Com o princípio de que qualquer pessoa pode produzir, consertar ou modificar objetos com as próprias mãos, a cultura maker tornou-se uma aliada no combate ao coronavírus ao ajudar na produção de EPIs. Com esse mesmo espírito, faculdades também estão utilizando suas estruturas de fab labs, laboratórios com potente espaço de fabricação digital com impressoras 3D e cortadoras a laser, para aumentar o número de máscaras protetoras faciais, chamadas de Face Shields.

Segundo uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM), 50% dos médicos, que atuam no combate contra a covid-19, enfrentam a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs). No levantamento, 50% dos médicos pesquisados disseram que faltam máscaras N95 ou PFF2, adequadas para bloquear o coronavírus, e 38,5% afirmaram faltar proteção facial.

As Face Shields, que podem ser produzidas por impressão 3D, oferecem uma maior segurança contra vírus, bactérias e outras contaminações. Além disso, a estrutura dos escudos faciais permite a reutilização do material após a higienização adequada.

No fab lab Newton, laboratório do Centro Universitário Newton Paiva, em Belo Horizonte, credenciado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, mais de 260 protetores já foram doados desde o início de abril.

Para Leonardo Fernandes, responsável pelo setor de Pesquisa, Extensão e Inovação do Newton, o momento exige decisões rápidas e criativas para solucionar os problemas como a falta de equipamentos de proteção. “O fab lab é o local de encontro de saberes, de disciplinas diferentes, para rapidamente elaborar protótipos de produtos utilizando a tecnologia. O fab lab se tornou, então, referência para a elaboração de soluções na pandemia: consegue reunir pessoas de áreas diferentes, utiliza sua metodologia de construção de protótipo, produzindo, testando e refazendo rapidamente os produtos por usar máquinas de impressão 3D e de corte a laser”, diz ele.

O protetor produzido pelo fab lab é composto por duas partes: a viseira, que passa pela cortadora a laser, e as peças do suporte, que são impressas na impressora 3D. Entre os hospitais que receberam doações da Newton em Belo Horizonte estão o Hospital da Baleia, Hospital das Clínicas e Hospital Eduardo de Menezes. Além disso, o laboratório também contribuiu com o corte de mais de 3 mil viseiras que foram para mais de 40 instrumentos de saúde da Região Metropolitana de Belo Horizonte, como a rede FHEMIG, uma das maiores redes de hospitais públicos da América do Sul.

Profissionais e estudantes da Newton também fazem parte do coletivo de makers Trem Maker, em Belo Horizonte. Composto por diversos profissionais como engenheiros, especialistas em fabricação digital, designers e programadores, o coletivo produz diariamente de 300 a 500 escudos e os voluntários responsáveis por receber os pedidos dos hospitais organizam a logística da entrega. O fornecimento atende mais de 15 hospitais presentes em Belo Horizonte e na região metropolitana.

“Os makers possuem muito bem consolidada uma forma de pensar por protótipo, de construir, coletar feedback do usuário e refazer, por meio de um processo interativo e ágil. Dessa forma, consegue atender em menor tempo demandas que uma produção industrial, por exemplo, não conseguiria atender”, destaca Fernandes.

A direção dos hospitais interessados em receber os escudos devem formalizar os pedidos pelo email newton@newtonpaiva.br, informando a quantidade de escudos, cidade, nome do solicitante e o cargo, para avaliação. Voluntários que queiram contribuir com o projeto também devem mandar um email para fablab@newtonpaiva.br.

Produção dos escudos faciais fab lab Newton. Foto: Rodrigo Braga.

A Escola de Engenharia (EE) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), campus Higienópolis, e o Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília – Internacional (CPMB), também estão produzindo máscaras para médicos e enfermeiros de hospitais das suas respectivas regiões.

