* Por Ivanir França 

Quantas atividades você deixou de fazer apenas hoje por autossabotagem?

Fazendo uma conta rápida, somente hoje, eu deixei de estudar, de ler ao menos dois livros, de ver um filme e por fim este texto nasceu do desvio de outras tarefas.

E embora algo produtivo tenha surgido da procrastinação e do “deixa pra depois”, ao menos para mim, é comum no dia a dia sabotar várias atividades pelos motivos mais criativos ou estapafúrdios do sul do mundo.

Porém, depois de ler alguns textos e ver alguns vídeos, fica mais fácil entender que os argumentos, os jogos e até dar mais atenção à roupa na máquina frente ao inglês tem um sentido neurobiológico bem definido e uma culpada: a autoestima.

“Autossabotagem é o que fazemos quando colocamos obstáculos ou justificativas pelo baixo desempenho de um objetivo antes mesmo de ele acontecer.”

É evidente que a autoestima não é vilã do comportamento humano, e não deve ser queimada na fogueira da inquisição espanhola, mas ela é um dos fatores que nos leva a ser erráticos em relação a objetivos.

Explico, quer dizer, o Átila Iamarino explica. Segundo o pesquisador, embora sempre pareça que estamos dando nosso melhor, e tenhamos isso como certo, na realidade, nem sempre acontece.

E antes de criticarmos a autoestima é preciso entender por onde começamos a nos sabotar:

  • comportamento: quando ao invés de estudar inglês (meu caso), ou para uma prova, focamos nossa energia em outras atividades que irão justificar o desempenho ruim. Aquela frase de gaveta: “tomei bomba, por que não consegui estudar, faltou tempo …”.
  • por afirmação: mentalizamos o fracasso, antes mesmo de agir sobre um objetivo. Algo que faço sempre com o maledeto do inglês, “sou burro”, “não entendo as regras”, ou até apelando para o Coração Valente: “não quero falar essa língua de bárbaros”.

E aqui chegamos a autoestima. Na verdade à proteção dela, isto é, nem sempre nos comportamos ou afirmamos ser ruins para ficarmos de boas com nós mesmos. Pelo contrário: deixamos de fazer algo que temos dúvida para que possamos justificar de maneira tangível para nós mesmos.

“A autossabotagem pode ser uma versão adulta do ‘nem queria mesmo’.” comenta Iamarino. De acordo com ele, na hipótese de você ir mal em uma prova sem estudar, a falha é externa e está explicada. Então, você pensa: ‘se houvesse tempo para estudar, poderia ir bem melhor’. Autoestima sem nenhum arranhão.

Por outro lado, se houve tempo para estudar e o resultado foi ruim, a falha é interna -a culpa é só sua – e não há como justificar a partir da lógica anterior.

“E falhar após fazer muito esforço, pode nos fazer pensar que nós somos o problema ou que não conseguimos resolver algo.”, reforça Iamarino e completa: “a sabotagem vira então uma forma de garantir que existam justificativas externas para a oportunidade perdida.”.

Além disso, a autossabotagem está ligada a nossa ânsia de justificar fracassos para os outros. Afinal, quem não precisa prestar contas para alguém?Todavia, há um ponto sensível aqui, pois a autossabotagem pode ser entendida pelo outro como vitimismo.

Estudos apontam que as pessoas tendem a ser mais duras quando as justificativas do insucesso estão atreladas a pouco esforço ou a influência de medicamentos. Ou seja, baixa autoestima lá no alto.

Evidente, por se tratar de um traço de comportamento, a autossabotagem varia de pessoa para pessoa e tende a estar mais presente em perfis com baixa autoestima, pessoas ansiosas, pessoas com baixa autoeficácia e com baixa autocompaixão.

Contudo, destaca o pesquisador, é preciso ter cuidado para não utilizar características como justificativas prontas por resultados ruins. “Isto é, uma pessoa tímida usar a própria timidez para justificar seu péssimo desempenho em uma competição pública pela timidez.”.

O pesquisador aponta que existem poucos estudos neurobiológicos sobre este tipo de comportamento. Ele aconselha utilizar a teoria da autoafirmação para contrapor sentimentos negativos, que são a base da autossabotagem.

Segundo a teoria, nós nos ajudamos e sofremos menos quando refletimos sobre valores e o que é importante para nós antes de executar uma atividade.

 “Tendemos sofrer menos e reagir melhor quando a autoestima não é atacada.”

Outra estratégia é se preocupar apenas com o que se está aprendendo na ação e menos com a avaliação ou nota a ser obtida ou ainda entender que uma atividade tem altos incentivos e que a não conclusão dela levar a perder muito.


Ivanir França é Jornalista, Roteirista, Cineasta e atual analista de conteúdo da Delivery Much. Pós-graduado em cinema e graduando em História.