* Por Sérgio Roque

Segunda feira. Como sempre o despertador do celular tocou e acordei às seis e trinta da manhã para trabalhar. Levantei e escovei os dentes olhando pela janela o dia que começava já claro. Minha janela do banheiro dá de frente para a rua e pude ver carros indo e vindo apressados num sentido e no outro.  Ainda pensei- quanta pressa- mas eu também não podia me atrasar. Geralmente tomo banho de manhã e à noite. Neste verão de suar dentro da geladeira era impossível eu não tomar dois banhos por dia. Então como sempre fui tomar meu banho já pensando no dia que teria pela frente.

Deixei cair a água morna, quase fria, da cabeça até os pés e depois ensaboei o corpo todo e por fim coloquei shampoo na cabeça e lavei os poucos cabelos que me restam.

Porém, depois de colocar a cabeça debaixo da água e enxaguar para tirar o shampoo, ao abrir os olhos, estranhei a escuridão lá fora.

Sentindo que algo aconteceu, ainda sem entender, peguei a toalha e enxuguei-me depressa, me enrolei nela e saí do banheiro úmido. 

Dei de cara com minha mulher já me dizendo – Que bom que terminou, põe uma roupa rápido e vem jantar que as crianças estão esperando.

Eu abri a boca e balbuciei algo sem sentido e fui me vestir. Caramba o que aconteceu? Não conseguia ordenar meus pensamentos. Será que eu bati a cabeça em algum lugar? Não me lembro de ter ido trabalhar. Aliás, não me lembro de nada.

Não querendo passar por louco não falei nada no jantar que passou normalmente e quando meu filho, que geralmente queria saber como tinha sido meu dia, me perguntou, lhe falei que tinha sido normal e corrido como sempre. Ainda brinquei dizendo que foi tão rápido que nem percebi passar.

Depois assistimos uma série na Netflix, li um pouco na cama e fui dormir. Amanhã, terça feira lembrei-me que tinha que me preparar para uma reunião importante com clientes de fora que precisava ser perfeita para fecharmos contratos que garantiriam o futuro da empresa em que trabalho, impediria demissões e colocaria muito dinheiro nos bolsos dos acionistas e, pensando bem, uma boa quantia nos meus também. 

Acordei às seis e meia e iniciei minha rotina. Quando enxaguei meus cabelos no banho e abri meus olhos não pude acreditar no que via. Lá fora estava escuro. Nem me enxuguei e sai enrolado na toalha. Minha esposa no quarto olhou espantada e disse- Nossa você saiu assim do banho? Está molhando o quarto todo. Mas se enxuga e se veste logo que estamos atrasados para a reunião da escola da Julia.

Jesus, José, Maria e o burrinho, eu estava ficando louco mesmo. Que “catso” (como meu pai sempre falava quando nervoso) está acontecendo comigo?

Não prestei atenção em uma palavra da reunião sobre o ano letivo que minha filha teria pela frente. Voltei como um zumbi e jantei como um zumbi. Todos me olhavam estranho. Meu filho João, como sempre, perguntou como foi o meu dia e nem sei ao certo o que respondi.

Fui para a sala. Em cima da mesa meu celular estava tocando. Meu chefe. Atendi fazendo um esforço supremo para parecer normal, mas ele já foi direto ao ponto- E aí como foi hoje Fernando? Tudo certo para a reunião de amanhã? Amanhã à noite levo eles todos para jantar e espero que assinem todos os contratos.

Caraca! A reunião. Não me lembrava de nada. Tive que aumentar ainda mais meu esforço para não gritar de desespero. Respirei fundo e disse na maior cara de pau- Claro chefe, tudo preparado nos mínimos detalhes, como sempre faço. Vamos dar um show amanhã.

Depois de me falar umas bobagens que nem prestei atenção ele me deu um até amanhã claramente mais aliviado com a minha resposta.

Nem assisti nada. Não li nada. Fui dormir direto. Quase sem energia apaguei em minutos. Quando acordei a primeira coisa que pensei foi: É isso. Não vou tomar banho hoje. 

Vou dar uma enganada com água da pia, passar um perfume e vou sair. Coloquei a roupa. Antes de sair do quarto ainda olhei Marina, minha mulher, dormindo como um bebê.

Abri a porta e saí do quarto e dei de cara com ela. Gritei. Puta susto! Ela também se assustou e depois disse- Caramba Fernando que coisa é essa? Você está muito estranho homem. Vai tomar seu banho que parece que alguém hoje foi trabalhar sujo e voltou mais ainda. Trabalhei o dia todo e estou cansada e faminta, mas quero todos juntos na mesa. Então vai rápido.

Tomei banho como um zumbi. Jantei como um walking dead. Desmoronei no sofá da sala como um vampiro no sol. Depois de um tempo Marina me acordou e fomos para a cama.

Botei meu celular- alarme do meu lado no criado-mudo. Ligação. Meu chefe. Puts a reunião. Não lembro de joça nenhuma. O que respondo para este desgraçado? Não atendi. Ele ligou mais dez vezes.  Marina me olhou espantada- Não vai atender o Cássio? Seu chefe? – me disse com certo jeito. Respondi que isso não era hora de ligar.

