Inspirado por comentários feitos em outro post, fiz uma pesquisa (que não se pretende completa ou conclusiva, mas uma amostra) sobre Gestores de Produto no mercado de TI brasileiro.

Passo 1: busquei no LinkedIn, rede de contatos conhecida por profissionais corporativos e de TI, tanto brasileiros como do exterior (especialmente do Vale do Silício) e que agora lançou uma interface traduzida para o português. Encontrei 73 perfis de profissionais contendo as palavras “gestor gerente produto” no espaço “Brazil”.

Passo 2: talvez os profissionais tenham esquecido de configurar seu perfil direitinho, ou o LinkedIn tenha falhado, ou eu tenho feito a busca errado, ou ainda esses profissionais não estejam no LinkedIn. Onde mais poderiam estar? Vou à rede de contatos nacional Via6 – baseada não em currículos, mas em conteúdo. Encontro 7 resultados na busca por pessoas “gestor de produto”, e algumas não são de web.

Quem sabe, ao invés de gestor, procurar por desenvolvedor (de produto)? Nenhum no Via6, vários resultados no LinkedIn (mas a maioria se define como analista ou especialista, e não na área de produtos). Search #fail.

Passo 3: que tal entrevistar algumas pessoas? Procurei alguns e, como a entrevista com um deles ficou bem grande, achei justo publicar todas na íntegra como documento independente (google doc publicado como webpage).

Dov Bigio, Gerente de Produtos na Locaweb

O nome é hebraico, mas sou brasileiro! Resumindo bastante, fiz Engenharia da Computação na Poli/USP, me formei em 2001, e depois fiz o CEAG (especialização em administração de empresas) na FGV.

Depois de uma tentativa frustrada de empreender por conta própria (com o Flavio Pripas, do byMK, que vocês já citaram algumas vezes no Startupi – o Flavio é muito meu amigo), na época da faculdade, fui trabalhar na Accenture, onde fiquei por 4 anos. Depois vim para a Locaweb, no começo trabalhando como desenvolvedor do PABX Virtual, e aos poucos mudando para a área de Produtos e assumindo agestão de outros produtos.

Como você vê a formação dos profissionais?

Acredito que o Gerente de Produtos de software, e, mais especificamente, web, deve ter uma formação técnica e preferencialmente ter sido desenvolvedor em algum momento de sua carreira, e aos poucos ter desenvolvido seu lado mais voltado para business. Um profissional com conhecimento técnico conseguirá se relacionar e cativar melhor a equipe de desenvolvimento na hora de justificar o desenvolvimento de um produto, e, por outro lado, compreenderá quando o time de desenvolvimento disser que precisa fazer uma refatoração ou uma melhoria na arquitetura do sistema. Mesmo que tenha sido um bom desenvolvedor no início da carreira, o gerente de produtos não deve interferir nas decisões técnicas (a não ser que elas afetem a viabilidade ou o sucesso do produto), afinal, os desenvolvedores são as melhores pessoas para tomar estas decisões.

O gerente de produtos precisa entender as questões tecnólogicas ligadas ao seu produto, para interagir melhor com a equipe e entender as possibilidades de desenvolvimento; deve entender de experiência do usuário, para poder conversar e argumentar com os designer de interação e entender como os clientes usam seu produto; deve entender de marketing, para tomar as decisões sobre como promover o produto em conjunto com a equipe de marketing; deve entender de finanças e contabilidade para analisar o desempenho financeiro de seu produto; deve entender deestratégia para quais são os indicadores de sucesso para seu produto; deve saber se relacionar com pessoas deequipes e perfis diferentes, e envolvê-las em seu produto, de forma que todos caminhem na mesma direção. E, obviamente, deve ser capaz de interagir com os clientes, em todas as fases do desenvolvimento do produto. E, isso tudo, sem ser superior hierárquico de nenhuma dessas pessoas ou equipes na empresa!

Embora existam livros, eventos, congressos, cursos e associações no exterior, aqui no Brasil ainda não temos issode forma organizada. Em diversos eventos fala-se sobre o assunto, há alguns profissionais que exercem este papel – tanto fundadores de startups, como profissionais em empresas maiores – mas não há nada formal ainda.

Eu particularmente sou formado em Engenharia da Computação na USP, com especialização em Administração deEmpresas na FGV, mas muito do que aprendi (e aprendo constantemente) vem de blogs e livros sobre o assunto. É interessante como as pessoas desta área (e de computação em geral) gostam de compartilhar seus conhecimentos, e os blogs e o Twitter facilitam muito isso. 

E a estrutura das empresas?

Em startups, normalmente, o fundador da empresa é o primeiro “gerente de produtos”. Com o passar do tempo, o fundador passa a ter diversas responsabilidades na empresa, e deve coordenar todas as áreas da empresa, além derepresentá-la fora do dia-a-dia do negócio e tomar decisões estratégicas relacionadas à empresa como um todo; cada vez ele fica mais distante do dia-a-dia do desenvolvimento e precisa de pessoas capacitadas que tomem as decisões diretamente ligadas aos produtos da empresa.

