Imagine um sistema político em que 45% dos eleitores não se reconhecem em nenhum partido, apenas 15% acham que seus representantes merecem continuar no cargo e, nos últimos dez pleitos, nove terminaram com a troca do partido no poder. Não é uma república instável da periferia global: são os Estados Unidos, cuja temporada eleitoral que se encerra neste ciclo de meio de mandato escancarou fraturas internas sem precedentes — e criou, paradoxalmente, a maior janela de realinhamento político em décadas. Para líderes empresariais, o recado é estratégico: quando a política tradicional perde a capacidade de representar, a agenda econômica passa a ser definida por insurgentes, e a previsibilidade regulatória torna-se a primeira vítima.
Rebeliões nas duas trincheiras
Os sinais de desagregação são visíveis em ambos os partidos, conforme análise da imprensa americana. Em Michigan, a deputada centrista Haley Stevens, derrotada por margem estreita nas primárias ao Senado, endossou o candidato republicano e acusou o nominado de seu próprio partido, Abdul El-Sayed, de infundir sua agenda progressista com antissemitismo. Do lado republicano, o presidente Donald Trump impôs Ken Paxton — procurador-geral do Texas indiciado e alvo de impeachment — como candidato ao Senado, preterindo opções mais seguras, para depois ridicularizá-lo publicamente durante a campanha em dificuldades.
O resultado é que cadeiras antes consideradas garantidas estão em disputa em estados que Trump venceu por dois dígitos há apenas dois anos, como Ohio, Iowa, Alasca e Kansas. Uma das razões, segundo o WSJ: o próprio presidente irritou sua base ao impor tarifas e entrar em guerra com o Irã, elevando os preços. A metáfora do colapso precoce veio do Maine, onde Graham Platner, um obscuro criador de ostras, ultrapassou o candidato da cúpula partidária com um grito populista — “as pessoas sabem que o sistema está tirando proveito delas; elas sentem isso nos ossos” — antes de ver sua campanha implodir em menos de um ano.
O eleitor desiste dos partidos
Os dados quantificam a erosão. Em levantamento divulgado pela Gallup, apenas 15% dos eleitores afirmaram que a maioria dos membros do Congresso merece reeleição — o menor índice desde 1994. No ano passado, a mesma Gallup registrou recorde de 45% de americanos se identificando como independentes, enquanto pesquisas apontaram salto expressivo na parcela de eleitores com visão desfavorável dos dois partidos simultaneamente.
“A raiva atinge um nível extremamente venenoso. Um minuto depois de se apresentarem, eles começam a desabafar“, relatou ao jornal The Wall Street Journal o pesquisador democrata Mark Putnam, que conduz grupos focais há 40 anos. “Nunca vi pessoas tão cínicas e céticas quanto agora“.
Nem mesmo o domínio de Trump sobre o Partido Republicano escapa ileso: conforme pesquisa do WSJ, diminuiu a parcela de republicanos que se identifica com o movimento MAGA, e diversos candidatos romperam com o presidente nas últimas semanas, discordando de tarifas e da guerra com o Irã.
A nova geração disputa o eleitor fluido
A insatisfação generalizada tem um efeito colateral promissor: a ascensão de uma nova coorte de líderes. O senador democrata Jon Ossoff, 39 anos, da Geórgia, acumulou ao menos 3 milhões de seguidores nas redes com críticas ao governo Trump. O também democrata James Talarico, 37, disputa o Senado pelo Texas impulsionado por sua oratória. O deputado republicano Brandon Gill, 32, o mais jovem da Câmara, soma cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram e no X.
“Os partidos vão se realinhar“, afirmou o deputado democrata Jake Auchincloss, de Massachusetts, ao WSJ. “É uma oportunidade para os democratas, mas também um risco enorme” — o de oferecer uma versão diluída do populismo de Trump. Auchincloss lidera o grupo Majority Democrats, que busca posicionar o partido entre o movimento trumpista e a “esquerda ativista”, com foco na economia de mercado. “O objetivo deve ser atrair a maioria exausta dos americanos que querem um partido trabalhando pela classe média”, declarou.
Do lado republicano, a disputa interna opõe o legado MAGA, representado pelo vice-presidente JD Vance, a vozes centristas como John E. Sununu, candidato ao Senado por New Hampshire. “Quando Donald Trump deixar o cargo daqui a dois anos, para onde vai o país?“, questionou em debate. O demógrafo político Ruy Teixeira, do American Enterprise Institute, vê obstáculos altos, mas oportunidade real: “Seria preciso um verdadeiro empreendedor político para vender isso aos eleitores“.
O espelho brasileiro
O fenômeno americano não é exceção — é tendência global que o Brasil conhece bem. Aqui, a fragmentação partidária é estrutural: com mais de 20 siglas com representação no Congresso, a fidelidade partidária há muito deu lugar a coligações pragmáticas e ao voto personalista. Pesquisas nacionais recorrentes, como as do Datafolha, mostram níveis historicamente elevados de rejeição a partidos e de eleitores sem preferência partidária, espelhando o recorde de independentes americano.
Há, porém, uma diferença estratégica relevante para executivos. Nos EUA, a insatisfação converge para um denominador comum surpreendentemente transversal: o custo de vida, criando áreas de acordo inéditas entre eleitores de campos opostos.
No Brasil, o mesmo fenômeno já se manifesta: pautas econômicas imediatas — inflação de alimentos, tarifas de energia, juros — dominam a agenda pública e reconfiguram alianças no Congresso, como se viu nas negociações recentes sobre arcabouço fiscal e reforma tributária.
Para o mundo corporativo, a lição de ambos os lados do continente é que a era das agendas ideológicas previsíveis, provavelmente, acabou: o novo eleitor é fluido, pragmático e pune quem ignora seu bolso. E os governos que não captarem esse sinal devem ter problemas em eleições. E no próprio bolso, claro.