* Por Exame.com

O empresário Fabio Coelho chegou ao Google em fevereiro de 2011 credenciado por ter ocupado a presidência do IG e cargos de liderança em gigantes do mercado como PepsiCo, Citibank e AT&T. De lá para cá, o executivo viu como a economia brasileira e os negócios de uma das maiores companhias do planeta se comportaram durante o período que se deu após a crise global de 2008 e do terremoto político-econômico que chocou o Brasil em 2016. Nada, porém, é comparável com o colapso da pandemia do novo coronavírus.

Com mais de 3 milhões de pessoas infectadas pela doença que já deixou mais de 230 mil mortos – sendo mais de 6 mil apenas no Brasil – a covid-19 isolou as pessoas, chocou a economia e segue sem previsão de ser erradicada. “Nunca houve nada no mundo desse jeito. É a primeira pandemia desse tamanho na história recente”, afirma o executivo. Em entrevista para a Exame, o homem que ocupa a cadeira mais alta entre os mil funcionários da operação do Google no Brasil revela como a empresa entendeu que precisaria agir com maior empatia neste momento e dá suas percepções sobre as mudanças que vão ocorrer em um mundo pós-coronavírus. “Poderemos construir uma sociedade mais eficiente e com menos desperdício”, diz.

Qual foi o plano adotado pelo Google para enfrentar a pandemia?

Tudo começa com a metáfora da máscara de oxigênio no avião. Primeiro você precisa coloca-la em você, para depois coloca-la em outra pessoa. O primeiro ponto é garantir segurança e saúde de quem trabalha com a gente para que possamos ajudar a servir o mercado. Nosso papel, como missão do Google, é tornar informação acessível e disponível para todos para ajudar as pessoas a tomarem as melhores decisões. O passo seguinte: apoiar comunidades, governos, organizações e autoridades. Seja para subir aplicativos em nossas plataformas – inclusive a plataforma para obter o auxílio emergencial de R$ 600 – ou com parcerias em anúncios, tecnologia e educação. Há um trabalho com educadores e alunos. De uma hora para outra você precisa deslocar uma massa de alunos para que eles tenham aulas online sendo que são pessoas de classes sociais diferentes que às vezes não têm computador ou acesso à internet. O quarto pilar é a continuidade dos negócios com o auxílio na transformação digital das empresas.

Qual o maior desafio do Google no combate ao coronavírus?

É preciso focar no que está sob nosso controle. O que me preocupa é a necessidade de conscientização das pessoas. Isso vai ser um processo sofrido porque ninguém tem a respostas sobre o vírus ainda. Falando de negócios, precisamos ter empatia para entender que existem clientes com fluxo de caixa pequeno e que podem até mesmo fechar. Isso nos preocupa, mas é algo que não está no nosso controle. Assim como o desemprego. É um problema econômico do Brasil. O que a gente pode fazer é criar condições para que as empresas sejam mais eficientes.

O que a pandemia mudou nos planos do Google para o Brasil neste ano?

Estamos há 15 anos aqui. Não muda nada. Nosso papel ajudar a sociedade, o cidadão e as empresas a tomarem as melhores decisões para seus negócios. O que temos que observar é que estamos lidando com um cenário econômico um pouco mais desfavorável e precisamos ter a sensibilidade de entender isso. Já passamos por outros momentos complicados no Brasil, como 2008 e 2016 e conseguimos sair da crise adotando uma postura de ajudar a sociedade e manter um negócio saudável.

Recentemente, o Sundar Pichai, CEO da Alphabet, a controladora do Google, disse que essa é a primeira pandemia do mundo digital. Você concorda?

Olha, se o Sundar falou, eu concordo. Nunca houve nada no mundo desse jeito. É a primeira pandemia desse tamanho na história recente. É a primeira grande alteração da continuidade social. Hoje estamos quase todos conectados. Precisamos encontrar soluções mais rápidas para que as pessoas possam circular informação de qualidade e resolver esse problema da melhor maneira possível. E enquanto isso não é resolvido, precisamos ter um modelo de convivência que favoreça o coletivo.

Como conscientizar as pessoas em um período com muitas notícias falsas circulando a internet, principalmente nos aplicativos e nas redes sociais?

Primeiro é preciso utilizar fontes autoritativas. Criamos um fundo para ajudar no combate às fake news. Também disponibilizamos anúncios gratuitos para as autoridades colocarem seus conteúdos a disposição das pessoas. Não há nada melhor do que informação de qualidade para combater a desinformação.