Com a colaboração de professores, técnicos e alunos, a produção da UPM acontece nos laboratórios do campus Higienópolis. Os protetores são formados por uma placa transparente de PVC – material que é cortado a laser – e são montados com um suporte, retirados de capacetes de construção civil. “A etapa de desenvolvimento do produto contou com a avaliação de projetos já existentes e com as premissas de que o produto final teria que ser: robusto, de baixo custo e com alta capacidade de produção”, disse o coordenador do curso de Engenharia de Produção, André Helleno, que coordena o Mack-Shield, nome do projeto.

Até o momento, 1.700 máscaras já foram produzidas e doadas para diversos hospitais, em diferentes regiões do país, como o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, em Curitiba, e o Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, em São Paulo.

Já a produção da unidade do Colégio Mackenzie Brasília é realizada por meio de duas impressoras 3D, iniciativa que partiu da professora Marianna Brandão, responsável pelo Science Technology Engineering and Math, o STEMack, atividade extracurricular do Colégio.

Marianna faz parte de um grupo de educadores atuantes nos chamados Espaços Maker. Através dele, professores, discutem, juntos, soluções passíveis de projeção e desenvolvimento dentro desses ambientes, a exemplo das máscaras Face Shield. São nas salas markers também que docentes estimulam os estudantes a construírem saídas criativas, inovadoras e tecnológicas para problemas do cotidiano.

“Nesse grupo, conseguimos alguns projetos de máscaras em código aberto, ou seja, arquivos que qualquer pessoa pode editar e imprimir na sua própria impressora 3D. Eu trouxe alguns para o Mackenzie para trabalhar uma proposta que atendesse à demanda do hospital”, explicou a docente.

As máscaras produzidas foram doadas para atender o Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), que já recebeu, ao todo, 20 máscaras entregues pelo Mackenzie. A quantia supre  a necessidade de quatro salas hospitalares, incluindo Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), os prontos-socorros e os centro cirúrgicos.

Outro fab lab que tem atuado nessa frente é o Facens, no Centro Universitário de Sorocaba, interior de São Paulo. A nova EPI, que já está sendo utilizada em hospitais no exterior , ajudará na intubação de pacientes em estado grave de infecção por covid-19.

A caixa de intubação é colocada em cima da cabeça de pacientes e permite que o médico realize a intubação, sem tocá-los, enquanto se mantêm protegido das secreções comumente expelidas durante esse tipo de procedimento. A proteção torna-se essencial no tratamento de pacientes infectados pelo Covid-19, pois, durante a intubação, é comum o paciente tossir e engasgar, promovendo o efeito de aerossol. Assim, essas gotículas expelidas expõem os médicos a alto risco de contágio do novo coronavírus.

A EPI, usada principalmente dentro de centros cirúrgicos e UTIs, pode ser reutilizada após higienização e deve ser sempre utilizado em conjunto com as demais EPIs, como máscara, luva e escudo facial.

Caixa de intubação produzida pelo fab lab Facens. Foto: Divulgação. 

A ideia do novo equipamento de proteção foi trazida à Facens pela Santa Casa de Sorocaba. O hospital entrou em contato com o Centro Universitário em busca de auxílio para o desenvolvimento de um protótipo. Um modelo com melhor ergonomia foi desenvolvido pela equipe do Fab Lab Facens e aprovado por profissionais de saúde da Santa Casa de Sorocaba, ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) e Hospital Regional de Sorocaba.

“Desde que a covid-19 começou a se espalhar pela Brasil, nossa equipe tem buscado incessantemente maneiras de contribuir com o setor de saúde e a sociedade. Nos sentimos muito animados quando a Santa Casa nos procurou para o desenvolvimento dessa caixa de intubação. Agora temos não uma, mas duas EPIs em produção”, explica Paulo Roberto Freitas de Carvalho, reitor da Facens.

