A RecargaPay está ampliando sua atuação no mercado de produtos financeiros, com foco nas verticais de cartões, empréstimos pessoais, crédito consignado e demais operações de crédito. A estratégia combina expansão do portfólio, aquisição de clientes para produtos específicos e uso da própria plataforma para construir histórico financeiro.
A fintech hoje já atende mais de 14 milhões de clientes e registra crescimento médio de 30% ao ano. Nos últimos meses, lançou novos produtos, entre eles cartões de crédito, como o Titan, voltado para o segmento de alta renda, outros cartões, empréstimos pessoais e crédito consignado.
A expansão acontece em paralelo à mudança na estrutura de liderança. No início de junho deste ano, Miguel Perdigão foi promovido de Chief of Staff para General Manager de Produtos Financeiros. O executivo passou a responder pelas verticais de Cartões, Empréstimos Pessoais, Consignado e Crédito.
Para Rodrigo Teijeiro, CEO do RecargaPay, a mudança acompanha uma nova etapa da companhia. “A transição do Miguel para a liderança de Produtos Financeiros marca um passo importante no reforço da nossa operação. Estamos preparando nossa liderança para a próxima fase de crescimento da RecargaPay”, afirma o CEO.
Segundo Teijeiro, a empresa ampliou seu portfólio de soluções nos últimos anos e mantém crescimento de 30% ao ano. “Nos últimos anos, ampliamos significativamente as nossas soluções, crescemos 30% ao ano e consolidamos a nossa posição como a única fintech independente do Brasil. Estamos prontos para desafiar o mercado.”
Da recarga à plataforma financeira
A trajetória da RecargaPay ajuda a explicar a mudança de uma empresa concentrada em recargas para uma plataforma com diferentes produtos financeiros. Durante painel realizado no Rio Innovation Week 2026, Gustavo Victorica, cofundador e COO da companhia, contou que os fundadores começaram a empresa há mais de 20 anos. Depois, criaram uma rede social, mas o negócio não conseguiu sustentar o crescimento.
“A gente começou em 2002 com um site de vendas de produtos de telefonia online. Era um negócio que nasceu rentável do dia 0. Anos depois lançamos uma rede social, teve 50 milhões de pessoas, mas o dinheiro acabou. Aí a gente pivotou”, afirmou. Segundo Victorica, após a mudança de direção, os fundadores tinham uma base de quase 25 milhões de usuários e identificaram a oportunidade de digitalizar a recarga de celular.
Para aprimorar a nova startup, a equipe passou a visitar diferentes regiões do país para entender o comportamento dos consumidores e identificou localidades com demanda por recargas de valores baixos. “Em 2010 mais de 80% dos brasileiros já tinham celular. A gente ia viajando pra entender e tinha regiões no Brasil que ofereciam recargas de celular de até 1 real, porque era a demanda. Tem que entender a necessidade do cliente, a importância do preço baixo e da qualidade do serviço”, disse Victorica.
A recarga deixou de representar o centro da operação à medida que a companhia passou a desenvolver outros serviços. Segundo Victorica, atualmente a recarga representa cerca de 1% da receita da empresa. Ainda assim, a companhia mantém o nome e o produto porque existe demanda em determinadas regiões e em serviços de bilhetagem.
“A gente começou a crescer tanto que o BC falou que a gente é uma instituição financeira. Hoje a gente tem 14 milhões de clientes, uma base de produtos financeiros completa. Tudo o que nos trouxe até aqui ainda é importante. Temos o portfólio completo com foco em pessoa física”, afirmou.
A companhia informa que possui licença de Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), concedida pelo Banco Central, e que recebeu mais de US$ 120 milhões em investimentos.
Crédito para clientes com menos acesso
A expansão atual tem o crédito como uma das principais frentes. Para Miguel Perdigão, existe uma parcela de consumidores que não encontra as mesmas oportunidades de crédito disponíveis para outros grupos. “O mercado financeiro brasileiro é muito grande, né? E acho que tem muita gente disputando os mesmos clientes, de certa forma. E tem alguns clientes que, às vezes, foram cobertos algum dia, hoje em dia são menos cobertos, têm menos oportunidades”, afirmou.
