A partir da 0h do dia 22 de julho de 2026 (horário de Brasília), os Estados Unidos passaram a cobrar uma tarifa adicional de 25% sobre grande parte das importações brasileiras. A medida, confirmada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) na última quarta-feira (16), encerrou uma investigação de um ano sobre práticas comerciais do Brasil realizada sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O anúncio desencadeou imediata reação do governo brasileiro, que ameaçou retaliação por meio da Lei da Reciprocidade Econômica e do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Para as empresas nacionais, a pergunta que importa é: o que muda na prática? A resposta curta: cerca de 3.000 itens de exportação brasileira ficarão mais caros no mercado americano, representando um impacto estimado em US$7,4 bilhões em exportações — cerca de 18% do total enviado pelo Brasil aos EUA em 2024, segundo o ministro da Indústria, Márcio Elias Rosa. Os setores mais atingidos incluem açúcar, produtos siderúrgicos, máquinas agrícolas, vestuário, maquinaria elétrica, papel e produtos de madeira.
Decisão técnica, but not so much
Apesar de ser considerada técnica pelo governo norte-americano, o contexto por trás da decisão mistura comércio e política. O USTR listou seis áreas de supostas práticas desleais: comércio digital e serviços de pagamento (com destaque para o sistema Pix, acusado de favorecer o Banco Central como regulador e dono da plataforma), acordos tarifários preferenciais assinados pelo Brasil com México e Índia, desmatamento ilegal, acesso ao mercado de etanol, proteção de propriedade intelectual e combate à corrupção. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi além das questões comerciais e acusou o presidente Lula de “colocar seu próprio ego à frente de um acordo para o bem-estar do povo brasileiro”.
O governo brasileiro rebateu as acusações. Em nota oficial, o Palácio do Planalto negou as alegações de práticas desleais e apresentou números: 76% das importações dos EUA entraram no Brasil isentas de tarifas em 2025, e a tarifa média efetivamente aplicada aos produtos americanos foi de apenas 3,1%. O Brasil também ressaltou que os EUA mantêm superávit comercial com o país há anos — em 2025, as exportações americanas ao Brasil superaram as importações em quase US$ 42 bilhões, um dos maiores superávits bilaterais dos EUA no mundo.
A lista de isenções, no entanto, revela os limites da estratégia americana. Produtos como café, carne bovina, suco de laranja, petróleo e gás, partes aeronáuticas, ferro-gusa, café solúvel e mel orgânico ficaram de fora da tarifa. A razão é pragmática: os EUA dependem desses insumos ou não os produzem em escala doméstica. Como apontou o Peterson Institute for International Economics, cerca de dois terços das exportações brasileiras aos EUA escaparão das novas tarifas — uma evidência de que a alavancagem comercial americana sobre o Brasil é menor do que parece.
Impactos esperados
Para as empresas brasileiras, o impacto varia por setor. O açúcar, que já enfrentava tarifas e limites de acesso ao mercado americano, agora terá uma sobretaxa adicional de 25%. O etanol brasileiro, embora praticamente sem exportações para os EUA desde 2024, poderá enfrentar uma tarifa combinada de até 37,5% se outras ações da Seção 301 forem acumuladas. Já a indústria siderúrgica e de máquinas agrícolas, setores que já vinham sofrendo com tarifas anteriores de 25% a 50% desde 2025, agora têm mais uma camada de incerteza.
Mas o Brasil não deve ficar parado. O governo já sinalizou que poderá usar a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso em 2025, para impor tarifas retaliatórias e outras contramedidas. A lei permite suspender concessões comerciais, investimentos e até direitos de propriedade intelectual de países que impuserem medidas unilaterais contra interesses brasileiros. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as declarações de Rubio como “inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro” e acusou os EUA de pressionar o Brasil a conceder acesso exclusivo a setores de sua economia.
“O Brasil não aceita que nenhum outro país no mundo desrespeite o Brasil”, afirmou o presidente Lula em visita a uma unidade de saúde no Rio de Janeiro, na sexta-feira (18). Ele acrescentou, no entanto, que só se pronunciaria sobre o tema quando Trump falasse — sinal de que a porta para negociações ainda não está completamente fechada.
A questão ganha ainda mais relevância pelo calendário político. Com as eleições de outubro no radar, o tema já deve ser incorporado na agenda dos candidatos. E o consultor político Thomas Traumann avaliou que as tarifas podem acabar prejudicando o pré-candidato Flávio Bolsonaro: “Agora o empresariado brasileiro entende que ele será submisso a Trump.”
Contexto econômico
Do ponto de vista macroeconômico, a tensão comercial chega em um momento de certo otimismo. O FMI elevou em julho a projeção de crescimento do Brasil em 2026 de 1,9% para 2,4%, citando a resiliência da economia, o consumo privado robusto e a condição de exportador de petróleo. O mercado financeiro, por sua vez, mantém a projeção de PIB em 1,99% para 2026 e espera Selic em 14% ao ano, segundo o relatório Focus divulgado na segunda-feira (20). O dólar comercial fechou em R$ 5,07 na terça-feira (21), com leve queda de 0,32%.
O risco, no entanto, é que a escalada tarifária desestabilize o cenário. Se o Brasil efetivar retaliações significativas — especialmente em setores como farmacêutico, etanol americano ou propriedade intelectual —, a disputa pode se transformar em uma guerra comercial de fato, com efeitos sobre preços, emprego e investimentos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) já pediu cautela e defendeu o esgotamento de todos os canais diplomáticos antes de qualquer sanção comercial contra Washington.
Para empresários e investidores, a lição é clara: a diversificação de mercados de exportação deixou de ser um luxo estratégico e tornou-se uma necessidade de sobrevivência. Como observou o ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, as exportações brasileiras aos EUA já representam menos de 10% do total pela primeira vez em dois séculos. “O Brasil está se diversificando para outros destinos“, disse. O acordo de livre comércio entre Mercosul e Canadá, em negociação avançada, é um exemplo dessa reorientação.
A novela, no entanto, pode estar longe do fim. E com as tarifas entrando em vigor hoje e a promessa de retaliação brasileira no horizonte, o cenário exige monitoramento constante. E a pergunta que paira sobre Brasília e Washington é: quem piscará primeiro?