Além desta nova EPI, a Facens contribui também a produção e doação de escudos faciais, feitos em uma fazenda de impressoras 3D criada na instituição de ensino. Os dois projetos são supervisionados pelo coordenador do Fab Lab da Facens, Ântoni Romitti. As iniciativas também têm colaboração da Dra. Karen Abrão, médica responsável pela área de Saúde e Tecnologia em Saúde do Centro Universitário, e do Diretor de Operações do IPFacens, Lester Faria.

Makers contra a covid-19

Pensando em como apoiar o combate à pandemia de covid-19 e inspirados em outras ações de makers pelo mundo, Kadu Braga, consultor educacional, fundador da Teia Inovação Consciente e especialista em educação e tecnologia;  e Denis Massucatto, professor de engenharia de impressora 3d – UMC, criaram o coletivo autônomo Makers contra a covid-19.

O movimento, que até o dia 1 de maio tinha produzido aproximadamente 2.500 máscaras, teve uma expansão acelerada e precisou incorporar mais pessoas ao time.  “Logo percebeu-se a necessidade de chamar outros amigos para compor outras frentes como o Luis Henrique Fagundes, conhecido como Asa – engenheiro de software – para compor a equipe de pesquisa e desenvolvimento; e Júlia Mafra, gestora pública pela USP e professora de sociologia e política do INSPER, responsável pela comunicação e mídias sociais”, conta Bice Costa, também responsável pela comunicação do coletivo.

Com o rápido crescimento do movimento, o time de gestão sentiu também a necessidade de integrar ao grupo pessoas que coordenassem a relação com os makers, o processo de montagem das Face Shields e produção de material audiovisual, convidando, assim, as figurinistas de cinema, teatro e publicidade Carol Reissman e Bia Bueno. “Uma semana após o início do nosso projeto, já havíamos alcançado visibilidade e a demanda de hospitais pelos nossos EPIs aumentou significativamente, foi então que convidamos Marlise Carvalho, fisioterapeuta, conselheira no Instituto Dharma, para coordenar a logística de entrega das Face Shields para hospitais, assistente sociais e agentes comunitários”, complementa Bice sobre a formação da equipe.

O movimento atua como ponte entre doadores e indústrias com o objetivo de prototipar o VIVASUS, modelo certificado pelo Hospital das Clínicas e incorporado ao site da Prusa Printers, em molde que permita a produção em escala industrial.

“Nós assistimos de forma histórica e reincidente o desmonte do SUS e, neste momento crítico, a sociedade como um todo está ‘pagando a conta’ dessa política. O coletivo então se organizou para estudar as políticas e ações que outros países adotaram para mitigar os efeitos da covid-19 e, ao nos depararmos com a insuficiência de políticas preventivas por parte do Governo brasileiro, percebemos que o objetivo do nosso projeto seria “achatar” a curva de contaminação dos profissionais de saúde, visando não sobrecarregar, ainda mais, o sistema de saúde”, conta Bice.

Ela também revela que o próximo passo do projeto é a produção de Face Shields para distribuir para movimentos sociais, agentes comunitários e assistentes sociais que estão trabalhando no suporte às periferias, pessoas em situação rua e em vulnerabilidade social.

O coletivo possui um grupo no WhatsApp com 89 makers do estado de São Paulo, para compartilhar dúvidas e soluções encontradas durante o processo de produção. O coletivo também possui 39 makers ativos na produção das máscaras, na qual cada um dispõe entre uma e cinco impressoras. Além disso, empresas maker também auxiliam o grupo com o corte das placas para a fabricação dos escudos e oferecem seus espaços para o processo de montagem como é o caso da Casa de Makers.

“Nossa rede se desenvolveu de forma orgânica e está em constante crescimento. Alguns makers compõem a rede apenas no grupo de WhatsApp para troca de informações e fazem a entrega e/ou a captação de recursos por conta, outros contam com a nossa rede voluntária em alguma parte do processo ou em sua totalidade, principalmente no que se refere ao  repasse de insumos (filamento para impressão e placas de acetato para a construção do escudo) essenciais para o processo produtivo”, explica a voluntária.

