Tudo o que startups brasileiras precisam aprender com o Vale do Silício sobre produtos

Diego Remus em 26 de março de 2010

“Você já aprendeu em uma mesa de bar”. Assim termina o título do livro “Tudo que você precisa saber sobre o Twitter“, que o Juliano Spyer lançou há meses, fazendo muito sucesso, sem ser negativo ou diminuir a importância do produto de mídias sociais mais queridinho e gerador de prejuízo do momento – desenhado como produto por um brasileiro.

Isso só ilustra um dos pensamentos, de uma série deles que passaram pela minha cabeça – não diminui nada ou ninguém, apenas segue a linha de sugerir novos pontos de vista. Esta semana, consegui uns minutos da atenção do Marty Cagan, consultor de gestão de produtos no Vale do Silício, que veio novamente ao Brasil (Belo Horizonte/MG) para atender outro cliente.

Mr. @Cagan já tinha ajudado empresas como AOL, HP, Netscape, eBay e Locaweb a gerirem ou desenvolverem seus produtos. Nos últimos dias, ajudou outra brasileira, a SambaTech (que fornece platafoma para gestão da distribuição de vídeos na web para R7, SBT, Veja, Exame…). Eles querem lançar um novo produto e chamaram Cagan por isso.

Perguntei para ele o que exatamente ele fazia. “Eu compartilho com as empresas as melhores práticas e técnicas de negócios das empresas líderes”, ele disse. Questionei qual é a importância disso (ou o que tem de especial), já que cada empresa tem seu produto, sua estratégia, seu mercado e se elas já gostam tanto de falar sobre suas estratégias.

“Aí é que está: na verdade, nenhuma empresa de sucesso está compartilhando sua estratégia, pois é isso que as torna quem elas são”, admitiu o consultor. Uau, mas então, se elas não compartilham isso, o que Cagan teria para compartilhar? Seria um espião? “Algumas até ficam felizes em compartilhar um pouco de informações”, emendou, “e a dica mais importante é observar os clientes”.

Ouvir o seu cliente ou ouvir as outras empresas falarem sobre os seus? “Na verdade, não apenas ouvir o seu cliente, porque ele nem sempre expressa o que você precisa ouvir. Muitas vezes, as empresas precisam ir a campo, onde o cliente está, observá-lo usando seu produto e trabalhando, em geral”.

E o que se aprenderia fazendo isso, para que serve? “Assim a empresa pode facilmente se focar em desenvolver as características importantes no produto. As startups, em geral, tem menos processos, estruturas e burocracias para trabalhar. Isso as dá mais agilidade para fazer um movimento de pivot, mudar de direção. Mas isso também é mais difícil de fazer quando não se é muito experiente”.

Pedi um exemplo. “O Flickr, por exemplo, é um dos meus cases favoritos. Começou sendo um jogo, em que a parte favorita das pessoas era mexer com as fotografias. Então o Flickr deixou de ser um jogo e passou a ser especificamente um serviço de fotografias”.

Ok, mas isso significa que os produtos web do Vale do Silício fazem mais sucesso do que os brasileiros porque os norte-americanos observam seus clientes, e os brasileiros não? Mas, se em muitos casos a maioria de clientes dos norte-americanos são brasileiros, isso não implicaria que os norte-americanos viessem ao Brasil observar os brasileiros – ao invés de apenas chamarem para eventos, como o Facebook fez? E precisa um norte-americano vir dizer para os brasileiros como eles devem ouvir os clientes locais e aplicar isso nos produtos?

“O que eu diria sobre as startups brasileiras é que elas deveriam pensar mais globalmente”, conclui Cagan, o que não tem nada de novidade ou diferencial. E é claro que, bem como ele mesmo avisou no início da entrevista, as empresas não falam das suas estratégias. Então, posso entender que esse foi mais um stunt para gerar buzz sobre um possível novo produto brasileiro – de cuja possibilidade ouço falar desde outubro.

Conheço outros consultores que também trabalharam para a AOL. E trabalham para clientes em outros países e continentes – com Japão, Europa. E, quer saber? São consultores brasileiros cujo conjunto da obra me parece não perder em nada para livros com título apelativo e oportunista – como “Inspirado: como criar produtos que seus clientes vão amar”, do Marty Cagan. Ainda ontem, brasileiros muito experientes e bem posicionados no mercado comentaram para mim que não sabem mais se o eBay vai continuar sendo um bom produto (e eu nem tinha mencionado a conversa com Cagan).

Percebam que não estou subestimando norte-americanos ou parceiros desses – até porque o Startupi nasceu da visão conjunta entre um brasileiro e um norte-americano, que precisou investir do próprio bolso para proporcionar que os próprios brasileiros enxerguem suas oportunidades na web e as mostrem para os investidores norte-americanos – ao invés de vir vender seus serviços ou abrir filial para se posicionar perante nosso público (visando, é claro, também ao lucro – o que não chega a ser pecado).

