Você já fez algum curso na internet em ‘lugares’ como Coursera, Udacity, edX, OpenClass, Veduca ou similares? Não? Fique ligado, o futuro da educação passa por aí – pelo menos em parte. No Brasil, já começamos a ver coisas acontecerem nesse campo.

Há alguns dias tivemos uma conversa aqui na Singularity University com Sebastian Burkhard Thrun, fundador da Udacity.  Sebastian foi professor com dedicação exclusiva (já tinha tenure) de Stanford e abandonou essa posição para criar a Udacity. Dentre outras coisas, é vice-presidente do Google, criou a unidade do Google chamada de ‘Google X’, coordenou a equipe que ganhou a competição de carros robôs da Darpa em 2005 e foi escolhido como a quinta pessoa mais criativa do mundo dos negócios pela FastCompany em 2011 e o quarto mais importante ‘pensador global em 2012, pela Foreign Policy.

Foto: World Economic Forum/Flickr

É um alemão que faz acontecer no Vale do Silício. Nada mal, hein? A conversa que a turma do GSP 2013 teve com ele girou em torno de temas como Google, o futuro da educação, carreira, como a tecnologia irá mudar (e já está mudando) o mundo, dentre outros. Veja abaixo uma síntese da conversa (a síntese é minha).

Qual é o seu segredo para fazer acontecer um projeto realmente inovador como o Google Driverless Car sair do papel e se materializar?

Foi a realização de uma visão. Eu tinha uma meta muito clara com relação ao que tinha que ser feito, bem estabelecida. Assim, o problema estava todo na execução. Era uma questão de executar! A partir daí é simples; trabalhoso mas simples, se você tem os recursos.

A coisa mais básica para um grande projeto inovador é imaginação. Depois de imaginar a solução, tudo é uma questão de execução.

Veja um vídeo de um test drive com o carro não-tripulado do Google:

O que é mais importante na hora de contratar uma pessoa para você?

Normalmente é a imaginação. As credenciais técnicas são importantes, mas imaginação faz a diferença

Como surgiu a ideia de criar a Udacity?

Assisti a uma apresentação do Salman Khan, criador da Khan Academy, e tive a ideia de tornar os cursos de Stanford disponíveis on line. Em conjunto com colegas de Stanford lançamos a versão on line do nosso curso de robótica e inteligência artificial.

Meu colega esperava algumas dezenas de inscritos. Eu, em uma visão super otimista, esperava que tivéssemos 10.000 inscritos. O resultado: 147.000 inscritos. Desses, 33.000 terminaram o curso. O mais notável: de todos os inscritos, apenas 30 pessoas iam de verdade às aulas. Os quatro melhores classificados eram estudantes on line.

Saí de Stanford e montamos a Udacity. Não foi uma decisão fácil, mas fiquei satisfeito de atingir um marco (obter a tenure) e ir em frente, sair para criar algo novo.

Qual é a sua visão do futuro da educação?

No futuro títulos não farão nenhum sentido.

O ‘pacote de conhecimentos’ será menor. Teremos cada vez mais cursos de curta duração. Se alguém aprende alguma coisa ao longo de 4 anos hoje, já estará desatualizado no final do curso. A formação estará cada vez mais ‘dissolvida’ na vida pessoal e profissional.

Os testes serão embutidos no aprendizado, jogar vídeo game poderá ser a forma de se realizar testes/exames.

Eu imagino uma época na qual os currículos dos cursos poderão ser ‘crowdsourced’. As pessoas participarão muito mais na geração de conteúdo.

A educação será ‘democratizada’.  Com a tecnologia, as pessoas na África poderão ter acesso ao mesmo tipo de educação que as pessoas hoje tem nos EUA. Isso já está acontecendo.

Como será a universidade no futuro?

O conteúdo será transformado em commodity. Isso já está acontecendo… o conteúdo está disponível na internet e qualquer um pode acessar, fazer download.

O modelo de universidade irá mudar. A gestão de relações com empresas e governos, a ‘acreditação’ e certificação de profissionais e a sua seleção serão mais relevantes.

Quais são as principais diferenças entre as universidades e as empresas?

As universidades ensinam as pessoas conhecimentos para resolver problemas técnicos específicos. As organizações são muito mais focadas em colaboração. Eu nunca vi um problema realmente relevante ser solucionado por apenas uma pessoa!

Na universidade, não se mede as ‘competências sociais’ das pessoas. Mas essas competências são decisivas no mundo real.

Na universidade os professores basicamente se autogovernam. As empresas tem CEOs.

E os MOOCs?

Os MOOCs estão aí para ficar. Veja só… o quadro negro e o giz são tecnologias do século XVI na Europa, massificadas no século XIX. Do dia para a noite o Salman Khan se transformou no principal educador do Século XXI!

Os MOOCs conseguem fazer coisas que a universidade tradicional não consegue. Eles são capazes de se adaptar e transformar com grande velocidade. Obtemos dados sobre o aprendizado de cada estudante, é possível testar (fazer testes A/B) sobre as melhores aulas/exercícios/exemplos para cada grupo ou pessoa. É possível aprender sobre o processo de aprendizado e  mudar muito rápido o currículo, o material etc.

Fico muito impressionado quando encontro MOOCs que não fazem isso, que simplesmente mantém o mesmo conteúdo on line por muito tempo.

Qual é a principal barreira para que ganhem mais espaço?

A principal barreira a ser superada para que a educação esteja acessível para todos é acreditação dos cursos on line.

Qual é o futuro dos professores?

Testei uma das criações do Sebastian!

Poderão voltar a ser professores! Hoje dedicam uma parte muito grande do tempo a reproduzir o mesmo conteúdo a cada período, a cada semestre.

Não há sentido em usar o tempo do professor para falar a cada semestre a mesma coisa. Por que não deixar isso gravado para que as pessoas acessem on line?

Aí os professores poderão voltar a ser mentores do processo de aprendizagem e não meros reprodutores de conteúdo.

Eu também imagino um futuro onde teremos professores como estrelas de rock! Aqueles professores que ministram aulas fantásticas serão reconhecidos e remunerados por isso. Serão conhecidos.

Isso não acontece dando aula em Stanford! Mas eu já encontrei na rua gente que me reconheceu das aulas que assistiu na internet. Que surpresa!

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