terça-feira, 27 de outubro de 2026

Qual foi o papel das redes sociais nas eleições e o que isso demonstra sobre a criação de comunidades

Foto de ROBIN WORRALL na Unsplash
Para startups, o ciclo eleitoral no Brasil e nos EUA mostra que engajamento sustentável, confiança e pertencimento valem mais do que audiência inflada ou viralização passageira.

As eleições de 2026, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, revelam que as redes sociais vão além de simples plataformas de divulgação; elas são estruturas de mobilização. No Brasil canais como o “Exército do Lula”, no WhatsApp, que reuniu mais de 10 milhões de seguidores, foram usados para dar instruções a apoiadores, compartilhar conteúdos e aumentar a exposição da campanha. Startups, fundadores podem traçar um paralelo claro: uma base de usuários engajados pode se transformar em indicações, em defensores da marca, em feedback para o produto e em receita recorrente.

Da audiência à comunidade

O primeiro ensinamento é distinguir entre ter seguidores e construir uma comunidade. Campanhas: milhões de views e likes não são sinônimo de votos: estudos eleitorais alertam que as métricas de alcance devem ser vistas com cautela, pois não indicam, por si mesmas, uma influência na escolha do eleitor. O mesmo se aplica às startups: downloads, impressões e seguidores podem ser considerados sinais iniciais, mas não são um substituto para a ativação, retenção, recompra e indicação.

A mobilização política revela que comunidades emergem da identidade e da troca mútua. “Mobilizar, engajar e manter comunidades digitais é tão relevante quanto a exposição pública dos candidatos”, diz Gabriel Amaral, cientista político. Para uma startup, isso implica em estabelecer ambientes nos quais clientes e usuários possam descobrir valor antes mesmo de serem apresentados a uma oferta: por meio de conteúdo relevante, acesso a colegas, suporte ágil, reconhecimento e envolvimento nas decisões relacionadas ao produto.

Pagamento por alcance não estabelece conexão

O financiamento de campanhas disparou. Uma análise mencionada pela Al Jazeera aponta que a Meta recebeu pelo menos R$ 288 milhões em gastos de campanha diretos no Brasil em 2026, o dobro do que foi contabilizado na eleição presidencial de 2022. Daniela da Silva, que é diretora-executiva da organização de direitos digitais CTRL+Z, e que já atuou como executiva do WhatsApp no Brasil, mencionou que alguns coordenadores notaram uma diminuição no alcance orgânico e agora estão alocando mais de 70% do orçamento de impulsionamento para a Meta.

A lição para startups é que mídia paga e comunidade não são sinônimos. Os anúncios podem tornar a descoberta de um produto mais rápida e diminuir o custo de aquisição, mas um relacionamento duradouro se baseia em experiência, confiança e valor percebido. Uma campanha que adquire a atenção do público sem se preparar em relação ao produto, ao atendimento e aos canais de relacionamento provavelmente resultará em um tráfego inconsistente, ao invés de criar uma base de apoiadores da marca.

A confiança é o maior patrimônio

A credibilidade é o grande diferencial da comunicação digital. Estudos a respeito de influenciadores políticos demonstram que os criadores de conteúdo estabelecem uma proximidade com seu público por meio de uma autenticidade percebida, interação frequente e um engajamento duradouro — elementos que contribuem para a construção de confiança e identidade coletiva. Isso, no mundo corporativo, explica por que fundadores, especialistas da casa e clientes têm mais capacidade de convencimento do que anúncios institucionais

De acordo com o Center for Democracy & Technology, nos Estados Unidos, um quinto dos adultos recorre regularmente a criadores de conteúdo para se informar, o que reforça ainda mais esses atores como informantes, porta-vozes e organizadores. As startups podem adotar essa abordagem ao converter usuários experientes, parceiros e especialistas em vozes autênticas dentro da categoria. O elemento crucial aqui é a transparência: colaborações pagas precisam ser claramente sinalizadas, ou a confiança do público pode se dissipar.

