Artigo por Paulo Krieser, co-fundador e CEO da Econodata.

Startups por definição devem apresentar modelos de negócios escaláveis. Dentro desse segmento, opta-se pela estratégia do oceano azul ou do oceano vermelho (1).

No oceano vermelho a concorrência é ferrenha, porém o modelo de negócio já está seguramente validado pelo mercado. Montar uma estratégia de oceano azul, normalmente escolhida pelas startups, exige inovação. E empreendeder com uma visão alicerçada em inovação é uma tarefa árdua.

O empreendedor que almeja desenvolver algo de impacto frequentemente é visto como sonhador. Pensar em inovar exige a utilização de partes do cérebro diferentes daquelas utilizadas para realizar tarefas mais “pés no chão”. Brainstorms, ócio criativo e livre associação de ideias são tarefas que utilizam mais o lado direito do cérebro, aquele responsável pelo processo de intuição.

Daniel Kahnemann, Nobel de Economia (2), sintetiza as duas formas de pensar em Sistemas 1 e 2. O Sistema 1 é mais rápido, intuitivo, realiza heurísticas automaticamente e traz respostas sem pensar. O Sistema 2 é mais lento, analítico e realiza cálculos com precisão. Daniel Goleman, em seu novo livro Foco (3), chama estes sistemas de Ascendente (pelas informações brotarem do inconsciente, de “baixo para cima”) e Descendente.

Conciliar estas duas formas de pensar, tendo autoconsciência para saber quando cada sistema está atuando, é um treinamento da mente que todo empreendedor deve buscar.

Duas formas de pensar

Inovar e ao mesmo tempo manter os pés no chão é um desafio. Ao mesmo tempo em que a cabeça flutua e surgem ideias sobre possíveis produtos com tecnologias maravilhosas, a capacidade de execução e a aceitação do mercado devem ser levadas em conta. Buscar ideias inovadoras e analisar o mercado e a capacidade de execução são tarefas que devem ser feitas em momentos separados.

Uma alternativa interessante para uma startup que atua com inovação é ter dois perfis de sócios: um mais sonhador e outro que aponta a realidade nua e crua.

Uma ideia deve ser validada antes de se gastar tempo e dinheiro implementando. A melhor forma de fazer isso é utilizando as técnicas que a maioria dos leitores conhecem, descritas nos livros Lean Startup (4) e Os Quatro Passos para a Realização (5). O processo de exploração, onde se conversa com possíveis clientes sobre seus problemas e necessidades, é uma tarefa chave para o sucesso nesta jornada. O desenvolvimento de um piloto ou MVP ajudam a tornar a ideia palpável e a mostrar aos potenciais clientes. Esse é o passo para manter os pés no chão.

Por outro lado, pensar em ideias inovadoras requer um paradigma de pensamento diferente. Para “desbloquear o cérebro”, o bom é estar relaxado. Empreendedores sonhadores têm facilidade em fazer isso. Não é raro ouvir relatos de inventores que tiveram insights criativos durante o banho ou durante uma caminhada. É o chamado ócio criativo. Este é um momento onde não devemos fazer julgamentos e devemos procurar deixar a racionalidade a parte, permitindo ao cérebro realizar livres associações entre ideias. Desta maneira se consegue pensar “fora da caixa”.

O brainstorm pode ser feito em grupo e deve seguir o mesmo fluxo. Pode ser mais difícil, do que quando feito individualmente, pois a tendência dos membros é criticar ou avaliar a ideia do colega. Essas atirudes devem ser evitadas, pois inibem o processo criativo e alimentam o julgamento racional, minimizando as chances de disrupção. Apenas as ideias devem ser faladas e anotadas, sem qualquer avaliação crítica. Este é o momento para deixar o pensamento ir longe, para sonhar. O momento para análise e críticas deve ocorrer posteriormente.

O balanço entre entre as duas formas de pensar costuma ser de difícil equilíbrio. Habitualmente as pessoas tendem para um lado. Quem consegue navegar conscientemente entre um pólo e outro possui um grande diferencial.

(1) A Estratégia do Oceano Azul. W. Cham Kim, Renée Mauborgne. Editora Campus. 2005.
(2) Rápido e Devagar – Duas formas de pensar. Daniel Kahneman. Editora Objetiva. 2011.
(3) Foco. Daniel Goleman. Editora Objetiva.
(4) Lean Startup. Eric Ries. 2011.
(5) The Four Steps to the Epiphany. Steve Blank. 2013.

Artigo por Paulo Krieser: Cientista da Computação e Administrador de Negócios, co-fundador e CEO da Econodata.

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