A Endeavor divulgou os resultados do estudo “Do Brasil para o Mundo: Internacionalização de Scale-Ups Brasileiras”, que analisa como empresas de alto crescimento estruturam sua expansão internacional. O levantamento, apresentado durante o South Summit, reúne dados de 101 scale-ups e entrevistas com empreendedores, investidores e especialistas.
A pesquisa mostra que 71% dos empreendedores brasileiros já iniciaram ou estão se preparando para expandir suas operações para outros países. Entre empresas fundadas entre 2020 e 2024, 48% afirmam ter planos de internacionalização no curto ou médio prazo.
Um dos pontos centrais do estudo é o papel do Brasil como base de crescimento. Ao analisar 50 unicórnios latino-americanos, a Endeavor identificou que 60% dos unicórnios brasileiros atingiram valor de mercado de US$ 1 bilhão com foco predominantemente doméstico. Fora do Brasil, apenas 16% seguiram essa trajetória.
O dado reforça a capacidade do mercado brasileiro de sustentar crescimento relevante sem necessidade imediata de internacionalização. Ao mesmo tempo, apenas 17% dos fundadores apontam a saturação do mercado local como principal motivo para expandir, indicando que a internacionalização tende a ser uma escolha estratégica, e não uma imposição de mercado.
A pesquisa também mostra que a percepção de risco competitivo ainda é limitada: somente 6% dos fundadores afirmam temer a entrada de competidores estrangeiros no Brasil.
Estratégias de entrada das scale-ups e escolha de mercados
O estudo indica que a expansão internacional não ocorre necessariamente com presença física inicial. Embora 51% dos empreendedores mencionem a abertura de escritórios como parte da estratégia, 43% optam por iniciar com vendas internacionais, testando a aderência do produto antes de investir em estrutura local.
A trajetória da Pipefy exemplifica esse modelo. A empresa alcançou clientes em mais de 150 países com operações concentradas no Brasil e iniciou sua expansão de forma digital, estruturando presença local apenas em mercados mais complexos.
Outro caminho identificado é o crescimento por aquisições. A Nelogica ampliou sua atuação internacional por meio de M&A, incorporando centenas de milhares de usuários e estruturando equipes distribuídas globalmente.
Em relação aos destinos, os Estados Unidos lideram: 63% das empresas que já expandiram escolheram o país, que também está nos planos de 45% das que ainda estão em fase de planejamento. A América Latina aparece como alternativa relevante, citada por 60% dos empreendedores, principalmente pela proximidade geográfica e cultural.
A expansão do EBANX ilustra esse movimento regional, com entrada inicial em países como México, Colômbia, Peru e Chile antes de avançar para mercados como Estados Unidos, China e Europa.
Papel dos fundadores e redes de apoio
O levantamento destaca que a internacionalização exige envolvimento direto da liderança. Entre os entrevistados, 44% se mudaram ou planejam se mudar para o novo mercado, enquanto 46% contrataram executivos locais para liderar as operações.
O caso da VTEX é citado como exemplo de expansão liderada pelos fundadores, que abriram o primeiro escritório internacional e validaram o modelo antes de escalar a operação para mais de 40 países.
Além disso, 68% dos empreendedores afirmam ter contado com apoio externo no processo de internacionalização. Investidores (42%), mentores e outros empreendedores aparecem como agentes relevantes na tomada de decisão e na construção de redes locais.
Os dados apresentados pela Endeavor reforçam uma característica estrutural do ecossistema brasileiro: a capacidade de crescimento no mercado interno. Esse fator, embora positivo do ponto de vista de escala, pode contribuir para um atraso relativo na internacionalização quando comparado a outros países da América Latina, onde a expansão externa ocorre mais cedo por necessidade.
A baixa percepção de risco competitivo — evidenciada pelos 6% que temem concorrentes estrangeiros — sugere uma possível subestimação da dinâmica global de tecnologia e capital. Em um cenário de maior integração entre mercados, essa visão pode limitar a preparação das empresas brasileiras para competir em nível internacional.
Outro ponto relevante é a concentração geográfica das estratégias. A preferência pelos Estados Unidos indica busca por mercados maiores e mais maduros, mas também expõe empresas a ambientes altamente competitivos e regulatórios mais complexos. Ao mesmo tempo, a América Latina surge como um caminho intermediário, mas ainda com desafios de fragmentação e escala.
A predominância de modelos híbridos, começando por vendas internacionais antes de presença física, indica maior racionalidade no uso de capital, especialmente em um contexto de restrição de investimentos. No entanto, essa abordagem pode limitar a profundidade da inserção local em mercados mais exigentes.
Por fim, o estudo aponta um avanço na maturidade do ecossistema brasileiro, com maior intencionalidade nas decisões de expansão. Ainda assim, os dados sugerem que a internacionalização permanece mais como uma opção estratégica do que como uma prioridade estrutural para grande parte das scale-ups.
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