* Por Carolina Morandini

Se você está em uma situação parecida com a minha, provavelmente está há semanas trabalhando de casa. Ainda que o home office não fosse exatamente uma novidade para algumas áreas como a de inovação, toda a equipe trabalhando 100% de casa foi uma disrupção que nos tirou das nossas zonas de conforto.

Assim como os profissionais precisaram improvisar para criar um mini escritório nos seus lares, as empresas também se desdobraram para prover um mínimo de infraestrutura para seus colaboradores. Gerir à distância foi outro desafio que surgiu nesse período: como manter a equipe motivada, se até o happy hour precisa ser virtual? Como essas mudanças precisaram ser implementadas na pressa, tudo aconteceu um pouco no atropelo. No entanto, quem tinha uma mentalidade ou uma forma de lidar mais flexível sofreu menos, porque compreendeu a emergência da necessidade, focando em fazer o melhor possível para se adaptar.

“Novos normais”

A transição emergencial para o home office por conta da pandemia de covid-19 é apenas um exemplo prático de uma mudança que afetou muita gente ao mesmo tempo. A verdade é que os processos que virão na esteira das nossas quarentenas ainda vão alterar bastante a forma como interagimos socialmente e irão acelerar a transformação digital de muitos setores.

Por atuar com startups há quase 10 anos, tendo a mirar sempre um horizonte longo, e diante do que tenho visto, acredito que passaremos a ter novas visões sobre a necessidade de presença física para trabalhar, novos entendimentos sobre fronteiras geográficas e a necessidade de viajar, assim como teremos novas regras de etiqueta e higiene para interagir em sociedade. As máscaras que nos acostumamos a usar nas últimas semanas poderão eventualmente continuar existindo e ausentar-se do escritório quando uma pessoa que se sinta doente passe a usá-la e seja vista com bons olhos, como um sinal de cuidado com o coletivo, atitude que acontece em culturas orientais há muito tempo.

O pós-pandemia implicará também em novos planejamentos de negócios. Diversos setores precisarão rever planos e perspectivas, se adequando ao “novo normal” que vai aos poucos surgir. O setor imobiliário, por exemplo, poderá ter que repensar a experiência oferecida em espaços corporativos. Será que as pessoas vão querer voltar a se reunir em estações de trabalho próximas umas das outras, ou vão preferir usar os escritórios como espaços coletivos para reuniões, encontros e brainstormings?

A indústria automobilística é outra que talvez já esteja buscando novos valores e propósitos, especialmente se modos de trabalho mais distribuídos e remotos se instituírem. Afinal, se não gastarmos tantas horas em viagens de ida e volta ao trabalho, será que vamos querer ter carros? Nem mesmo a arquitetura residencial está imune: além de serem espaços privados e aconchegantes, os lares também vão demandar cômodos mais profissionais e neutros, que possam “aparecer de fundo” em videoconferências remotas. Até os decoradores precisarão se adaptar.

Novas oportunidades

Quando uma crise se instala, raramente há como fugir dela. O que nos resta é olhar nos olhos do furacão de forma pragmática e buscar soluções e saídas. Aqui na Wayra, decidimos que seria valioso criar um momento de descontração com a equipe, que está trabalhando de casa. Por isso, nas manhãs de terça a sexta nos reunimos em uma videoconferência só para bater papo e tomar um café juntos. Muitas das nossas startups também têm apostado em integrações remotas semelhantes. Na SocialMiner, por exemplo, foi criado o Health Time Talks, que traz convidados externos para falar sobre cuidados com a saúde física e mental. Como me contou o Ricardo Rodrigues, CEO da SocialMiner, o objetivo é evitar o desgaste emocional dos colaboradores, mantendo o entusiasmo e a alegria que são característicos do time.

Resolvidas as emergências, como a necessidade de manter os times motivados e unidos, é importante olhar com calma para o cenário, porque ele também pode ser fonte de grandes oportunidades. Como bem disse o relatório da Mary Meeker, a covid-19 transformou as nossas vidas de formas que estamos apenas começando a entender. Com isso em mente, tenho percebido que alguns negócios têm na pressão pelo distanciamento social e no aumento do trabalho remoto uma interessante chance de se provarem valiosos.

O setor de saúde é um deles. Se as healthtechs um dia tiveram dificuldade em explicar as vantagens ou a importância de opções como a telepresença médica (como a feita pela Pluginbot), as teleconsultas (como as que são realizadas na bem.care) ou a automação hospitalar (como a feita pela Carenet), a pandemia escancarou os benefícios de uma medicina mais digital. A expectativa é que o caminho fique mais fácil também para outras soluções digitais na área da saúde, como wearables para o monitoramento remoto de pacientes, por exemplo.

Sem poder sair de casa para fazer compras, os consumidores também deram um novo fôlego para o e-commerce. Segundo dados da McKinsey, 40% dos brasileiros estão fazendo mais compras online durante a covid-19, apesar de muitos estarem sofrendo com a necessidade de corte de gastos. Por enquanto, a expectativa de uma significativa parte dos consumidores no Brasil (35%) é de diminuir as idas às lojas físicas, com 40% dos entrevistados indicando que pretendem fazer mais compras online depois do fim da quarentena.

Novas oportunidades também devem chegar para negócios relacionados ao futuro do trabalho, como serviços de telepresença, videoconferência, gestão digital, armazenamento em nuvem e automação de processos. Ao se descobrirem eficientes também em regimes de trabalho remoto e distribuído, muitas companhias deverão passar a contratar profissionais de qualquer lugar do país ou do mundo, tornando esses serviços cruciais para os negócios.

Inovações que digitalizam setores mais tradicionais também vão se destacar. É o caso das fintechs, que digitalizam as transações financeiras do cotidiano, e das iniciativas de e-learning, que apoiam o ensino à distância. Ambas as áreas serão cada vez mais necessárias diante do novo normal que prioriza o distanciamento social.

Para que todas essas inovações do nosso cotidiano possam acontecer, será primordial ter boa infraestrutura de conexão de internet. Tanto é que não me surpreendi de saber que a Vivo detectou um crescente interesse na busca por maior velocidade de conexão, especialmente por fibra. Afinal, uma conexão de qualidade é o que vai permitir que nossas experiências virtuais possam ser melhor integradas com as nossas necessidades reais.

O mundo será dos mais adaptados

Acho curioso perceber que a adaptabilidade e a capacidade de “pivotar”, habilidades que vejo as startups do portfólio da Wayra desenvolvendo, vão se tornar essenciais para todo nós. Com um cotidiano cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo, ser capaz de se adaptar às mudanças deixará se ser apenas uma vantagem competitiva: será uma necessidade para sobreviver no mercado.

Quem já tinha refletido em algum momento sobre atuar em home office, por exemplo, ou tinha ao menos pensado em algum modelo híbrido de atuação profissional, hoje está sofrendo um pouco menos com o movimento de home office emergencial. Por isso, acredito que precisaremos estar sempre atentos às mudanças e dispostos a nos adequar às novas realidades.

Diante do que tenho visto, o nosso “novo normal” irá mesclar virtual e real de formas ainda mais interessantes. Quem não estiver se informando e se preparando para se adaptar correrá o risco não apenas de se sentir ultrapassado, mas de perder o seu lugar no futuro. Futuro esse que não vai chegar dentro de décadas, mas em questão de poucos meses.

Essa nova normalidade não será boa ou ruim. Será apenas nova. Meu conselho é um só: não se abale pelas dificuldades e esteja sempre disposto a encontrar saídas.

* Carolina Morandini é head de portfólio e scouting da Wayra Brasil.