajeto até o trabalho.

Em 2019, Steinbruch deixou os Estados Unidos e veio para o Brasil. Com apenas uma ideia e ao lado dos sócios Paulo Bichucher e Eduardo Brennand Campos, fundou a Yuca e captou US$ 6 milhões em sua rodada de seed liderada pela Monashees e com participação de Creditas, ONEVC, Montage e importantes investidores-anjo.

Apartamentos da Yuca, startup do mercado imobiliário de compartilhamento de apartamentos (Yuca/Divulgação)

Acesso à cidade grande

A Yuca está concentrada na região oeste da cidade de São Paulo, onde muitos prédios são antigos e grandes – eram construídos para abrigar famílias, com uma ou mais crianças, e frequentemente possuem uma grande área de serviço. As famílias já não têm mais essa configuração e esses apartamentos, caros, ficam parados sem moradores ou compradores. A Yuca compra ou aluga esses imóveis a um preço médio de R$ 6 mil reais o metro quadrado, mais baixo do que a média da região.

A sala, área e quartos são divididos em cômodos menores para aluguel. Até os banheiros podem ser divididos, para que cada pessoa tenha seu próprio banheiro. Ao reorganizar o espaço interno de um apartamento grande, a startup acredita que consegue alugar um quarto por um custo muito inferior ao de um estúdio para uma pessoa só.

Apelo entre jovens e investidores

A aventura de dividir apartamentos com desconhecidos não é nova, mas por enquanto atrai principalmente jovens adultos. O público na Yuca está entre os 21 a 35 anos, na média.

Como São Paulo é uma cidade comercial, cerca de 50% dos inquilinos da Yuca são de fora da cidade. A Yuca se propõe a criar vínculos entre os moradores de uma mesma casa, o que não aconteceria em apartamentos individuais.

Para alugar um apartamento pela Yuca, é necessário ser admitido pela empresa. O candidato preenche um questionário sobre seus hábitos para ser direcionado para a casa, ou comunidade, que melhor se adequa.

Se de um lado estão os moradores, do outro estão os inquilinos ou mesmo investidores. A Yuca buscou investidores interessados em adquirir cotas de dois apartamentos que serão reformados e colocados para locação.

A plataforma usada foi a Bloxs Investimentos, plataforma de investimentos alternativos regulada pela  CVM (Comissão de Valores Mobiliários). A taxa de retorno prevista é de 22,8% ao ano.

Pandemia e home office

Mesmo com a pandemia do novo coronavírus, Steinbruch acredita que as pessoas continuam interessadas em dividir um apartamento. No entanto, estão postergando a decisão de se mudar para o fim da crise.

Para o cofundador, com a ampliação de trabalho em home office, o trabalho ficou mais flexível e, com isso, o entorno perto de casa ganha mais relevância – por isso, os apartamentos da Yuca em bairros nobres teriam vantagem. Além disso, com mais tempo em casa, as pessoas tendem a buscar companhia, que pode vir na forma de colegas de apartamento, acredita.

“Como empresa jovem, não podemos olhar apenas para os próximos seis meses, precisamos ver o horizonte de cinco anos”, diz Steinbruch. “As pessoas querem espaços mais confortáveis e centrais para morar, mas para muitos isso não é acessível. Compartilhando o apartamento, passa a ser.”

* Por Karin Salomão, para Exame.com