* Por Elber Mazaro

Recentemente, escrevi um artigo sobre a relação simbiótica da tecnologia com o mundo dos negócios, onde dei grande ênfase ao contexto e uma perspectiva própria, ou seja, um ponto vista sobre o momento atual, com destaque para oportunidades e desafios.

Este artigo busca detalhar um pouco mais a visão de como a tecnologia evoluiu nas últimas décadas e com isso é possível criar uma visão de como ela pode continuar a impactar o mundo.

A ideia principal é expor um conceito sobre as áreas de tecnologia que evoluem continuamente, com um ritmo quase contínuo e assim criam o tal do crescimento exponencial, tão falado na atualidade dos negócios.

Em princípio, todo projeto que envolva tecnologia, e hoje em dia é difícil encontrar algo no mundo dos negócios que não considere ou use a tecnologia, precisa estar atento e estimar ou dimensionar esses principais elementos de evolução.

Eu já falei um pouco sobre essas demandas contínuas da tecnologia em um artigo que escrevi sobre as tendências de marketing digital, pois, como mencionei, a tecnologia é um elemento-chave em todos os segmentos de negócios, e o marketing digital é justamente uma das principais aplicações, que mais se aproveita dela para promover e realizar atividades aos clientes das organizações. 

Sempre que abordo a evolução da tecnologia, gosto de refletir com base no que chamo de três demandas contínuas da era da informação, mas destaco uma quarta, de maneira diferenciada (3+1), pois ela acaba sendo uma consequência necessária do crescimento das três primeiras/principais.

O que chamo de três demandas contínuas são áreas básicas para que tenhamos o processamento de dados, e este o motor da geração do ativo, que muitos chamam de o mais valioso da sociedade nos dias de hoje: a informação. 

A inteligência, o conhecimento e os insights em geral, para o mundo dos negócios, são derivados das informações, resultado do processamento de dados, ou seja, coletamos cada vez mais dados e, através da combinação e do tratamento destes, surge algo útil, com algum significado, e isso nós chamamos de informação.

Temos cada vez mais pessoas e coisas conectadas à internet e caminhamos para a tal da revolução 4.0. Portanto, temos sensores e sistemas capturando mais e mais dados, os quais são devidamente tratados com alguma lógica, para serem transformados em algo de valor.

O crescimento na captura de dados é exponencial, através de dezenas de bilhões de dispositivos conectados a múltiplas redes, que seguem a tão falada Lei de Moore (Gordon Moore, um dos fundadores da Intel).

Gordon Moore participou da criação do microchip e já entendia que seria possível colocar cada vez mais transistores em uma pastilha de silício. Esses transistores aumentariam em quantidade conforme fosse possível diminuir seu tamanho, o que chamamos hoje de nanotecnologia, porque a medida dos transistores e outros componentes está em nanômetros.

Os transistores são basicamente chavinhas que permitem ou não a passagem de corrente elétrica, ou seja, quando passa corrente é 1 e quando não passa seu status é 0, e assim temos um sistema binário, que é a base do mundo digital.

Com mais transistores nos chips, praticamente dobrando a sua quantidade a cada 18 ou 24 meses, foi possível prever que a performance/desempenho dos chips e dos produtos que utilizam essa tecnologia também dobraria e assim teríamos um crescimento exponencial.

Portanto, a lei de Moore, criada em 1965, foi uma previsão sobre avanços relacionados à Física, que, de maneira simplificada e dedutiva, apontou que seria possível dobrar a performance de produtos baseados nos chips a cada 18 ou 24 meses.

Essa lei ou regra da tecnologia, simplificada, se mantém válida até hoje, ou seja, testemunhamos este crescimento exponencial na capacidade dos chips há mais de 55 anos, principalmente nos processadores, os quais só foram surgir a partir do início dos anos 70.

O aumento de performance ou desempenho dos chips não é mais só creditado à capacidade de se colocar mais transistores, pois existem outros fatores, como o paralelismo, a arquitetura (hoje os transistores são “3D”, com engenhosos sistemas de gates…), os materiais, etc., que influenciam na velocidade dos produtos de tecnologia.

Eu falo produtos de tecnologia, porque a lei de Moore expandiu a sua aplicação, saindo dos chips e processadores para os computadores, e desses para os sistemas ou redes de computadores e desses para as empresas e negócios, que se apropriam da tecnologia. Então já podemos dizer que negócios com crescimento exponencial, na verdade, seguem a lei de Moore, e que o crescimento de startups também pode ter esse ritmo.

Voltando ao básico, a que se propõe este artigo, vamos falar das três demandas contínuas da era da informação, essenciais para qualquer projeto de tecnologia e, cada vez mais, de negócios e do empreendedorismo:

1- Poder de Processamento: os processadores são os principais responsáveis pela transformação dos dados em informação, executando alguma lógica, tarefa, algoritmo… Dizemos que os dados são o input do sistema e são processados de acordo com um programa (tá na moda chamar de código), para a geração de informações, como output.

Os processadores são, como muitos gostam de chamar, o cérebro dos sistemas computacionais, que atualmente estão em datacenters (fazendas de servidores) ou nos bolsos das pessoas (nos seus celulares/smartphones), ou nos veículos, ou nos eletrodomésticos e cada vez mais em qualquer lugar, principalmente com o advento da Internet das Coisas, pela qual se pode colocar sensores e capacidade computacional, incluindo processadores, em qualquer coisa…

Hoje, existem muitas variáveis no desenvolvimento dos processadores, além da quantidade de transistores, como o consumo de energia que impacta a duração da bateria, a própria arquitetura (o desenho interno do processador), a miniaturização (nanotecnologia), a quantidade de núcleos, ou a especialização de funções (gráficos), etc…

A grande discussão e evolução em pesquisa é a computação quântica, que basicamente vai mudar toda a lógica apresentada até aqui e criar condições para um salto muito maior na capacidade de processamento, mas isso é assunto para outro artigo/dia.