O modelo para produção das máscaras está disponível no site do coletivo e qualquer pessoa ou instituição que tenha acesso a impressoras 3D ou cortadoras a laser pode realizar a inscrição como voluntário. O grupo fica responsável por enviar os protótipos para impressão, os protocolos de limpeza e demais orientações para garantir que o procedimento de forma segura.

Bice explica que após finalizar a produção, os voluntários entram em contato com o suporte logístico que leva os materiais à Casa de Makers para passar por um controle de qualidade e finalização antes de serem montados. “Após a montagem, são embalados e levados aos hospitais. Os que por algum motivo não passaram no controle de qualidade, mas ainda estão em perfeito estado para o uso fora do ambiente interno hospitalar, são repassados para os movimentos sociais ou funcionários dos hospitais como seguranças, faxineiros e recepcionistas”, completa.

Profissionais do Hospital Geral de Itapevi usando escudos doados pelo coletivo. Foto: Reprodução Facebook.

Até o momento, 34 unidades de saúde já receberam as doações. Entre eles estão o Hospital Geral de Itapevi, Hospital de Campanha de Osasco, Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário e Pronto Socorro Provisório da Zona Leste. No site também é possível se voluntariar para as áreas de logística, montagem e produção audiovisual. “Para o segundo formulário sempre ressaltamos que é necessária paciência pois tomamos o maior cuidado para que não haja nenhum risco para nenhum dos voluntários, não realizamos a montagem com mais de 5 pessoa, pois é o que nosso espaço comporta”, reforça Bice.

Em Pinheiros, bairro paulista, a unidade da Escola Lumiar também está contribuindo com o coletivo makers contra covid-19. Vitor Barão, educador Maker, articulador de comunidade e curador de projetos da Lumiar, conta que a impressora da escola está operando junto a outra máquina na casa de um mestre maker da escola, e que juntas, já produziram mais de 150 máscaras.

A Lumiar é uma proposta educacional fundada há mais de 15 anos com o objetivo de pensar a educação do futuro. “A Lumiar surgiu como uma escola e se tornou um instituto que cria, promove e suporta uma educação centrada no estudante, baseada em projetos com grupos multietários em todo o mundo para escolas particulares e públicas”, explica.

Barão diz que a participação da escola no projeto aconteceu naturalmente. “Está na raiz da cultura maker aderir a projetos interessantes e agregar pessoas com possibilidades técnicas complementares, valores compatíveis e objetivos comuns. Aderimos a um projeto que se organizou espontaneamente, de forma horizontal, com valores de proteção máxima à vida com base em conhecimento científico e apoio ao direito universal à saúde”, explica.

Para o educador, a cultura maker, que nasce no pós-guerra agregando ideias da cultura hacker, da fabricação digital e da educação, agrega pessoas que trabalham baseadas no paradigma de criar colaborativamente, usando alternativamente recursos e tecnologias para finalidades diversas. “O maker é todo aquele curioso que inventa suas próprias soluções, desenvolve ‘gambiarras’ que resolvem problemas que vão dos minúsculos ‘perrengues’ cotidianos aos grandes desafios da humanidade, usando tecnologia para viabilizar ideias e para se reapropriar dos meios de produção”, detalha.

Assim, Barão acredita que, mesmo que com uma produção menor do que a atual demanda pede, as iniciativas maker são muito significativas porque impactam diretamente vidas humanas. “Os movimentos que surgiram espontaneamente têm produzido máscaras de proteção com impressão 3D e corte a laser, máscaras de tecido costuradas, respiradores hackeados, válvulas improvisadas, etc. Nada disso pode ser produzido de forma consistente por esses grupos, trata-se de uma produção pequena, emergencial, para reduzir, ainda que em pequena escala, as graves consequências da falta de investimento em pesquisa, da falta de incentivo à indústria de suprimentos de saúde e da desvalorização do sistemas de saúde público”, conclui.


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