Várias startups comentam que, tão ou mais importante quanto os investimentos recebidos de anjos e de venture capitalists, é a ajuda que eles fornecem. E os investidores declaram que querem ser vistos também como mentores, coaches, estrategistas, fazedores de contatos e parcerias – até vendas. Isso lembra muito o empreendedorismo em si, até porque vários investidores tem uma trajetória empreendedora.

Há alguns dias, o empreendedor Samir Iásbeck (de camiseta na foto) me apresentou a um emprendedor que está fazendo papel de investidor anjo (aplicando seus próprios recursos), e juntos me apresentaram uma história bastante interessante sobre conhecer pessoas e se relacionar com elas.

“Estávamos no autódromo”, comentou Gui Affonso, o tal empreendedor experiente que o Samir disse que estava ajudando a startup dele, a plataforma de quiz Qranio – que dá prêmios, fornecidos por parceiros, para quem obtém boa pontuação nas respostas. “Vão fazer um quiz sobre corridas?”, perguntei. “Não, é que eu sou piloto”, explicou. Imaginei se tratar de uma pessoa já bem sucedida e que gosta de correr – inclusive correr riscos! Que gosta de se aventurar em negócios. Que não tem mais o medo que costuma paralizar alguns empreendedores. Bem, experiência e sucesso ele tem.

Na primeira parte da sua trajetória profissional, Gui (como faz questão de ser chamado) trabalhou como diretor em um banco da família dele. Ok, não exatamente uma startup, não exatamente as “condições de extrema incerteza” que muitos empreendedores enfrentam. Mas ele também conheceu o mercado brasileiro fora do setor financeiro. “Nos anos 80 abri a primeira locadora de VHS do Rio, deu muito certo, sobrevivi à chegada da Blockbuster, vendi as unidades, mais tarde entrei novamente neste mercado, minha sócia que toca, ela e o negócio são referência na área até hoje”, narra. “Tenho um olho bom para negócio e para pessoas, tenho muitos relacionamentos importantes”, declara. Mas nem tudo são flores.

Um dia, nos anos 90, cansou do Rio, cansou do Brasil e foi “fazer América”: começar tudo de novo nos Estados Unidos. “Iniciei várias empresas, nem todas deram muito certo, mas no geral eu tive sucesso”, contextualiza. “Trabalhei com importação de mármore e granito, importação de carro para o outro lado, também montei um private equity e uma distribuidora de medicamentos. “Foram 17 anos nos Estados Unidos e isso foi o maior aprendizado que tive. E uma das maiores lições é que não adianta apenas o know how, pois o ‘know who’ faz uma grande diferença”, analisa e comenta sobre o assunto deste post: conhecer pessoas e se relacionar com elas. O que ainda não contei foi como ele chegou ao Samir.

“O fato de hoje eu estar investindo e ajudando o Qranio não é aleatório. O Samir não era meu conhecido e eu também não entendia de Internet”, comenta, confirmando que ouvia muito falar nesses negócios lá nos Estados Unidos (“afinal, o estouro da bolha pontocom afetou meus negócios também”)  mas nunca tinha se envolvido diretamente. “Hoje também não fico das 9h às 17h em um escritório, mas tomei a decisão de investir porque gostei muito do projeto, é fantástico a reação das pessoas e o que significa unir educação, quiz e prêmios. Gostei muito mesmo do Samir também, um cara que já fez várias coisas, totalmente comprometido com o negócio, e vi que poderia ajudar”. Mas não foi só o Qranio, acelerado pela Wayra, que apareceu no radar dele.

“Um dia, depois de décadas, reencontrei um amigo de infância, que agora também corre de carro, e soube que ele tinha trabalhado com software, depois abriu uma empresa, teve um sucesso, vendeu para uma empresa maior, que por sua vez também foi comprada mais tarde. E esse meu amigo há algum tempo empreendeu criando a parte online e de e-commerce de um programa de TV sobre gastronomia, e também criou uma solução inteligente para restaurantes, e eu estou aproveitando que viajo muito para outros países e estou levando o produto dele junto, me associei”, conta, referindo-se a Amilcar Collares, que se decicou à área financeira por muitos anos. Amilcar criou um compilador de análise de crédito que foi utilizado por 46 bancos, depois vendeu para a Datasul, que foi vendida para a Totvs, e ele acabou saindo. Só que, como Gui, Amilcar não parou de ver (e buscar) oportunidades em outras áreas – com seus chefTV.com.br e iRestaurante.com.br. Mas esta é outra história a ser contada.

Moral da história: você pode ser banqueiro, pode trabalhar com mármore, VHS e até private equity, e isso não o torna diferente de startups de software. Afinal, tudo se trata da busca de um modelo de negócios interessante. Interessante também como startups de software (e relacionados) não são coisas de jovens talentos.