Ontem na 1ª Conferência Nacional da Anjos do Brasil (a entidade sem fins lucrativos que fomenta o investimento feito por pessoas nas startups), o fundador Cassio Spina apresentou um levantamento feito por eles. Conforme o levantamento, o número de investidores anjo brasileiros aumentou em 18%, passando de 5.300 para 6.300 pessoas físicas que aplicaram recursos e conhecimento em empresas iniciantes.

Conversei com ele para entender o contexto. Os dados analisados compreendem dois períodos de 1 ano: entre agosto de 2010 e julho de 2011, e entre agosto de 2011 e julho de 2012. “Cerca de 80% destes investidores são apenas receptivos, isto é, aplicam somente quando são procurados por empreendedores”, destacou Cassio, o que pode sinalizar a importância de o empreendedor fazer networking e trabalhar para identificar pessoas que se alinhem com seu plano de negócio. “Entra nesta conta todo empresário, ou profissional, que efetuou investimentos com dinheiro próprio, pessoal, em empresas nascentes, e que também colaborou com orientação”, explica.

Ainda segundo este estudo, o volume de capital total investido também cresceu em 10%, subindo de R$ 450 milhões para R$ 495 milhões. O crescimento do volume de capital foi inferior ao número de investidores anjo em função da valor médio investido ter sido reduzido em aproximadamente 7%, passando de R$ 85.000 para R$ 79.000, o que é justificado por novos investidores normalmente aplicarem menos recursos, pois ainda estão na fase de aprendizado.

Apesar de ter sido um bom crescimento, comparando com os EUA que mesmo com sua situação conjuntural atual de crise, teve um crescimento superior chegando a uma taxa 20% no número de investidores de anjo, conforme estudo do Center for Venture Research da Universidade de New Hampshire. Chama atenção que este crescimento foi sobre uma base de 265.000 investidores anjo, em um mercado maduro, o que pode ser explicado pela demanda de investidores por retornos maiores, considerando que a taxa de juros real nos EUA ser negativa, isto é, a remuneração é abaixo da inflação.

Por outro lado, vê-se que o Brasil deveria ter um potencial de incremento percentual maior que os EUA por estarmos ainda em fase de desenvolvimento do setor, entretanto, existem duas barreiras significativas para isto: a primeira é a falta de conhecimento. O investimento anjo ainda é novo no Brasil e assim está sendo descoberto por potenciais investidores. A segunda, mas identificada como a mais significativa por Cassio Spina, também autor do livro “Investidor Anjo – Guia Prático para Empreendedores e Investidores”, é a falta de proteção e estimulo para investidores.

Explicando melhor, o investidor anjo está disposto a tomar o risco da perda do capital investido em função de um potencial maior retorno, entretanto, devido a falta de regulamentação da descaracterização da personalidade jurídica das empresas, leva ao risco potencial adicional de além de perder seu investimento, terem eventualmente de arcar com passivos adicionais da empresa mesmo não tendo qualquer envolvimento na administração da investida, apesar de a legislação prever que a responsabilidade deveria ser limitada ao seu capital social.

Nos EUA e em outros países onde a prática do investimento anjo está mais desenvolvida, existem regulamentações que protegem os investidores, garantido aos mesmos que nenhuma divida da empresa atingirá seu patrimônio pessoal. Outra barreira é a falta de estimulo, ou melhor, equiparação de incentivos tributários com outras aplicações; alguns exemplos disto são: enquanto um investidor no mercado de ações pode compensar eventuais perdas de um investimento com o lucro de outros e ser tributado somente sobre o resultado total apurado, no caso do investimento anjo privado, não há esta previsão de compensação, assim, mesmo que o resultado total fosse nulo, o investidor poderia ser tributado sobre um dos ganhos; outro exemplo comparativo são com os incentivos dados ao mercado imobiliário, aonde o investidor tem isenções em um investimento de menor risco, quando a lógica deveria ser de quanto maior o risco, maior o incentivo.

Sobre estas questões, é importante destacar que investimento anjo proporciona ganhos não só para os investidores, mas para economia do país como um todo, pois como seu foco são empresas inovadoras de alto potencial, os sucessos proporcionarão negócios com grande geração de empregos qualificados e tributos recolhidos. Exemplo disto é a Apple, maior empresa do mundo em valor de mercado, que iniciou com os fundadores Steve Jobs e Steve Wosniak e o investidor anjo Mike Markkula. Também existem exemplos de grande sucesso no Brasil, como o caso da empresa Buscapé, fundada por 4 engenheiros recém formados em 1999 contando com apoio de um investidor anjo e após apenas 10 anos vendida por US$ 342 milhões e contando com mais de 700 funcionários. Outro case brasileiro é a empresa Bematech, também fundada por 2 alunos de mestrado com apoio de investidores anjo em 1992 e hoje listada na BOVESPA, com faturamento superior a R$ 350 milhões e mais de 1.100 funcionários.

O investidor anjo exerce um papel fundamental no sucesso destas empresas, pois além de contribuir com o capital financeiro, ele aplica a experiência, conhecimento e sua rede de relacionamento tanto aumento suas chances de sucesso quanto acelerando seu crescimento. Esta importância é tão relevante, que estudo da OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico) em mais de 30 países identificou que “os investidores anjo tem um papel crítico no sucesso das empresas iniciantes”.

Sobre a Anjos do Brasil

A Anjos do Brasil é uma organização sem fins lucrativos criada para o fomento do investimento anjo e apoio ao empreendedorismo inovador brasileiro, promovendo ações para disseminação de conhecimento e capacitação aos empreendedores e investidores, bem como possuindo uma rede de investidores anjo para empresas startups, já tendo presença em mais de 7 estados brasileiros em pouco mais de 1 ano.

Fundada por Cassio A. Spina, empreendedor por 25 anos, após completar o ciclo completo com suas empresas desde a fundação até a venda, passou a dedicar-se a atividade de investimento-anjo, sendo autor do livro “Investido Anjo – Guia Prático para Empreendedores e Investidores”. Conta ainda com apoio de entidades como a ABVCAP – Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity, o Instituto Educacional BM&F BOVESPA, a Endeavor, a CONAJE e o CJE-FIESP entre outras.

Sobre Investimento Anjo e Empreendedorismo

O Investimento-Anjo é uma modalidade efetivada por pessoas físicas, normalmente empreendedores e executivos de sucesso que tenham acumulado recursos suficientes para aplicá-los em empresas nascentes, as startups, conjuntamente ao aconselhamento e à utilização de sua rede de relacionamentos para apoiar o empreendedor. Tem alto potencial de impacto na criação de empresas de grande valor agregado, destacando-se como exemplos a Apple, Google, Intel, Facebook e a Fedex dos EUA e a Bematech e o Buscapé do Brasil, foi destacado em estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em mais de 30 países que “os investidores anjo tem um papel crítico no sucesso das empresas iniciantes”.