Porém não tive opção. Na vigésima ligação respirei fundo e atendi esperando o pior. Direto e reto foi logo me chamando a atenção – Nossa Fernando já te liguei cem vezes cara. Combinamos que te ligaria assim que saísse do jantar.

Nossa Senhora de Guadalupe! O Jantar. Os contratos. A apresentação. Não me lembro de nada Jesus. Já estava começando a orar por todos os santos húngaros quando escutei do outro lado meu chefe dizer- Cara que apresentação. Você foi demais Fernando. Assinaram tudo rindo. Não precisei nem estender a noite para convencer eles. Amanhã lhe darei um abraço pessoalmente na reunião da diretoria.

E desligou. Ai não conseguia dormir. Estava emocionado. Orgulhoso de mim mesmo. Eu fui demais hoje, eu fui o maior, o melhor. Só não tinha uma puta ideia do que tinha acontecido.

É isso. Não vou dormir esta noite. Levantei e fiz uma garrafa térmica cheia de café e me preparei para passar a noite em claro. Comecei assistindo um bom filme. O segundo filme já assisti meio pescando peixe grande no mar. Fechava os olhos e acordava assustado. Não podia dormir. Banho gelado. Isso. Depois mais café. Amanhã vou ser homenageado pelo presidente da empresa pessoalmente e ele nunca faz isso com ninguém.

Sai do banho algo estava estranho novamente. O dia estava claro. Não deu tempo de ficar pensando sobre o assunto porque a Marina sai do quarto, toda arrumada e maquiada.

– Caramba, alguém vai trabalhar hoje toda arrumada. Algum encontro especial? – E dei uma risada que confesso parecia meio louco.

– Fernando, se você continuar assim eu te interno num hospital psiquiátrico. Você me liga super excitado e feliz, me faz sair mais cedo do trabalho porque você foi promovido e dispensado para comemorar com sua família o fechamento dos contratos. E agora sou obrigada a ouvir esta piada ridícula.

Decidi aproveitar o jantar. Na verdade me conformei com a ideia de que não lembraria mais do meu dia a dia. Eu não podia continuar a não lembrar do dia e a noite ficar como um zumbi. Tomei meia garrafa de vinho, afinal eu tinha sucesso, era diretor, ganharia mais e seria importante.

Que se dane que eu não lembro nada do que faço. Eu nem mesmo gosto muito do que faço. Aliás o que eu faço é horrível de chato e ainda tenho que ficar chicoteando meus funcionários para executar o que a empresa precisa para ter mais lucro.

Fui para casa. Minha mulher queria algo mais, mas confesso que eu estava pregado e o vinho não ajudou nem um pouco na questão. Então pensei que amanhã era sexta feira, então depois do banho já seria de noite. Seria final de semana. Descanso merecido. Jogar futebol. Ficar com os filhos. Cinema? Quem sabe um showzinho para melhorar a vida.

Desmaiei na cama. Acordei. Era Segunda Feira novamente.

Do autor para refletir:

Por que o executivo passou por aquilo? Qual seria a conclusão?”

Um conto serve para que as pessoas imaginem os possíveis futuros. O que fariam se acontecessem com elas. E principalmente os porquês do fato em relação direta à experiência de vida delas. 

O filósofo brasileiro Clóvis de Barros Filho diz em suas palestras que o sujeito acorda segunda e vai trabalhar não vendo a hora de chegar o fim do dia e todo dia não vê a hora de chegar sexta.  E depois espera ansioso pelos eventos do fim de semana que passa voando. E trabalha somente pensando em quando o feriado, o carnaval, as férias e as festas de fim de ano irão chegar.  E por isso o tempo passa rápido sem que ele aproveite essas horas para evoluir. Clóvis fala isso porque acredita que é possível ter um trabalho que se ama e se coloque todo seu potencial nele no seu dia a dia.

Concordo com ele em parte. É possível procurar um trabalho que se ame. Porém hoje em dia há um culto ao trabalho por amor. Todos os palestrantes motivacionais falam isso todo dia. Isso não pode ser uma lei, caso contrário teríamos que admitir que, quem cuida do lixo, dos esgotos ou trabalha na construção pesada escolheu este tipo de trabalho por que amava.

O que acredito junto com o Clóvis é que podemos colocar todo nosso potencial no nosso trabalho. E mais ainda, que podemos colocar amor no nosso trabalho.

Quem mede seu trabalho por intensidade e profundidade e não por tempo e dinheiro tem uma grande chance de que cada dia o tempo passe mais devagar e que ele seja um agente transformador de vidas.

Isso eu acredito que é possível para qualquer um em qualquer trabalho.


Sergio Eduardo Roque é coach executivo e de vida com foco em processos de autoconhecimento na SerOQue Desenvolvendo Pessoas. Com formação em engenharia (FAAP) e marketing (ESPM) atua há mais de 25 anos no mercado como executivo e empreendedor.