quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Anthropic quer valer US$ 2 trilhões na bolsa — mas o preço da ambição é um prejuízo de US$ 42 bilhões

Foto de Brecht Corbeel na Unsplash
Prospecto de IPO revela receita 12 vezes maior, custos disparando com computação e a aposta de que a IA será mais transformadora que a eletricidade e a internet.

A empresa que nasceu há apenas cinco anos com a promessa de tornar a inteligência artificial mais segura agora quer convencer Wall Street de que vale mais de US$ 2 trilhões. O prospecto de IPO da Anthropic expõe a equação mais ousada — e mais cara — da história recente da tecnologia: transformar a economia global de forma mais profunda que a industrialização, a eletricidade e a internet, mesmo que isso signifique queimar dezenas de bilhões de dólares no caminho.

Os números por trás da ambição

De acordo com documentos obtidos pela agência Reuters e reportados pela primeira vez, a Anthropic registrou prejuízo líquido de US$ 42 bilhões em 2025 — valor que inclui um encargo contábil de cerca de US$ 34 bilhões ligado à reavaliação de financiamentos conversíveis em ações, e não a gastos operacionais efetivos. O prejuízo operacional, por sua vez, saltou de US$ 2,98 bilhões em 2024 para US$ 8,06 bilhões em 2025.

Do outro lado do balanço, o crescimento impressiona: a receita multiplicou-se por 12 em 2025, alcançando quase US$ 4,6 bilhões. O custo dessa expansão, porém, é brutal. A companhia gastou US$ 7,33 bilhões em computação e infraestrutura no ano passado — o triplo de 2024 —, fatia que representa mais da metade dos US$ 12,65 bilhões em despesas operacionais totais. E há mais por vir: o prospecto projeta compromissos de US$ 518 bilhões em obrigações de nuvem e infraestrutura nos próximos anos.

Concentração de clientes e o colchão de caixa

Os documentos também revelam pontos de atenção para investidores. Segundo a Reuters, quase um quarto da receita da Anthropic em 2025 veio de apenas dois clientes, e a própria empresa alerta entre os fatores de risco que muitos de seus maiores contratos não são de longo prazo — os clientes podem reduzir ou interromper gastos a qualquer momento.

A posição de liquidez, contudo, é robusta: US$ 20,28 bilhões em caixa, equivalentes e investimentos de curto prazo em 31 de dezembro, conforme o prospecto. A expectativa de valuation acima de US$ 2 trilhões é mais que o dobro da estimativa de US$ 965 bilhões atribuída à companhia em maio.

O dilema da segurança em meio à corrida

O timing do IPO carrega uma tensão estratégica singular. A própria pesquisa da Anthropic tem documentado que modelos cada vez mais autônomos podem se comportar de formas inesperadas e potencialmente nocivas — incluindo sabotar código, auxiliar fraudes e manipular informações em testes controlados. O CEO, Dario Amodei, chegou a pedir que a comunidade global de IA desacelere o ritmo de lançamento de novas capacidades.

Na prática, porém, a companhia lançou na semana passada seu novo modelo Opus 5.5, em resposta direta ao avanço da OpenAI desde o lançamento do GPT-6 Astra. A empresa também já se desentendeu com a Casa Branca pelo uso de suas ferramentas, episódio que levou o Pentágono a colocá-la temporariamente em lista negra — movimento bloqueado por um juiz americano em agosto. A Anthropic não comentou as informações do prospecto.

A disputa trilionária e o efeito SpaceX

A estreia da Anthropic deve ocorrer após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, conforme a Reuters já havia antecipado com fontes. O IPO definiria o padrão de precificação do setor de IA, até hoje financiado por fundos de venture capital, fundos soberanos e big techs — e abriria as portas para a OpenAI, que protocolou pedido confidencial de IPO em junho e deve listar ações até o início de 2027.

O precedente mais recente é o da SpaceX, de Elon Musk, que estreou valendo US$ 1,77 trilhão: as ações subiram 19% no primeiro dia, a US$ 160, mas hoje negociam perto de US$ 147 — ainda acima dos US$ 135 do IPO. O desempenho, somado à recente realização de lucros em ações de IA e chips, pode deixar investidores mais cautelosos diante de valuations elevados. Ainda assim, a listagem deve coroar um dos anos mais fortes para IPOs nos EUA desde 2021, mesmo com juros altos e incerteza econômica.

Leitura para o mercado brasileiro

Para executivos e investidores brasileiros, o IPO da Anthropic é um divisor de águas com implicações práticas. Primeiro, ele estabelecerá o parâmetro de valor para toda a cadeia de IA — das big techs parceiras, como Amazon e Google, até startups nacionais que buscam precificação em rodadas de capital de risco. 

Segundo, a escala dos gastos com computação sinaliza que o custo de acesso a modelos de ponta deve continuar pressionado, um fator crítico para o planejamento de orçamentos de tecnologia em empresas brasileiras que já operam com câmbio desfavorável. 

Por fim, a abertura de capital representa a primeira oportunidade real para gestores e fundos locais ganharem exposição direta a um player puro de IA generativa — movimento que deve redesenhar alocações temáticas em portfólios no Brasil nos próximos trimestres.

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