O setor de Tecnologia da Informação atravessa um momento singular. Nunca se investiu tanto em automação, inteligência artificial e digitalização de processos e, ainda assim, empresas seguem travadas pela escassez de profissionais, ao mesmo tempo em que trabalhadores da área enfrentam dificuldades para se recolocar. Trata-se de um descompasso entre oferta, demanda, custo e qualificação.
“Nos últimos anos, as empresas de tecnologia passaram a operar sob uma lógica mais conservadora. Após ciclos de contratações agressivas e sucessivas ondas de layoffs, a prioridade deixou de ser crescimento acelerado e passou a ser eficiência. Isso se reflete diretamente na forma de contratar”, destaca Frederico Sieck, CEO da Koud, especializada em alocação e recrutamento de profissionais de tecnologia.
Sieck tem observado uma mudança de sentido, em que as companhias têm evitado profissionais em início de carreira e concentrado suas vagas em perfis sêniores, já prontos, produtivos e com menor curva de aprendizado. O problema é que esses profissionais se tornaram escassos e caros.
“A conta simplesmente não fecha. O mercado brasileiro não consegue competir com empresas estrangeiras na disputa por desenvolvedores sêniores que pagam em dólar ou euro”, afirma Frederico Sieck.
De acordo com dados públicos de plataformas como Glassdoor e ferramentas de mercado salarial, a remuneração anual de desenvolvedores de software nos Estados Unidos costuma ficar entre cerca de US$ 75 mil e mais de US$ 130 mil por ano, refletindo diferenças por experiência, tecnologia e localização. Profissionais sêniores, especialmente com especializações em áreas como cloud, segurança de dados e inteligência artificial, frequentemente alcançam salários anuais bem acima da média, muitas vezes na faixa de US$ 150 mil ou mais, dependendo da empresa e da função.
No Brasil, segundo levantamentos de remuneração da Robert Half, Michael Page, Brasscom e Sindpd, desenvolvedores sêniores recebem, em média, entre R$ 12 mil e R$ 18 mil mensais, mesmo em empresas de médio e grande porte e em polos tecnológicos consolidados.
“Essa diferença estrutural de custos torna praticamente inviável para companhias nacionais competir com ofertas internacionais, acelerando a migração de talentos e aprofundando o déficit de mão de obra qualificada no mercado interno. Em termos práticos, uma empresa americana consegue montar times globais pagando menos do que pagaria localmente. Já a empresa brasileira perde seus melhores talentos e não consegue repor essa força de trabalho na mesma velocidade”, explica Sieck.
O impacto econômico é direto: projetos atrasam, a inovação desacelera e empresas recorrem cada vez mais a modelos híbridos, terceirização ou outsourcing como tentativa de manter competitividade. E, enquanto os sêniores se tornam inacessíveis, o mercado acumula profissionais júnior e pleno sem oportunidades.
Sieck explica que formar um júnior exige tempo, estrutura e acompanhamento. Durante esse processo, um profissional sênior deixa de produzir para treinar. Quando o júnior finalmente atinge maturidade, o mercado o absorve rapidamente, muitas vezes em outra empresa.
“Na prática, o custo de formar um júnior pode equivaler ao custo de contratar quase dois sêniores. Em um cenário de alta rotatividade, poucas empresas estão dispostas a assumir esse risco”, diz o CEO da Koud.
O resultado é um desequilíbrio estrutural: empresas reclamam da falta de profissionais experientes, enquanto uma nova geração de talentos encontra portas fechadas para entrar no mercado.
Inteligência Artificial: ganho de eficiência, perda de postos
Para o CEO da Koud, a chegada da Inteligência Artificial acelera ainda mais essa reconfiguração. Isso porque sistemas baseados em IA já substituem tarefas antes executadas por equipes inteiras, da prospecção comercial à análise de dados, passando por testes, suporte e produção de conteúdo.
“A tendência é que o trabalho deixe de ser execução e passe a ser supervisão e treinamento de sistemas. A consequência é um funil mais estreito de oportunidades, especialmente para quem não se especializa”, afirma Sieck.
O especialista avalia que esse impasse no setor de TI pode comprometer a competitividade da economia brasileira, já que, sem profissionais qualificados e estratégias eficazes de retenção, o país corre o risco de se tornar apenas um exportador de mão de obra, e não de tecnologia.
“A tecnologia continua avançando, mas o desafio agora é humano e estratégico. Ou as empresas repensam como formar, reter e desenvolver talentos, ou o crescimento do setor ficará limitado. O futuro da tecnologia não será definido apenas por linhas de código ou algoritmos, mas pela capacidade de equilibrar eficiência econômica, desenvolvimento profissional e inovação sustentável”, conclui.
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