Viralização não mantém comunidade

As redes criam momentos de grande mobilização, mas não conseguem sustentar a mobilização por muito tempo. Uma revisão sistemática de pesquisas sobre plataformas digitais chegou à conclusão de que mobilizações tendem a ser intensas, mas curtas, já que os algoritmos priorizam picos virais ao invés de uma ação contínua e organizada. Startup, cuidado com as trends: o pico de atenção pode trazer usuários, mas não garante que fiquem.

A chave está em vincular a experiência de descoberta a um caminho de pertencimento. Isso pode envolver uma comunidade no Discord, grupos específicos no WhatsApp, programas de embaixadores, encontros presenciais, newsletters e suporte ao cliente. A eleição ilustra a relevância de mesclar o digital com o contato pessoal: segundo o cientista político Luiz Signates, atos presenciais conseguem quebrar bolhas digitais e fazer o debate acontecer em locais públicos. Para as startups, eventos, encontros e ativações na comunidade desempenham um papel similar ao converter a interação online em uma relação tangível.

WhatsApp e canais próprios se tornam mais relevantes

O caso brasileiro reforça o valor de canais de relacionamento direto. O status do WhatsApp, por exemplo, foi empregado na fase final da campanha como parte de uma estratégia de “marketing 360º”, voltada a cercar o eleitor em múltiplos pontos de contato. De acordo com João Finamor, professor de marketing da ESPM, essa abordagem oferece ao apoiador oportunidades de comunicação a um custo praticamente nulo, visto que a ferramenta atinge um público vasto.

Para startups, WhatsApp, e-mail, app e comunidade própria minimizam a reliance em algoritmos alheios. Isso se torna ainda mais importante em um cenário onde alterações na moderação, distribuição e monetização das plataformas podem impactar o acesso ao público. De acordo com o Center for Democracy & Technology, as diretrizes de moderação e as mudanças nas políticas das plataformas influenciam diretamente a visibilidade dos conteúdos e o funcionamento do discurso.

Dados guiam, mas não determinam

Em nenhum resultado eleitoral — seja no Brasil ou nos EUA — é possível afirmar, neste instante, qual meio de comunicação foi responsável por guiar a decisão final dos eleitores. A campanha em si já se dá, na maior parte, em meios digitais, o que diminui a interação presencial e suscita questionamentos sobre onde termina a realidade e começa a seleção algorítmica. O equivalente para startups é não tomar decisões com base apenas nas métricas da plataforma.

É uma pilha de dados consolidada: aquisição de clientes, comportamento no uso do produto, retenção por coorte, lifetime value, referências, tickets de suporte, feedback qualitativo. Assim como é essencial para as campanhas descobrir se o engajamento realmente resulta em mobilização, as startups também precisam determinar se as curtidas e visualizações se transformam em ativações, crescimento de contas e aumento de receita. A medida certa é aquela que relaciona atenção ao valor monetário.

Comunidade como diferencial competitivo

A eleição mostra, para os empreendedores, que a comunidade é um ativo que pode ser protegido. Empresas que têm usuários engajados conseguem lançar funcionalidades com retorno mais ágil, diminuir o custo de aquisição por meio de indicações, enfrentar crises com mais resiliência e estabelecer barreiras de troca. A mobilização política no Brasil é um testemunho do que uma rede organizada pode alcançar: o canal de WhatsApp da campanha de Lula alcançou mais de 8 milhões de pessoas e foi descrito como um potencial divisor de águas na eleição.

O ensinamento final é que as redes sociais devem ser vistas como ferramentas de relacionamento, e não como exposições. Startups que apostam em um propósito bem definido, escuta atenta, transparência, conteúdo relevante e envolvimento autêntico criam algo que vale mais do que uma audiência: uma comunidade que está pronta para se desenvolver junto com o produto. 

Em ambientes competitivos, essa é muitas vezes a linha entre uma marca que é lembrada por uma campanha e uma marca que é escolhida consistentemente. E o “voto” do consumidor, nesse caso, é o que qualquer empresa busca.

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