Um dos principais desafios do Brasil em relação ao combate do coronavírus se dá em relação a subnotificação de casos da doença. A tecnologia pode resolver este problema?

Sinceramente, não. A subnotificação ocorre em diversos lugares do mundo porque existem pessoas que são assintomáticas. Em meados de março, muitas pessoas chegavam nos hospitais e eram enviadas para casa porque não apresentavam sintomas. É uma abordagem até responsável de não internar quem aparentemente não precisa. O que importa, a meu ver, é o número de mortes. É o retrato de como a pandemia está se espalhando.

Quais lições o Brasil tira dessa crise?

Como sociedade, é preciso pensar que somos cada vez mais interdependentes. Se a pessoa ao seu lado não estiver bem, a convivência social será prejudicada porque agora existe um elemento de letalidade ao nosso redor. Precisamos mudar nossa consciência sobre saneamento, limpeza e saúde em geral. São pilares que a gente precisa trabalhar mais. Há o elemento da conectividade que mudou a forma como as pessoas interagem. Nos negócios, vemos empresas que não faziam vendas digitais aprendendo a fazer isso na marra e em pouco tempo.

Como essa crise do coronavírus vai moldar o mercado de tecnologia para os próximos anos?

O mercado de tecnologia é uma combinação de infraestrutura, capacidade de processamento e plataformas. Estão aparecendo vários nichos no mercado. E não apenas com a valorização dos serviços de computação em nuvem. Ainda estamos falando pouco do uso de realidade aumentada e realidade virtual. São tecnologias que poderiam ser elementos extraordinários para gerar melhores experiências à distância. Também não estamos falando direito sobre um modelo de teleconferência melhor do que o que temos hoje.

A ciência de dados está sendo bastante utilizada atualmente. De um modo geral, o brasileiro faz bom uso dessas informações?

O uso de dados é fundamental em qualquer sociedade. Se o pensamento se der em relação a países, os Estados Unidos tem um diretor chefe de tecnologia. O Brasil tem alguns segmentos que usam isso muito bem e outros que ainda estão atrás. É algo natural em qualquer lugar. Por aqui, o sistema financeiro se tornou extremamente avançado no uso de dados. O varejo se sofisticou dramaticamente quando houve o entendimento de que a Amazon poderia chegar o Brasil. Mercado Livre, Magazine Luiza, B2W, Via Varejo, entre outras, têm gente de primeira categoria trabalhando nesta área.

Os hábitos de consumo vão mudar no mundo pós-pandemia?

Há uma humanização do consumo. As pessoas vão pensar em necessidades diferentes. É preciso limpar a casa com mais frequência, cozinhar em casa, se exercitar em casa. Houve um crescimento na categoria de bens duráveis. As pessoas estão buscando mais produtos como esteiras, liquidificadores e batedeiras, por exemplo. Também existe uma valorização ao acesso de qualidade à internet. São coisas que vão oferecer uma experiência melhor e completar a vida da pessoa sem que ela precise sair. Além disso, muitos internautas estão tendo suas primeiras experiências de compra online e isso vai ser incorporado aos hábitos.

Então o home office será uma prática mais comum no futuro?

Não é que você vai deixar de ir para o trabalho, mas talvez você não precise fazer isso da forma como era feito antes. A gente trabalhava em fábricas, com horário fixo, desde o advento da revolução industrial. Há mais de um século. Há um novo contrato de interação social para trabalhar e estudar. Poderemos construir uma sociedade mais eficiente e com menos desperdício.

O Google é uma empresa que, entre suas fontes de receita, comercializa anúncios em suas plataformas digitais. Houve uma mudança dos clientes em relação a essa prática?

Cada vez mais as empresas estão buscando assertividade em seus programas de marketing. Elas precisam ser assim. Ninguém tem dinheiro para desperdiçar com coisas que não trazem resultados. O orçamento de campanhas institucionais está migrando para campanhas que entreguem mais performance para os negócios. Há um movimento em direção a campanhas que tragam um retorno mais visível. Isso favorece o Google.

Mas e quem não quer gastar com publicidade neste momento de apertar os cintos?

Há um vetor contrário que tem relação com o empresário, seja ele pequeno, médio e até grande, que foi impactado pela crise e que precisam pensar no fluxo de caixa de suas empresas. Eles estão certíssimos. É importantíssimo ter fluxo de caixa, fazer o pagamento de funcionários e manter a estrutura básica funcionando. Precisamos entender como vamos mostrar oportunidades de negócios para eles para que eles naveguem durante essa transição. Queremos gerar oportunidades, mas sem oportunismo.

* Por Rodrigo Loureiro para Exame.com.