Outubro chega e, junto com o Dia das Crianças, chegam também as listas: o brinquedo que apareceu no vídeo, o personagem que todo mundo parece ter, o lançamento que surgiu no jogo, aquilo que a criança viu na casa de um amigo, o presente dos pais, dos avós, dos padrinhos e dos tios. E, com eles, uma pergunta comum entre os adultos: será que as crianças estão ganhando coisas demais?
Talvez essa não seja a questão mais importante. A quantidade pode ser importante em alguns contextos, mas não explica sozinha a relação que uma criança constrói com aquilo que recebe. Uma criança pode ter poucos brinquedos e descartá-los rapidamente, enquanto outra pode ter muitos e cuidar, reinventar e compartilhar. Entre o objeto e o valor que atribuímos a ele existe uma experiência.
Desejar também é parte da infância
Existe uma tendência de tratar o desejo infantil como algo que precisa ser corrigido quando falamos sobre consumismo. Mas querer um brinquedo não é, por si só, um problema. A criança pode desejá-lo porque gosta de um personagem, ficou curiosa, viu outra criança brincando ou simplesmente achou bonito. E receber um presente também é uma experiência afetiva, uma vez que ele pode carregar a mensagem de que alguém pensou nela, marcar uma data e criar uma memória.
Educação para o consumo não começa ensinando que querer é errado. Começa ajudando a criança a perceber, aos poucos, que existe uma diferença entre querer, escolher, esperar, receber e precisar. E a espera é parte importante desse processo. Quando um desejo não é atendido imediatamente, a criança tem a oportunidade de experimentar frustração, fazer escolhas e compreender que nem tudo acontece no momento em que queremos.
Essa relação ficou ainda mais complexa com o ambiente digital. Muitas crianças chegam ao Dia das Crianças depois de meses expostas a unboxings, creators, personagens associados a produtos e jogos que incorporam itens comercializáveis. O UNICEF chama atenção justamente para a mistura entre publicidade, entretenimento e brincadeira nesses ambientes. Assim, quando uma criança diz “é isso que eu quero”, seu desejo pode ter sido construído por repetição, identificação, influência de outras crianças ou exposição comercial.
Isso não torna o desejo menos legítimo, mas ajuda os adultos a compreenderem de onde ele veio.
Mais presentes não são necessariamente mais experiência
Também não existe um número mágico de brinquedos a partir do qual uma criança deixa de valorizá-los. Um pequeno estudo experimental com 36 crianças, porém, encontrou que, diante de quatro brinquedos em vez de dezesseis disponíveis ao mesmo tempo, elas passavam mais tempo com cada objeto e exploravam as possibilidades de brincadeira de maneira mais variada.
Isso não significa que uma criança deva ter apenas quatro brinquedos ou que ganhar muitos presentes seja prejudicial. A reflexão é sobre o excesso de estímulos acontecendo simultaneamente. No Dia das Crianças, quando um pacote é aberto e logo outro aparece, a novidade pode acabar se tornando mais estimulante do que permanecer, explorar e brincar com aquilo que acabou de chegar.
Por isso, em famílias em que muitos adultos querem presentear, pode fazer sentido distribuir os presentes ao longo do dia ou guardar alguns para outro momento. Não porque exista algo errado em ganhar muitos, mas porque tempo também faz parte do presente.
O mesmo vale para a gratidão. Ensinar uma criança a agradecer é diferente de exigir uma reação emocional imediata. Ela pode estar tímida, cansada, não gostar do presente ou simplesmente estar mais interessada na caixa do que no brinquedo. Gratidão é construída por experiências e exemplos cotidianos, e não apenas por um “fala obrigado”. Uma pesquisa brasileira da FGV EAESP, baseada em relatos de pais, encontrou associação entre práticas ligadas à gratidão e menores indicadores de materialismo em adolescentes. Por ser um estudo com adolescentes e baseado em relatos parentais, o resultado não deve ser tratado como fórmula para crianças pequenas.
O presente continua depois que o pacote é aberto
Talvez seja depois da compra que aconteça uma das partes mais importantes da educação para o consumo. Como cuidamos daquele brinquedo? O que fazemos quando ele quebra? Podemos consertar, compartilhar ou dar outra função? E quando já não faz mais sentido, podemos conversar sobre doá-lo?
Essas experiências ajudam a criança a entender que os objetos têm uma história para além do momento da compra. Em uma cultura marcada pela novidade constante como o próximo brinquedo, a próxima tendência, a próxima skin, aprender que algo não precisa ser novo para continuar interessante também é uma aprendizagem importante.
Por isso, presente e presença não precisam ser rivais. É possível dar um brinquedo e brincar com ele, oferecer uma experiência e também um objeto, comprar algo que a criança desejou muito e conversar sobre espera. Antes de comprar, talvez valha perguntar: esse é um interesse real da criança? Há muitos adultos comprando sem combinar? Estamos tentando compensar a ausência ou a culpa? E, depois que ele chegar, teremos tempo para que seja incorporado à vida dela?
Não precisamos transformar o Dia das Crianças em um manifesto contra os presentes. Uma criança pode lembrar por anos daquele brinquedo que ganhou, mas talvez a memória esteja também na avó que estava ao lado, no pai que ajudou a montar, na brincadeira que inventaram ou na caixa que virou uma nave.
Porque o valor de um presente não está apenas no preço, na quantidade ou na reação de quem o recebe. Ele também é construído depois: na possibilidade de permanecer, cuidar, criar, compartilhar, esperar e lembrar. O presente é uma parte da experiência e não precisa carregar, sozinho, a responsabilidade de fazer uma infância feliz.