Gustavo Caetano não é figura desconhecida de quem acompanha o mundo das startups. O fundador da SambaTech, que já gerou duas empresas “spin off”, também é presidente da Associação Brasileira de Startups*. Pelo Ping Pong, deu pra ter uma noção legal do que trouxe Gustavo até aqui –ele fala de sonhos ambiciosos, de um mantra, de uma frustração que virou faísca e da vontade de investir.

Confira a íntegra da entrevista com o Gustavo:

O que te inspira na vida e no trabalho?

Desafio. Sempre busquei formas de fazer algo que realmente tivesse valor, primeiro pra mim e depois para o mercado. Foi por isso que eu deixei o estágio numa grande empresa para empreender e fundar a Samba Tech. Hoje consigo ver como a tecnologia da empresa que montei auxilia o dia a dia das empresas e isso me motiva.

Você lembra como foi seu primeiro contato com a tecnologia?

Quando tinha 17 anos criei um site chamado HackerNewsBrasil. Era um site afiliado à Hacker News Americana e conseguimos uma boa repercussão na mídia. Escrevíamos sobre tecnologia, segurança, vírus e ataques de hackers. Ficamos tão famosos na época que um dia recebi uma intimação para comparecer à delegacia de repressão à crimes digitais, que ficava na Polinter, no Rio de Janeiro. Estavam por acusando de apologia aos crimes digitais. No outro dia fechei o site!

O que te fez começar a empreender? Como você se preparou para ser um empreendedor?

Eu sempre tive um sonho ambicioso: “Montar um negócio de alto nível, mas que eu pudesse me divertir”. Esse foi o mantra que me guiou. Quando era um estagiário ficava incomodado e frustrado em não poder expor minha ideias e contribuir para o negócio da empresa.

Acho que foi essa a faísca pra que eu começasse a pensar em montar algo que era meu. A história da Samba começou por puro feeling de que existiria um nicho de mercado. Arrisquei e deu muito certo! Não tinha muito conhecimento de como montar uma empresa e muito menos de como gerenciá-la. Tudo o que eu apliquei foi vendo como as startups de sucesso faziam lá fora. Foi o próprio conceito de construir o barco enquanto se está remando. Você só tem experiência fazendo escolhas e só faz boas escolhas tendo experiência, então não tem jeito, para empreender tem que arriscar.

Quando você começou esta startup, qual foi sua visão de sucesso?

Ixi, Amanda… acho que acabei respondendo essa acima!

No Brasil, todo mundo é meio técnico da seleção e quer escalar o time dos sonhos. Como você fez para escalar o seu time?

Vendi o sonho e eles compraram. As pessoas que trabalham com você definem sua empresa. No começo há muito trabalho e pouca recompensa, por isso sempre acreditei nos que acreditaram no meu sonho. Tenho funcionários que trabalham comigo há 6-7 anos e quem eu tenho plena confiança.

Consegui atrair os talentos que fazem parte da família Samba dando a oportunidade para que eles pudessem crescer junto com a empresa e autonomia para poder desenvolver suas atividades. Essa é a cultura interna que eu quis montar e que, sem dúvidas, é um dos pilares que sustentam o crescimento da empresa.

Você gasta quanto do seu tempo com vendas?

Acho que quase 100% do meu tempo. Tudo o que se faz hoje em dia envolve negociação e vendas, seja para expor uma ideia, seja numa discussão de negócios. Com relação à vendas em si, sempre tento utilizar meu networking para buscar um contato que seja interessante para a equipe comercial.

Prefere bootstrap ou empreender com o dinheiro de sócios?

A Samba Tech teve o aporte financeiro em momentos chaves da sua história e posso dizer que mais do que o capital, o apoio dos investidores foi essencial para alanvacar o crescimento da empresa. Se você souber usar bem o dinheiro que levanta, ele pode ser a gasolina que faltava para turbinar o seu negócio. Mas é importante saber que ele não dura pra sempre, portanto é essencial buscar um modelo de negócios sustentável.

Você venderia sua empresa e se desligaria dela? Como isso aconteceria?

Meu perfil é mais de empreendedor serial. Como falei, sou movido a desafios e por isso gosto de participar de diversos empreendimentos, mas sem centralizar o gerenciamento. Confio nas pessoas que estão comigo e por isso os principais cargos da Samba Tech e das outras empresas como Samba Ads e AdstreamSamba foram delegados à pessoas que cresceram junto com a empresa. Se um dia acontecer de me desligar da Samba vou ter a convicção que fiz meu melhor e, sem dúvidas, vou partir pra outro empreendimento – já mais maduro e experiente.

Para onde o mercado brasileiro vai? E as startups vão junto, vão na frente ou atrás?

Pra mim que comecei minha jornada empreendedora em 2004 é visível a mudança do mercado em vários sentidos: fomento do empreendedorismo, maturidade das empresas, aquecimento do mercado, empresas que já nasceram mundiais, e porque não, apoio – ainda que tímido – do governo. Nunca antes tivemos tantas startups de sucesso e tanto dinheiro de fundo de investimento gringo em terras tupiniquins. O momento é excelente, cabe aos empreendedores e startups torná-lo um padrão e não mais uma bolha de mercado.

Você se sente realizado? já conquistou o sucesso? Sua noção de sucesso alterou conforme a trajetória da startup?

Sucesso é algo muito subjetivo e volátil. Prefiro tratá-lo como pequenos milestones na minha vida e na vida da Samba Tech. Quando você conquista uma grande conta, lança uma bela campanha de marketing, deixa seus clientes felizes, por exemplo, são pequenas formas de vencer. Comemorar pequenas vitórias faz parte da cultura interna da Samba e mostra que os esforços valeram a pena. Sempre trabalho por etapas e sempre uma coisa de cada vez. Assim estou sempre vivendo desafios e, quanto os venço, conquistando o sucesso.

Quais startups te deixam mais feliz como cliente?

Zendesk, Evernote e Dropbox pela simplicidade e utilidade do serviço que prestam. Essas empresas conseguiram transformar coisas complexas em uma experiência agradável para o usuário final. Tento sempre trazer esse espírito para Samba.

Se você fosse se tornar sócio investidor de uma startup, qual ou quais seriam elas?

Já investi em startups como Samba Ads, Adstream Samba e My GeekDay, mas adoraria investir em outras como Conta Azul, Descomplica, Kekanto e Dito Internet. Todas são empresas que me atraem por oferecerem serviços que realmente têm valor para os consumidores finais, sejam eles empresas ou pessoas físicas.

Quais dicas você daria para quem está pensando em empreender uma startup?

Ousadia. O mercado é incerto, a trajetória é longa e os riscos são diversos. Mas não ter medo de arriscar é o que vai mostrar se sua startup é vencedora ou não. O que eu sempre falo quando tenho a oportunidade de palestras em eventos é “Stop talking and start-up doing”.

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*Inicialmente, este texto dizia que Gustavo era investir em startups como a Kekanto e Descomplica. O erro foi meu e já corrigi!