Estou apenas evidenciando como o que em geral os norte-americanos sabem fazer bem é marketing! São um país que construiu sua identidade em torno disso e que sabe emprestar (ou vender) suas doses de auto-estima (ou de supremacia do sonho americano) para países que eles chamam de “emergentes”, “em desenvolvimento”, “criativos”, “inovadores”.

Vale mencionar que um dos engenheiros do Facebook é brasileiro, e eu até publicaria que a empresa acabou de contratar um representante no Brasil, mas ainda não assumem publicamente nem me deixam compartilhar. Como vem sendo demonstrado, os líderes neste setor não são exatamente modelos de transparência. E talvez nem exista algo assim – apenas no mundo do hype, do buzz, do marketing, do “faça o que eu digo que faço, não o que eu faço e não digo”.

Externalizo essas observações não como crítica destrutiva – torço para a SambaTech, que acabou de completar 6 anos de vida, e pelo Marty Cagan, que certamente está em um time vencedor. Eu falaria diferente se tivesse subsídios de vocês. Compartilho dessa forma para não apenas “chover no molhado” e porque conectar pontos, conforme Thomas Friedman em “O Lexus e a oliveira: entendendo a globalização”, é o verdadeiro valor agregado por um jornalista. E quem quiser ler mais sobre Cagan e gestão de produtos, recomendo a entrevista do meu amigo e colega-de-Hubit, Diego Gomes, no RWWBR.

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Comentários (15)

  1. Marcos Roberto 26/03/2010 às 18:17:13

    Belo post!

  2. Jackson 26/03/2010 às 18:54:42

    Vale mencionar que um dos engenheiros do Google é brasileiro…

  3. Lucas Castro 26/03/2010 às 19:05:40

    E ele veio a BH, na sambatech…essa abelhinha do lado diz tudo!
    hehehe

    Eu tenho orgulho de ser belohorizonte.

    Abraços e otimo post.

    Lucas Castro
    @criticarbh

  4. Flávio Rocha 26/03/2010 às 19:58:02

    Caro Diego, seus pontos de vista são completamente míopes.
    Hoje temos pouquíssimos profissionais competentes de gestão de produtos no Brasil. Achar que somos somos auto suficientes e tão bons quanto os gringos nisso é inocência ou desconhecimento do mercado. Insinuar que o Brasil tem startups que pensam globalmente é outra afirmação errônea. Apesar de termos alguns cases como hotwords e buscapé, a maioria das startups noticiadas aqui e nos outros blogs de "startups do brasil" são modelos locais, sem escala e pouco interessantes ou inovadores. Tanto é assim que os investidores locais não tem nenhum case de sucesso global em seus portfolios. Sugiro estudar mais o mercado, antes de falar abobrinhas.

  5. @dovb 27/03/2010 às 15:21:00

    O Google ou Twitter terem engenheiros/designers brasileiros não os torna melhores ou piores; O fato de ele ser americano também não o torna melhor ou pior.

    O que o diferencia é ter tido experiência como participante ou consultor de diversas empresas que desenvolveram produtos de sucesso na web. Recomendo fortemente seu livro, Inspired, e também seu blog.

  6. @dttg 27/03/2010 às 21:35:01

    Olá Flávio.
    Quando você fala "blogs de startups do brasil" soa pejorativo. Algum problema com a mídia que fomenta o desenvolvimento da cena por aqui? Se existe espaço para discussões como esta é graças a estes blogs.

  7. @dttg 27/03/2010 às 21:35:51

    Cara, me amarro no seu blog! Tem mto tempo que assino.
    Abraço,

  8. @dttg 27/03/2010 às 21:35:51

    Cara, me amarro no seu blog! Tem mto tempo que assino.
    Abraço,

  9. Fábio Carvaloh 30/03/2010 às 12:38:54

    Diego,
    parabéns pelo post. Acho que o Flávio Rocha talvez tenha dito uma verdade, mas sem o tato necessário. Nem o conheço e não estou aqui pra advogar a ninguém, mas não temos o mesmo nível que os estrangeiros. Participei de uma startup em 2001 e vi o que era a total desorganização dos seus membros. Obviamente, pulei fora do projeto, mas agradeço pela oportunidade de entender que aquele negócio era bem mais complexo que os donos achavam, naquela época.
    Que bom que temos blogs de startups no Brasil! isso prova que nosso mercado quer se fortalecer, discutir e prover soluções para as mazelas que enfrentamos. Essa foi minha primeira visita ao seu blog, embora já tivesse ouvido falar dele. Pretendo retornar.
    Abs,
    Fábio Carvalho

  10. Diego_Remus 30/03/2010 às 12:47:55

    oi Fábio

    eu realmente quis fazer um post especial para os leitores, mostrando relações que muitas vezes não são anunciadas. é um post sobre o conflito entre o dito e o não dito, com uma provocação que deseja estimular um sentimento de "yes, we can".