2- Capacidade de Armazenamento: as memórias e discos precisam evoluir no mesmo ritmo da capacidade de processamento, para ser possível o armazenamento das informações e dos dados.

Quanto mais dados são coletados e processados, mais capacidade de armazenamento é necessária para guardarmos e podermos recuperar essas informações quando necessitarmos e com a maior velocidade possível.

Hoje estamos falando em chips de memória e SSDs (Solid State Disks) ou HDs que viabilizam soluções como Big Data e, portanto, evoluem seguindo a mesma lei de Moore.

Costumo usar o exemplo de pendrives, que já estão desaparecendo com o tal armazenamento na nuvem. Menciono que normalmente há um produto de memória mais popular, por exemplo o pendrive de 64 GB, que muitos usam e sabem quanto custa. Portanto, se aplicarmos a lei de Moore e esse conceito das demandas contínuas, em no máximo dois anos devemos ter como padrão o pendrive de 128 GB, com o mesmo preço do de 64GB hoje. Pode-se extrapolar essa lógica para discos de computadores com a mesma tecnologia e até armazenamento na nuvem.

3- Conectividade: se hoje processamos e armazenamos os dados e informações, também precisamos transmitir essas informações para o local onde agreguem valor, normalmente para os usuários, e, portanto, a tecnologia de redes, de conectividade, deve evoluir no mesmo ritmo.

Vemos o 5G chegando às redes de celulares, ao redor do mundo, e provavelmente teremos um 6G e um 7G. Também acompanhamos o aumento da banda larga, física, com fibra óptica e novas formas e padrões de conexão sem fio, em WiFi, Bluetooth…

São necessárias conexões cada vez mais rápidas e com a mesma lógica de preço já apresentada para as demais demandas.

A regra de dobrar a performance a cada dois anos também se aplica à conectividade, mas, devido ao custo de investimento em infraestrutura, principalmente em longas distâncias, nós observamos saltos bem maiores do que o dobro, em prazos também maiores do que a cada dois anos, mas no longo prazo a razão do crescimento da velocidade/desempenho acaba sendo muito semelhante ao padrão da lei de Moore.

4- Segurança: esta é a demanda contínua marcada como mais uma (+1) e não junto com as outras três. Isso porque ela evolui em consequência das demais.

Como já mencionei, temos o ativo informação sendo cada vez mais valioso para pessoas e organizações, envolvendo muitos negócios.

Também observamos que cresce a sua “produção” no ritmo de dobrar a cada dois anos, conforme as outras demandas oferecem mais capacidade de processamento, armazenamento e conexão/transmissão.

Então, as ameaças (malwares, hackers, vírus…) que viabilizam o roubo, e o uso inadequado de informações, inclusive muitas delas confidências, também aumentam rapidamente em função dos interesses e valores envolvidos.

Há uma demanda crescente de todos os “stakeholders”, para sistemas de segurança e proteção, desenvolvidos para acompanharem esta dinâmica e combaterem as ameaças.

Podemos observar essa demanda contínua, derivada da evolução das outras, na adoção de chaves de criptografia cada vez mais sofisticadas e complexas, por exemplo, indo de 64 para 128 bits, como padrão. Também vemos outras soluções associadas a segurança, como produtos para preservar a privacidade, sistemas antivírus, firewalls, uso de diversas formas de biometria, dentro dessa demanda contínua (+1). 

Curiosamente estas soluções de segurança dependem da evolução das outras 3 demandas para serem viáveis, ou seja, maior capacidade de processamento, de armazenamento e de velocidade de conexão para usos de sistemas de proteção e segurança mais complexos.

Assim, vemos um futuro muito mais evolutivo, do ponto de vista da relação de negócios e tecnologia na sociedade, suportado por verdadeiras revoluções tecnológicas, no ambiente digital, eletrônico e conectado, representado, na maioria das vezes, pela internet e pela revolução 4.0.

Devemos ficar atentos para sabermos aproveitar o entendimento das demandas contínuas de tecnologia e identificarmos oportunidades e desafios e prepararmos os negócios e o ambiente para o contexto da lei de Moore, incluindo legislações e regulamentações, mas também modelos de incentivo ao desenvolvimento do ecossistema de inovação.

Temos as bases para saber um pouco do que vem pela frente e o mínimo de tecnologia que deve ser considerado em qualquer projeto ou negócio.

A partir de agora, usando a referência da lei de Moore como base para o crescimento exponencial real, podemos perguntar sobre qual a capacidade de processamento necessária para a demanda de informações prevista para os próximos dois anos; podemos planejar onde os dados e as informações serão armazenados  e como será feito o backup; como os dados serão transferidos, qual a quantidade e a velocidade das conexões, sem nos esquecer dos procedimentos e das ferramentas de segurança e privacidade em todo o sistema, mesmo que seja apenas para colocarmos um site novo no ar, ou uma nova campanha de marketing digital, ou o lançamento do e-commerce  da empresa.

Fique ligado e mãos à obra!


Elber Mazaro é assessor/consultor, mentor e professor em Estratégia, Tecnologia, Marketing, Carreiras/Liderança e Inovação/Empreendedorismo. Atua há mais de 25 anos no mercado, liderando negócios no Brasil e na América Latina. Possui mestrado em Empreendedorismo pela FEA-USP, pós-graduação em Marketing e bacharelado em Ciências da Computação.