O “day after”

Por Ricardo Mucci, jornalista, CEO da Umana Media House e Head da editoria Economia da Longevidade, da GZM.

Há anos me dedico à pauta da longevidade, e um padrão se repete diante dos meus olhos em praticamente todos os grupos de convivência que acompanho, dentro e fora da internet. As mulheres chegam aos 60 mais ativas e motivadas do que os homens. Elas seguem em movimento. Muitos deles, ao contrário, estacionam. A diferença fica mais nítida num momento específico, aquele que eu chamo de “day after”, o dia seguinte à aposentadoria, quando se abre pela frente não um ponto final, mas um novo ciclo que pode durar 20, 30 anos ou mais.

O problema é que boa parte dos homens não se prepara para esse ciclo. Durante décadas, eles concentraram identidade e vida social no trabalho. O crachá ganha vida. Quando o trabalho termina, perdem de uma só vez a principal fonte de propósito e a rede de relacionamento. Não é uma impressão minha. A pesquisa sobre identidade e aposentadoria, como a publicada na revista Ageing & Society, mostra que os papéis tradicionais de gênero acomodam pior a saída do trabalho para os homens do que para as mulheres. Há ainda um detalhe revelador sobre as amizades. As masculinas costumam ser “lado a lado”, organizadas em torno de uma atividade comum, o trabalho, o esporte, uma tarefa, e não “frente a frente”, com troca emocional. Quando a atividade central desaparece, os vínculos se dissolvem.

Os números acompanham o diagnóstico. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos estimam que cerca de um quarto dos adultos acima de 65 anos vive em isolamento social, e estudos que acompanham trabalhadores na transição para a aposentadoria observam a perda de laços próximos, com os homens casados entre os mais afetados, justamente porque muitos tinham a esposa como âncora afetiva.

As mulheres chegam a essa fase de outro jeito. Habituadas a conciliar trabalho, casa, filhos e cuidado, elas carregam uma identidade mais distribuída e redes de relação que não desabam quando o emprego acaba. Reconectam-se com mais naturalidade, se reinventam e pedem ajuda sem pudor. 

Faço aqui uma ressalva, porque o tema exige. Trata-se de uma tendência, não de uma regra fixa. Reflete papéis de gênero que podem se dissolver nas próximas gerações, e mulheres com carreira intensa também relatam perda de identidade profissional ao se aposentar. Mais importante: a melhor adaptação social delas não significa uma velhice mais fácil. Elas vivem mais, porém com piores condições de saúde e, muitas vezes, solitárias.

Reinvenção ou reorientação?

Foi um artigo da revista Psyche que me ajudou a repensar o que está em jogo. A psicóloga Denise Taylor, autora de dez livros, entre eles ThriveSpan: Walking Gently Into What Matters Now (2026), argumenta contra a ordem da moda de “reinventar-se aos 60”. Para muita gente, diz ela, essa pressão só aumenta a sensação de fracasso. A proposta dela é outra, e mais sábia: reorientação, não reinvenção. O apoio vem da psicologia do curso de vida.

A teoria da seletividade socioemocional, da pesquisadora Laura Carstensen, mostra que, quando percebemos o tempo como finito, deixamos de buscar novidade por novidade e passamos a priorizar o que tem significado, profundidade emocional e boas relações. E Erik Erikson, em The Life Cycle Completed (1982), já dizia que a tarefa da maturidade não é descartar o que fomos para começar do zero, mas integrar a experiência acumulada em um sentido de si mais coerente.

É aqui que o recorte de gênero ganha força. A vida mais distribuída das mulheres já está perto dessa reorientação. O homem que apostou unicamente na identidade profissional tem mais a integrar, e costuma partir de uma base afetiva menor. Não se trata de um defeito de caráter, e sim de um exercício que ele nunca fez.

A boa notícia é que dá para preparar melhor essa virada com um treino que Denise Taylor propõe. Diante de cada compromisso da agenda, faça duas perguntas honestas: isto ainda me faz sentido, e, se eu fosse escolher hoje, escolheria de novo? Mantenha por uma semana um pequeno diário de esforço, anotando o que te energiza e o que te cansa demais. Mapeie o que você sabe, o que valoriza e o tipo de contribuição que sempre lhe deu sentido, e dê prioridade ao ponto onde essas três coisas se encontram.

Por fim, troque a pergunta. Em vez de “o que vou deixar”, pergunte “o que já carrego que vale a pena retransmitir”. Orientar alguém, compartilhar experiências, oferecer presença constante, tudo isso tem valor real, ainda que seja menos visível do que as antigas conquistas profissionais. Para os homens que amarraram a autoestima ao sucesso visível, entender e aceitar a importância dessa troca é decisiva.

O Brasil torna o debate urgente. Os dados do IBGE mostram um país que envelhece e, ao envelhecer, fica mais feminino. As mulheres já são cerca de 56% da população acima dos 60 anos e vivem, em média, quase sete anos mais que os homens, 79,7 contra 73,1 anos. É o que os demógrafos chamam de feminização do envelhecimento. O outro lado dessa moeda também precisa ser dito: essa vida mais longa vem com mais doenças crônicas e um número crescente de idosas morando sozinhas.

Temos pela frente uma dupla missão. De um lado, ajudar os homens a construir um próximo ciclo com propósito e vínculos, de preferência antes do “day after”. De outro, dar à longevidade das mulheres as condições concretas que elas merecem. Depois de tantos anos dedicado a esse assunto, insisto num ponto: o próximo ciclo não aceita improviso. A melhor estratégia é prevenir, não remediar. No fim, a pergunta que importa não é apenas o que você foi, mas o que ainda têm a oferecer para a sociedade.

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