A convergência regulatória em torno dos ativos digitais entre dois países é possível? A pergunta é pertinente, pois dentro dos próprios países a discussão tem sido difícil. Mas algumas fronteiras foram quebradas recentemente e, nos lados da mesa, estavam duas potências: Estados Unidos e Reino Unido.
O debate foi o tema na 13ª reunião do Grupo de Trabalho de Regulação Financeira Reino Unido-EUA (FRWG), que aconteceu em pleno verão de Londres, no início de julho, entre representantes dos dois governos. Na pauta, a regulamentação das stablecoins, a estruturação de mercados de ativos digitais e a promoção da tokenização de ativos reais, dentro de uma cooperação que parece se fortalecer a cada encontro.
A declaração conjunta, que sintetizou os resultados da reunião, foi divulgada somente em agosto e não anunciou medidas políticas imediatas, mas deixou uma mensagem clara: Washington e Londres desejam liderar juntos a inovação nas finanças digitais. Do lado formal, os governos afirmam que isso será feito “sempre pautado pela responsabilidade e pela estabilidade do sistema financeiro global”, mas, na prática, o período de experimentação já se encerrou e, agora, as medidas prometem ser mais assertivas.
O que está em pauta
O encontro bilateral se concentrou em quatro áreas principais:
1. A regulamentação das stablecoins e a Lei GENIUS: As autoridades dos EUA compartilharam com os britânicos o progresso na implementação da Lei GENIUS (Guiding and Establishing National Innovation for US Stablecoins), que é a legislação mais significativa sobre 0 já aprovada nos Estados Unidos. A lei impõe normas rigorosas sobre reservas e supervisão ativa para emissores de stablecoins que são lastreadas em dólar. Para o Reino Unido, é estratégico monitorar de perto esse movimento: Londres não deseja ficar para trás em competitividade enquanto Nova York avança rapidamente.
2. Estruturação do mercado de ativos digitais: Os EUA também informaram os britânicos sobre os esforços em andamento para estruturar o mercado de ativos digitais doméstico — um ecossistema que, após anos de incerteza regulatória, está começando a se definir com mais clareza sob a gestão atual.
3. Tokenização e a Estratégia Digital do Reino Unido: Do lado britânico, a “Estratégia Digital para Mercados Financeiros Atacadistas” do Reino Unido deu destaque à questão da tokenização. A proposta tem o objetivo de atualizar a infraestrutura financeira do país, possibilitando que ativos tradicionais — como títulos, commodities e imóveis — sejam digitalmente representados em blockchains, o que pode reduzir custos, acelerar liquidações e aumentar o acesso a investimentos.
4. Na mesa também estavam os temas de modernização dos sistemas de pagamentos e o Roteiro de Pagamentos Transfronteiriços do G20. Aqui, o foco é mundial: fazer com que as transferências internacionais sejam mais rápidas, econômicas e claras — e as stablecoins surgem como uma das tecnologias mais promissoras para alcançar esse objetivo.
Banco da Inglaterra altera seu discurso
Vale notar que a postura do Reino Unido sobre stablecoins é uma novidade. O Banco da Inglaterra, que sempre foi mais cauteloso, começou a afrouxar algumas regras que antes eram vistas como muito severas. No mês de maio, a instituição declarou que está avaliando outras possibilidades além dos limites temporários de posse de stablecoins e levantou a questão sobre a exigência de que os emissores mantenham pelo menos 40% de seus ativos de reserva em depósitos sem juros no banco central, perguntando se isso não seria um obstáculo à inovação.
A alteração de tom não é por acaso. Segundo analistas do setor, Londres está em perigo de perder sua posição para os EUA no momento em que a Lei GENIUS estabelece um ambiente mais previsível para stablecoins lastreadas em dólar. Se o Reino Unido não adaptar sua postura, emissores e investidores poderão se mudar para jurisdições que oferecem mais receptividade.
A Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido (FCA) também se mostrou otimista. A agência começou a classificar os pagamentos transfronteiriços, no início de 2026, como um dos “casos de uso mais claros a curto prazo” para stablecoins — o que é um reconhecimento público de que a tecnologia já deixou o campo das promessas para entrar na fase de aplicação prática.
A Força-Tarefa Transatlântica
O entendimento entre os dois países vai além do FRWG. No dia 14 de julho, a Força-Tarefa Transatlântica para os Mercados do Futuro — uma iniciativa conjunta dedicada à inovação nos mercados financeiros e de capitais — divulgou suas recomendações iniciais sobre stablecoins, juntamente com uma declaração conjunta. O texto afirma que as iniciativas em andamento “lançarão as bases para a continuidade da liderança EUA-Reino Unido em ativos digitais e mercados de capitais”.
A comunicação é clara: ambos os governos veem na colaboração regulatória uma ferramenta para fortalecer seu poder geopolítico. Enquanto a China se prepara para lançar seu yuan digital e outras regiões, como Singapura, Hong Kong e os Emirados Árabes Unidos, competem para se estabelecer como centros de criptomoedas, o eixo entre Washington e Londres acredita que a melhor estratégia é coordenar esforços para preservar a dominação financeira do Ocidente.
O que isso representa para o mercado
O sinal é verde para investidores, emissores de stablecoins e projetos de tokenização. A harmonia entre as duas maiores economias do mundo diminui a incerteza legal, estabelece expectativas de interoperabilidade e pavimenta o caminho para produtos financeiros digitais que possam operar internacionalmente com uma segurança regulatória sólida.
Contudo, a prudência continua. O FRWG deixa claro que a inovação não será bem-vinda a não ser que seja “responsável” — ou seja, subordinada à estabilidade financeira e ao combate a riscos sistêmicos. Isso quer dizer que, embora as oportunidades estejam surgindo, elas não estarão totalmente desprotegidas.
O futuro dessa questão dependerá, portanto, de como cada nação conseguirá transformar as discussões em regulamentações efetivas. Nos Estados Unidos, a aplicação da Lei GENIUS servirá como um teste. A forma como o Banco da Inglaterra ajusta as regras e as diretrizes da FCA determinarão se Londres conseguirá recuperar o papel de protagonista que exerceu por décadas nos mercados financeiros globais.



