A visão de um angel investor sobre o mercado brasileiro

Gilberto Jr em 18 de março de 2009

logo-socialsmartMichael Nicklas (investidor do Startupi) palestrou hoje no Web Expo Fórum, sobre sua visão “de fora” a respeito do mercado brasileiro de web 2.0. Explicando por que um investidor estadunidense está se aventurando no Brasil, a palestra trouxe uma série de análises bem inspiradoras para as startups brasileiras.

Segundo ele, geralmente  as startups começam com um tipo de investimento que chama de FFF (friends, family and fools), e ainda enquanto a startup não está lucrando, chegam os anjos para apoiarem o empreendimento enquanto ele não tem ainda tamanho para receber investimento de Venture Capital.

Mas há um paradoxo aqui. Uma empresa de Venture Capital que têm, por exemplo, 20 milhões para investir, não pode investir em 40 empresas que recebem 500 mil, porque seria muito difícil gerenciar tudo isso, então precisam fazer investimentos muito mais vultosos. O outro lado do paradoxo é que é preciso cada vez menos investimento para abrir uma startup de web 2.0, porque há muitas plataformas livres e abertas a partir das quais pode-se começar e serviços muito baratos de hosting e hardware.

investimentos

É aí que entram os Angel Investors, para cobrir este buraco entre o investimento próprio (e dos amigos e tolos) de quem teve a idéia e o venture capital.

Além disso, Michael diz que o Brasil não tem uma marca lá fora. Enquanto a Índia é conhecida por ter mão de obra barata e que fala inglês e a China por ser um mercado gigantesco no qual um porcento do mercado é suficiente para fazer uma empresa dar muito lucro e Israel por ser um país com um nível de pesquisa e inovação altíssimo, o Brasil não tem uma narrativa que atraia investidores.

O Fotolog dá uma primeira pista para esta nossa narrativa. A startup foi fundada em New York mas só e deu certo primeiro no Brasil, se espalhando depois para o resto da america latina e então para a espanha, foi vendida para a rede de propaganda francesa Hi Midia por 90 milhões de dólares. [parágrafo atualizado em 20/03 às 18h15]

Além disso, temos muita criatividade, uma boa quantidade de early adopters, somos o país que fica mais tempo na internet do mundo, temos bons e jovens desenvolvedores, e o perfil cultural do nosso povo é muito mais parecido com os dos mercados estadunidense e europeu do que os indianos e chineses.

Segundo Michael, essa é a narrativa que pode fazer investidores de fora pensarem: oh, então talvez seja bom negócio investir no Brasil. Pensando nisso, ele abriu  a SocialSmart (empresa da qual eu também sou sócio), que foca seus investimentos em Redes Sociais, OpenSource Software, Mobile, Ecommerce e no chamado Setor 2.5 (algo entre o setor privado e o terceiro setor, que incentive a sustentabilidade e ao mesmo tempo dê lucro).

Segundo o investidor, o Brasil tem todas as peças para ser um mercado de web 2.0 super inovador, dinâmico e lucrativo, mas ainda não temos o “quebra-cabeças” montado.

Somos um dos cinco lugares onde a Google faz desenvolvimento e pesquisa, fomos o primeiro país a desbloquear o iPhone 3G, somos o segundo país do mundo a ter a Campus Party depois de 10 anos na Espanha, somos a segunda maior comunidade de Java do mundo, estamos entre os melhores desenvolvedores de Ruby do mundo, somos os líderes mundiais em extração de petróleo de águas profundas, temos diversos tipos incentivos do governo como Finep e Softex…

Tudo isso nos convence que o Brasil deve competir mundialmente em inovação, não em mão de obra barata. É nas Startups que reside nosso maior tesouro!

Por Gilberto Jr

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Comentários (15)

  1. Diego Sana 19/03/2009 às 08:07:10

    Fugita, acho que vc está um pouco equivocado em relação ao Fotolog. Eles explodiram primeiro no Brasil sim, mas posteriormente conquistaram muitos usuários em países de linguas latinas, notadamente argentina/chile/méxico/espanha.

    De resto, me parece que a questão da criatividade como um diferencial dos brasileiros é um consenso. Nesta semana mesmo eu li uma matéria no meiobit sobre a Nokia comentando que mantém um centro de pesquisa aqui porque, embora india/china seja ótimo para produzir software barato, é no Brasil que conseguem desenvolver as melhores soluções.

  2. Rafael Ferreira Silva 19/03/2009 às 09:28:29

    Um mal que nós, brasileiros, temos é não dar valor a nós mesmos e falarmos mal do nosso país (e por tabela, de nós mesmos).

    O país tem muito potencial de crescimento e muitas ideias inovadoras. Angel Investors são fundamentais em ambientes como e esse e acredito que, nos próximos anos, o Brasil irá chamar muito a atenção de novas VC.

  3. Ana Gabriela Pessoa 19/03/2009 às 10:06:10

    Concordo, acho que precisamos estimular cada vez mais o empreendedorismo e a invoação, especialmente nas universidades de ponta. A maioria dos startups são criadas por jovens, e no Brasil ainda não temos muito essa cultura. Também é necessário mais facilidades com relação ao acesso a capital de risco para esses jovens empreendedores.