    infelizmente, após dar tantos exemplos e mostrar tantas relações não óbvias, mesmo assim recebemos um ataque que se apoiou exatamente naquilo que atacou – fazendo de conta que apenas uma opinião expressada com bravice (no caso) é suficiente para demonstrar superioridade.

    a gente sabe que o Vale do Silício é mais bem sucedido. não tenham dúvidas. nenhum jovem que está "aprendendo a caminhar" com suas startups se engana quanto a isso. apenas, não estamos aqui para endeusar pessoas sisudas que não demonstram aquilo que defendem.

    de minha parte, continuo estudando o mercado. em breve, informações sobre o mercado profissional de desenvolvimento e gestão de produtos web.

    abraço

  11. Gustavo Caetano 30/03/2010 às 20:28:01

    Olá Diego, ótimo post. Sou CEO da Sambatech, empresa que recebeu o Marty. A experiência com ele foi MUITO positiva. Ele tem uma experiência de alto nível que seria arrogante da nossa parte não reconhecer: ele foi VP da Netscape, VP do Ebay e VP da AOL. Acho que o Brasil tem muita coisa boa, mas precisamos sempre querer aprender e crescer mais. Se acharmos que já somos bons o bastante não vamos evoluir nunca.

  12. Millor Machado 31/03/2010 às 14:37:19

    Gustavo,

    Minha impressão é que Diego não quis menosprezar o Marty. O que imagino que ele quis dizer e que eu concordo, é que não podemos achar que o empreendedor brasileiro é inferior ao empreendedor americano, em termos gerais.

    Eu pessoalmente acho que moleques com um computador no Brasil tem chances bem parecidas com as de um moleque americano de criar uma startup bem sucedida . E quem disser que o Brasil não tem capacidade de ter excelentes programadores é porque nunca viu Mauro (meu sócio) em ação hehe

    Visão de mercado, cases de sucesso e várias outras coisas tornam de fato o Vale do Silício um ambiente mais propício a inovação. Porém, não podemos nunca nos desanimar e ficar com a ideia de "Nunca vai surgir um Google no Brasil".

    O melhor que podemos fazer é conhecer bem nossa realidade e mãos a obra! Uma startup não se faz por causa do país que está e sim pelo trabalho suado dos empreendedores no dia-a-dia.

    Abraços!

  13. Alexandre Viveiros 06/04/2010 às 19:18:25

    Olá, gostei do post, mas a soma do post + os comentários foi sensacional!

    Pessoal, tenham sempre em mente uma coisa: "De certo ponto de vista, todos nós temos razão sobre um determinado assunto".

    O mais importante não é ter razão, isso é coisa de criança. O mais importante é o quanto você consegue aprender e aplicar daquilo que lê ou ouve de alguém. Tudo se resume a isso. Não sejamos bairristas, não importa o título do cara, de que país é, se tal empresa tem brasileiros ou não. O que importa é o aprendizado e sua aplicabilidade em nossa realidade e ponto!

    Na minha visão a Samba Tech está correta em chamá-lo, ouvir o que ele tem a dizer, assim como ela deve fazer com muitas outras pessoas que nem ficamos sabendo (brasileiros ou não). Isso não quer dizer que eles vão fazer o que o cara está falando. Tudo são só pontos de vista! Só isso! No final do dia a decisão deles pode não ter nada haver com a consultoria que pagaram e isso não está errado!

    Namastê
    Alexandre Viveiros
    http://www.gruda.com

  14. Alexandre Viveiros 15/04/2010 às 20:45:47

    Meu comentário não foi publicado?

  15. Alexandre Viveiros 15/04/2010 às 20:56:15

    Sei lá o que aconteceu…Segue novamente.

    Ola, gostei do post, mas a soma do post + os comentarios foi sensacional!

    Pessoal, tenham sempre em mente uma coisa: "De certo ponto de vista, todos nós temos razao sobre determinado assunto".

    O mais importante nao é ter razao, isso é coisa de criança. O mais importante é o QUANTO voce consegue aprender e aplicar daquilo que le ou ouve de alguem. Tudo se resume a isso. Nao sejamos bairristas, nao importa o titulo do cara, de que pais é, se tal empresa tem brasileiros ou nao. O que importa é o aprendizado e sua aplicabilidade em nossa realidade e ponto!

    Na minha visao a Samba Tech está correta em chama-lo, ouvir o que ele tem a dizer, assim como ela deve fazer com muitas outras pessoas que nem ficamos sabendo (brasileiros ou nao). Isso nao quer dizer que eles vao fazer o que o cara está falando.

    Tudo são só pontos de vista! Só isso! No final do dia a decisão deles pode nao ter nada a ver com a consultoria que pagaram e isso nao está errado!

    Namastê

    Alexandre Viveiros http://www.gruda.com

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