A Superlógica, que faz software para gestão de condomínios e empresas, nasceu em 2001 e, por isso, estranhei quando eles me enviaram uma sugestão de assunto a ser abordado aqui no Startupi. Conversa vai, conversa vem, eles acabaram me contando que haviam aplicado os conceitos do Lean Startup na empresa já formada, após perceber que o mercado exigiria mudanças drásticas. Uma experiência que pode ser do interesse de vocês.

Pedi então para o Carlos Cêra, sócio fundador da empresa, escrever um pouco sobre a implementação do Lean numa companhia que já está estabelecida no mercado. Confira:

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Como o Lean Startup mudou a minha empresa

A Superlógica tem mais de dez anos de mercado e sentimos, de uns dois anos para cá, que o mercado estava mudando drasticamente e que, para continuarmos vivos, precisaríamos nos reinventar ou até renascer.

Fizemos um grande trabalho de busca de informação (livros, palestras, matérias etc.), escutamos atentamente o mercado, tivemos ajuda de grandes empreendedores do ramo e, por fim, iniciamos aos poucos as mudanças.

Reescrevemos todos os códigos fontes de nossos sistemas (e isso incluiu colocá-los na nuvem), mudamos a linguagem com que nos comunicamos com o mercado, reposicionamos nossa marca, descentralizamos as decisões e, principalmente, começamos a desenvolver inovação e novos produtos baseados em uma nova ideia: o lean startup.

Há um conceito mais amplo (proposto no “The Lean Startup”, do Eric Ries), que eu prefiro, que define a startup como sendo uma instituição humana projetada para criar inovação sob forte incerteza. Não tem muito a ver com o tamanho ou idade da empresa e, sim, com inovação e incerteza. E isto casa muito bem com o nosso negócio, com o que fazíamos e fazemos todos os dias.

Nos primeiros contatos com os métodos propostos do lean startup, tivemos segurança de que aquilo era real e que poderia de fato transformar a empresa. Desde então lançamos produtos inovadores como a Assembleia de Condomínio Virtual, pagamento do condomínio com cartão de crédito e estamos lançando um software nas nuvens de gestão de assinaturas integrado a um completo software de gestão financeira.

Cada produto, aqui na Superlógica, é uma startup independente, na qual trabalham desenvolvedores, designers, vendedores e equipe de suporte. Eles têm autonomia para fazer proposições, testar hipóteses e conduzir a startup. O ambiente é de muita cobrança, mas ao mesmo tempo de descontração, pois todos são empreendedores do negócio.

Há, semanalmente, uma reunião, na qual discutimos as estratégias do produto, da marca e da comercialização. Há também discussões mais de 3x ao dia sobre o mínimo produto viável de cada pequena melhoria nos softwares.

Eu não sei se todos que tiveram contato com o Lean Startup tiveram a mesma condição que a Superlógica de entender a profundeza de seus ensinamentos. Por anos sofremos com processos inchados, com desenvolvimento de produtos que ninguém queria comprar e muita, muita burocracia. Vejo que, além de maturidade, tivemos desprendimento para abandonar as velhas ideias – e isto sem dúvida foi o mais difícil.

Hoje temos uma noção muito clara de que não podemos nos isolar nunca do cliente. Ou, no caso de novos produtos, do mercado e dos possíveis clientes.

Com isso, nosso aprendizado é muito mais rápido e validado pelo mercado (clientes ou possíveis clientes) – fazemos questão de colher feedback durante todo o processo de desenvolvimento. O ciclo construir-medir-aprender hoje acontece de uma forma muito mais rápida e natural, pois internalizamos estes conceitos propostos pelo lean startup.

Como diz um trecho do livro, é “fácil se iludir a respeito do que você acredita que os clientes querem. Também é fácil aprender coisas que são totalmente irrelevantes”.

Foto: Eric Ries, por Eva Blue