Como gestores de produtos web trabalham no Brasil?

Acabamos nos espelhando muito no que fazem os americanos; ainda não temos grupos organizados nem para formação nem para a troca de experiências por aqui. Acho que em poucas áreas existem oportunidades para profissionais de empresas diferentes trocarem experiências. Software é uma área privilegiada por isso, com eventos como o Rails Summit, grupos de usuários das mais diversas tecnologias, etc;  Este pessoal é bem colaborativo, mas não vejo atividades equivalentes em outras áreas.

O dia-a-dia dos gestores de produtos deve ter um foco grande no relacionamento com os clientes e usuários. Visitar clientes, entender seus problemas, como eles os resolvem e pensar em como poderiam resolvê-los de forma melhor, com a ajuda das tecnologias web.

Nossa função é praticamente dar uma razão de ser para a tecnologia, afinal, o que deve guiar uma empresa não é a tecnologia por si só, mas sim o uso deste tecnologia em algo prático e necessário para o mercado. Não basta a tecnologia somente pela tecnologia para que uma empresa tenha sucesso, a tecnologia é apenas um dos componentes (ainda que em vários casos o mais importante). O Gerente de Produtos deve fazer este meio de campo entre a tecnologia, o marketing, o cliente, a experiência do usuário, o comercial, o suporte técnico, financeiro, executivos, enfim, todas as áreas da empresa.

Parte do trabalho também é segurar um pouco o desejo que cada especialista tem de oferecer o seu melhor! Por exemplo, fazer um produto com determinada interface pode levar 1 mês para os desenvolvedores implementarem. Sem dúvida ficará perfeito, mas, com isso, pode ser perder o time to market. É o Gerente de Produtos que deve convencer o designer de interação que, neste momento, não vale a pena ir por um caminho e seguir outro mais simples é a melhor opção no momento, que o ótimo é inimigo do bom. O melhor produto não é aquele que tem a melhor experiência do usuário, a melhor tecnologia, o melhor marketing, etc. é o que tem a melhor combinação, ainda que cada parte não seja necessariamente a melhor. É o Gerente de Produtos o responsável por avaliar esses trade-offs.

Como esse trabalho impacta no mercado?

Inovação tecnológica por si só não basta; o grande ganho trazido pela inovação tecnológica é quando esta é aplicada em produtos úteis para os clientes, produtos que resolvem de alguma forma seus problemas. É função do Gerente de Produtos identificar estes problemas e aproveitar a inovação tecnológica para resolvê-los. Assim, o Gerente de Produtos é aquele que entende a necessidade do mercado, explica para os especialistas e traz de volta para o mercado a solução por eles desenvolvida. O impacto no mercado é simples: fazer com que a inovação tecnológica que poderia existir somente nos laboratórios e na universidade se transformem em soluções para problemas do mundo real, e, obviamente, gerando receita e lucro.

Como tudo isso funciona na Locaweb?

Na Locaweb temos times responsáveis por cada produto, cada time composto por um Gerente de Produto, um Gerente de Desenvolvimento – com sua equipe de desenvolvedores – e um Designer de Interação. O Gerente deProdutos analisa oportunidades, define a visão estratégica do produto e garante o alinhamento desta com a estratégia geral da empresa, especifica funcionalidades e interage com clientes (e potenciais clientes) para detalhar o produto; o Designer de Interação define os padrões visuais e a interação que os usuários terão com o produto, a navegação e a identidade visual do produto; enquanto a equipe de desenvolvimento, obviamente, implementa o sistema. Em paralelo, temos um time de Marketing de Produtos, responsável por ‘contar para o mundo’ o que estamos fazendo, promover os produtos, acompanhar os resultados das ações de marketing (promoções, eventos, etc.), simplificar o processo de venda e, obviamente, aumentar a taxa de conversão em nosso site.

Como são os ciclos?

Isso é algo que pode variar muito de empresa para empresa; cada uma tem sua realidade e seus recursos, mas, em linhas gerais, tentamos seguir o modelo que o Marty Cagan (que já foi mencionado por vocês anteriormente) defende: uma fase de análise de oportunidade, em que se avalia o potencial do produto no mercado; uma fase de prototipação rápida, e, novamente, validação com o mercado; uma fase de desenvolvimento baseada no MVP (minimum viable product), em que se lança o produto com o minimo possivel de funcionalidades, de modo a sentir qual será a reação do mercado e perceber qual o caminho que o desenvolvimento deve seguir, e depois seguimos desenvolvendo o produto iterativamente, melhorando, evoluindo e simplificando de acordo com as demandas do mercado. O príncipio é que, se algo tiver que dar errado, melhor que dê errado logo (fail fast!) para podermos perceber e tomar as ações necessárias para avançar um pouco mais, ou mudar o rumo antes que seja tarde demais.