  4. Hugo 19/03/2009 às 10:44:56

    O que eu vejo que faltam são justamente empresas que substituam os 3Fs e se especializem em apoiar os projetos nas fases iniciais (como faz a YCombinator nos EuA). Acho que o fato de eles apoirem muitos startups ao mesmo tempo aumenta as chances de terem sucesso. Além disso com é possível começar com um capital bem inferior aos 20 milhões citados.

  5. Lucas Araujo 19/03/2009 às 13:56:03

    @hugo, a Y Combinator oferece 5 mil + 5 mil por sócio (dólares) para as startups selecionadas. Isso no Brasil seria dinheiro suficiente para dar aquele empurrãozinho inicial. Mas acho que o mais importante deles é oferecer consulta sobre como conduzir o seu negócio. Além de te apresentar para pessoas no ramo.

    @Ana, concordo, a única coisa que falta é a cultura disso no Brasil

  6. Gilberto Jr 19/03/2009 às 14:08:34

    @DiegoSana – A gente conhece bem de perto a história do Fotolog, porque é um case muito importante pra gente. Eu só não quis alongar ainda mais o artigo contando a história, por isso me ative ao essencial. O ponto aqui é que o produto se espalhou pela america latina via brasil, e para a espanha via america latina e para a frança via Espanha e então foi comprada pela Hi Mídia, da França.

  7. Alexandre Viveiros 20/03/2009 às 15:41:42

    @Gilberto – excelente post!!! eu acredito muito no BRASIL como o País da criatividade e Inovação.

    Aliás, deveríamos tomar a responsabilidade de CRIAR ESTA CULTURA! e espalha-la para o mundo todo!

    Eu assumo minha parte da responsabilidade e procurarei espalhar isso em tudo o que fizer! Quem mais topa?

    Vamos parar de só meter o pau no que esta ruim e mostrar no que somos bom!!!

    Brasil – O país da soluções criativas e inovadoras!

    Quer preço? Vai pra Indía
    Quer Criatividade e Inovação? venha para o Brasil!!!!!

    Namastê
    Alexandre Viveiros
    http:www.mibu.com.br

  8. Lucas Araujo 20/03/2009 às 15:59:14

    @Alexandre apoiado. Estou nessa!

  9. Mario Nogueira Ramos 20/03/2009 às 16:04:36

    Belo post Gilberto! Abraços!

  10. Diego Sana 20/03/2009 às 18:36:15

    @Gilberto Jr Em primeiro lugar me desculpa por ter chamado de Fugita, é que vc está postando tão pouco que já assumi por default que é o Fugita postando :p Sobre seu comentário, é que a frase dá a entender que o Fotolog só tinha usuários aqui (“só deu certo no Brasil”) e que mesmo assim valia US$ 90 milhões. Eu bem que gostaria que essa avaliação fosse verdadeira hehe, mas tendo sido o fundador do principal concorrente do Fotolog no Brasil (diferenças de faixa etária dos usuários e do “nível” do conteúdo a parte, em 2006 o Flogão ficou a frente do Fotolog no Brasil, de acordo com as nossas estatísticas, do alexa e as do ibope na época), e também tendo sido vendido para uma empresa de fora, sei que tal avaliação para uma rede social só com usuários brasileiros está bem fora de realidade.

    Como você bem sabe, o valor do tráfego de usuários brasileiros é menor até mesmo que o de outros países “em desenvolvimento”, e se por um lado isso é ruim pois torna difícil pro editor/empreendedor sem uma boa infra-estrutura de vendas monetizar justamente suas aplicações web, por outro lado é sinal de que o nosso mercado ainda tem muito potencial de crescimento e isso certamente é um dos catalisadores na atração de mais angels e VCs :)

  11. Gilberto Jr 20/03/2009 às 19:20:20

    @Diego Sana – Você me convenceu. Atualizei o parágrafo completando a informação ;) Obrigado pela análise e pelos comentários.

  12. O melhor da semana em 10 links (21 de março) | Alejandro Suárez blog profissional 21/03/2009 às 06:58:36

    [...] A visão de um angel investor sobre o mercado brasileiro por Startupi [...]

  13. Tiago Sommacal 31/01/2010 às 11:49:14

    Gilberto, bacana esse post.

    Essa narrativa sobre o ponto forte do Brasil -criatividade – de certo modo emula o que ocorre no mercado publicitário global, vide a tonelada de prêmios ganhos pelos brazucas em Cannes.

    Minha percepção, contudo, ainda é que o Brasil não é bom em criar tecnologias/idéias, mas sim em difundí-las, isto é, de se apropriar rapidamente de coisas que fazem sentido no exterior e fazê-las crescer aqui. O Fotolog é um exemplo literal disso, mas não só ele: veja o Buscapé, quando falamos de comparison shopping, ou mesmo o orkut, com o qual nenhuma social network nacional rivaliza.

    Verdade brutal seja dita, me parece que ainda está para nascer uma tecnologia/idéia/startup genuinamente nacional de alto impacto no exterior. Se você ou alguém tiver exemplos disso, por favor me avise.

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