Vamos imaginar o seguinte: o eleitor pesquisa no Google o nome de um candidato para saber o que ele defende. A inteligência artificial já fornece um resumo pronto — talvez alimentado por sites de notícias falsas criados em um único dia por operações de propaganda estrangeira, antes mesmo do lançamento do site oficial da campanha. Não se trata de uma obra de ficção distópica. Isso reflete as eleições de meio de mandato que estão ocorrendo nos Estados Unidos, as primeiras nas quais a inteligência artificial está presente em todas as principais redes sociais — e serve como um espelho perturbador para o Brasil, que está prestes a passar por um ciclo eleitoral presidencial em 2026, enfrentando as mesmas fragilidades tecnológicas.
A primeira eleição “nativa de IA” — e os perigos que ela apresenta
De acordo com uma matéria do jornal The New York Times (NYT), a pressa para adicionar inteligência artificial às principais plataformas gerou uma série de perigos entre os eleitores e informações confiáveis — riscos que as empresas de tecnologia enfrentam de maneira inconsistente, quando os enfrentam. Chatbots, serviços de criação de conteúdo e sistemas automáticos de moderação começaram a influenciar decisões eleitorais, enquanto a IA possibilita novas maneiras de disseminar conteúdo tóxico.
Os dados revelam a rapidez com que a adoção ocorre — e o dilema da desconfiança. De acordo com uma pesquisa da American Association of Political Consultants Foundation, que foi citada pelo NYT, 20% dos eleitores planejam usar IA para investigar disputas em seus boletins de voto, e o dobro já recebeu informações eleitorais através de resumos gerados por IA em suas pesquisas. Mesmo assim, apenas 1% dos participantes da pesquisa afirma que a IA é sua fonte de informação eleitoral mais confiável.
A transparência não consegue acompanhar a rapidez da tecnologia
“Esta é a primeira eleição em que a IA está profundamente embutida nas plataformas”, disse Max Read, diretor de inovação cívica do Institute for Strategic Dialogue (ISD), uma organização de pesquisa que estuda a desinformação. O segundo relatório do instituto, que foi divulgado pelo NYT, aponta que a transparência e a supervisão humana estão sendo deixadas para trás no rápido avanço da IA, com “lacunas significativas” na forma como conteúdo artificialmente gerado é rotulado ou restringido.
“A resposta das empresas tem sido irregular, mal documentada e, em vários casos, inadequada para enfrentar os danos que deveria prevenir”, Read acrescentou.
A pressão política se intensifica. Os senadores Adam Schiff e Alex Padilla, ambos do Partido Democrata da Califórnia, questionaram Google, Meta, Snap, TikTok e xAI sobre como planejam proteger a integridade das eleições. O Google apresentou as respostas de forma mais minuciosa, mas os senadores avaliaram que o total estava aquém do necessário. “As empresas de mídia social detêm um poder enorme sobre o conteúdo que os eleitores veem: elas decidem o que amplificar e o que não”, afirmou Schiff.
Testes indicam retrocesso — a não ser por um
O grupo de defesa dos direitos eleitorais Brennan Center for Justice descobriu neste verão americano que os chatbots mais populares eram capazes de resistir a narrativas falsas sobre eleições, mas podiam ser induzidos a gerar conteúdo prejudicial — como imagens de fraude eleitoral. A OpenAI respondeu ajustando suas ferramentas: ao invés de imagens fotográficas, agora são criadas como se fossem animações.
“Estamos degradando o valor probatório de uma imagem, mas ainda permitindo comentário social”, disse Josh Lawson, que é o chefe de risco cívico e estratégico da OpenAI. No entanto, em uma nova série de testes realizada em outubro, os pesquisadores do Brennan Center descobriram que a OpenAI foi a única empresa a reforçar os controles — os chatbots do Google, da Meta e de outras empresas apresentaram retrocessos, de acordo com uma análise mencionada pelo NYT.
A sabotagem oculta dos dados de treinamento
Possivelmente, o vetor de ataque mais elaborado reside na própria fonte. A VisionHeight, uma empresa de cibersegurança, localizou uma rede de 37 sites falsos de notícias locais, todos alimentados por IA e criados em um único dia por uma organização desconhecida, cujo código foi projetado para atrair os rastreadores que alimentam os chatbots. “Os sites não são escritos para os eleitores. Estão elaborados para os sistemas de IA que os eleitores consultam”, conforme o NYT, informa o relatório.
Mais de 1.100 organizações nocivas, conhecidas como “pink slime“, foram identificadas pela NewsGuard, que monitora o conteúdo online, e os chatbots as mencionam em quase metade das consultas. Em alguns casos, a Rússia conseguiu inserir sua propaganda estatal nos dados de treinamento dos modelos. A Alethea, que monitora operações de influência, descobriu que o Grok, da xAI, mencionou a InfoRos — que faz parte da inteligência militar da Rússia — ao ser questionado sobre as sanções europeias relacionadas ao gás russo.
“Quando você usa um chatbot, não espera ser enganado por um ator estrangeiro tentando manipulá-lo”, avisou Lisa Kaplan, fundadora da Alethea.
A mensagem para o Brasil
Para os executivos e formuladores de políticas brasileiros, o panorama americano é um grande teste. Em 2026, o país irá votar utilizando as mesmas ferramentas tecnológicas — e com agravantes adicionais: o WhatsApp, que é o principal meio de disseminação de desinformação eleitoral no Brasil, agora incorpora as funcionalidades de IA da Meta; o TSE atualizou as diretrizes sobre conteúdo gerado por inteligência artificial, mas a supervisão de chatbots e resumos algorítmicos de busca ainda é um campo regulatório incerto.
A discussão no Congresso sobre o marco legal da IA ainda não aborda de maneira sólida a integridade eleitoral. Quem comanda negócios de mídia, publicidade e tecnologia por aqui deveria encarar a experiência americana não como uma notícia estrangeira, mas como um plano. Nem que seja o “B”.