Entre cada uma das fases há uma decisão de continuar ou não o desenvolvimento do produto, e isso depende tanto da aceitação pelos clientes quanto da aceitação do ROI por parte da empresa. O mais importante é que é um processo iterativo, em que preferimos tomar várias pequenas decisões constantemente a tomar poucas grandes decisões pontualmente, e é por isso que temos trabalhados com metodologias ágeis de desenvolvimento.

 

Glauberto Colabello, gerente de produto na Direct Talk

Quando criança, você sonhava em trabalhar com desenvolvimento e gestão de produtos web? Isso era algo que em algum momento inspirou você?

Sempre comentava e sonhava com desenvolvimento de tecnologias que ajudassem, verdadeiramente, as pessoas a resolverem seus problemas e necessidades. O foco em si não estava diretamente ligado ao mundo Web, principalmente por que o desenvolvimento dessas tecnologias ocorreram em paralelo com minha infância. O que realmente me inspirava era ver o sorriso de agradecimento de uma pessoa que teve a solução para seu problema, desde um problema técnico em um equipamento até um novo documento que ajudasse a organização deseu dia-a-dia. Me lembro quando organizei o livro de receitas de minha avó e ela espalhou para a família inteira que “…meu neto me ajudou com um baita problema!!!…..”

Você estudou o que – e de que forma – para trabalhar como gerente de produto?

Estudei Ciência da Computação como formação acadêmica, mas sinceramente não considero que foi esta formação a responsável por me fornecer 100% dos subsídios para a atividade que exerço hoje. Vejo que ela contribui para me ajudar na formação de meus raciocínios lógicos, mas só consegui ter o olhar realmente do cliente quando entrei na área de atendimento de um provedor de internet, onde eu era responsável por grande parte das reclamações de Procon. Neste momento realmente consegui iniciar a criação de uma forte visão de cliente e necessidade. Além disso, sou muito curioso e interajo com diversas situações em meu dia-a-dia, onde muitas pessoas têm preguiça de participar, ex: Consertar um carro, instalar um alarme, ler manuais, entre outros.

Desenvolver e gerenciar produto requer planejamento estratégico tanto da área técnica quanto da comercial?

Muito planejamento…..sem essa base, não existe a entrega de uma solução, pois produto não entrega nada, apenas uma solução de necessidade é que gera resultado e satisfação para quem está ao seu redor. Você tem que estar sempre próximo da necessidade do cliente e das melhoras práticas de desenvolvimento para ajudar a definir a melhor forma de resolver determinado problema. em menor tempo e custo (particularmente odeio esta palavra “custo”, mas temos que lembrar que até uma ONG precisa gerar resultado para o seu propósito).

Como funciona o setor na sua empresa?

Trabalho bem próximo da necessidade que o cliente deixa claro para a equipe de relacionamento. Procuro adiantar tendências que possam estar escondidas em determinados assuntos que estão surgindo. Um case que é muito citado aqui na empresa é o do Twitter, você imaginava que alguém iria pedir um microblog???? A necessidade foi escrever rapidamente e com acesso rápido sem delongas para uma publicação.

Como continuidade do processo, buscamos fazer uma proposta de solução para a necessidade levantada e em seguida vamos aos clientes para uma validação mais detalhada. É a partir deste ponto que definimos se refinamos a solução, ou se abandonamos a idéia.

Rafael Lélis, Client Services Manager na Eyeblaster

Quando criança, você sonhava em trabalhar com desenvolvimento e gestão de produtos web? Isso era algo que em algum momento inspirou você?

Sou um apaixonado pela web desde 1998. Foi mais do natural que me buscasse trabalhar com isso na minha carreira. Já estou neste mercado de publicidade digital há quase 3 anos e não me imaginaria em outro lugar.

Você estudou o que – e como – para trabalhar como gerente de produto?

Sou formado em Propaganda e Publicidade, com habilitação em Marketing. Para diversas funções que eu faço hoje não existe edução formal, a academia ainda corre atrás do que vivemos hoje em dia, ao menos no Brasil.

Desenvolver e gerenciar produto requer planejamento estratégico tanto da área técnica quanto da comercial?

Requer mais planejamento técnico no meu caso, pois somos uma empresa totalmente B2B, na qual o foco é a gestão de campanhas dos clientes, implementação do material e diagnostico de possíveis erros. Acredito que o meu lado comercial reside em mostrar para o cliente que o produto funciona e resolve as suas demandas. Tendo um bom produto e garantindo atendimento excelente, uma nova venda acaba sendo conseqüência natural. Na Eyeblaster temos um departamento comercial para abrir novas oportunidades.

Como funciona o setor na sua empresa?

Meu setor lida diretamente com as agências e departamentos de marketing dos anunciantes. Utilizamos a nossa plataforma de gestão de campanhas, chamada Media Mind, que é um grande facilitador de serviços. Ele é o centro de todo o trabalho, desde a equipe comercial até a equipe de operações utilizam-o diariamente. Dessa forma meu departamento está conectado com todos os outros, tendo em vista o tipo de serviço que prestamos, a parte de operações é o coração núcleo-chave da empresa.