A estratégia da RecargaPay é atender esses consumidores e utilizar o relacionamento dentro da plataforma para permitir que eles construam um histórico de crédito. “Hoje a gente tenta servir esse tipo de cliente e os outros também, todos eles, e poder trazer crédito pra quem hoje não tem, pra quem tá sem ou nenhuma outra oportunidade no mercado”, disse Perdigão.
Segundo o executivo, a relação com a plataforma pode permitir que o consumidor construa um histórico e, a partir dele, tenha acesso a outros produtos. “Pegar com a gente e crescer criando essa história de crédito com a gente, de certa forma. O pessoal vai criando isso junto com a própria RecargaPay, ela cria a história dela. E pode ter mais crédito dentro da própria Recarga, versus o que ela provavelmente vai conseguir no mercado diretamente”, afirmou.
A estratégia representa também uma mudança na forma de aquisição de clientes. Segundo Perdigão, a RecargaPay anteriormente concentrava os produtos financeiros na base que já utilizava a plataforma. Agora, a companhia também busca consumidores que chegam ao aplicativo especificamente para contratar crédito.
“Nos últimos meses, a gente lançou diversos produtos, cartão de crédito, tanto o Titan para uma renda mais alta, quanto outros cartões de crédito, e empréstimo pessoal. A gente focava muito no nosso próprio cliente que já estava dentro da plataforma e agora a gente foca muito também no cliente novo, o cara que chegou na RecargaPay propriamente para pegar um crédito e crescer junto com a empresa”, afirmou.
A nova estrutura de liderança acompanha esse movimento. Perdigão passou a concentrar sob sua responsabilidade cartões, empréstimos pessoais, consignado e crédito. No anúncio da promoção, o executivo afirmou que a prioridade é desenvolver produtos alinhados às necessidades dos clientes. “Assumir esse cargo é um desafio que encaro com muito entusiasmo e com um foco claro: garantir que os nossos produtos e soluções estejam perfeitamente alinhados ao momento de vida de nossos clientes.”
Perdigão também relacionou essa estratégia às oportunidades existentes no mercado de crédito. “No mercado brasileiro, o impacto que podemos gerar com produtos de crédito bem desenhados é imenso. O RecargaPay tem a agilidade e a independência necessárias para colocar o cliente no centro e entregar ferramentas que impulsionem o seu dia a dia e acelerem suas conquistas.”
Crescimento acelerado
A expansão dos produtos financeiros acontece dentro de uma estratégia que a companhia define como sustentável e autofinanciada. “A gente tem um crescimento nos últimos três anos de 30% por ano, basicamente, e sempre de uma forma muito eficiente, do ponto de vista de geração de lucro”, afirmou.
Para o executivo, a velocidade de crescimento continua sendo relevante, mas deve estar associada à geração de resultado. “Quero continuar crescendo o mais rápido possível, mas sempre de uma forma sustentável, gerando lucro, gerando caixa. Acho que é uma coisa que importa pra gente bastante.”
Gustavo Victorica também abordou o tema durante o Rio Innovation Week. Segundo o executivo, a companhia chegou à lucratividade em 2023 e passou a trabalhar com outra definição de resultado em relação ao ciclo anterior do mercado de startups.
“Você tinha que mostrar esse crescimento, mas ninguém olhava pros unit economics. O que vai mudando é a definição de resultado. Antes era escala, hoje é sustentabilidade”, afirmou. Segundo Victorica, a empresa optou por manter uma velocidade de expansão que pudesse ser sustentada pela própria operação. “A preocupação por crescer continua, mas esse crescimento é velocidade em vez de sustentabilidade. A gente preferiu crescer, mesmo que mais devagar.”
O executivo também relacionou a estratégia à experiência dos fundadores em negócios anteriores. Segundo ele, a criação da rede social que chegou a 50 milhões de pessoas mostrou os limites de crescer rapidamente sem uma estrutura financeira capaz de sustentar a operação.
“O playbook da gestão de startups reflete uma realidade de 10 anos atrás, em que tinha mais briga por escala e sustentabilidade. A RecargaPay começou em 2010, mas os sócios têm mais de 20 anos trabalhando juntos. Antes a gente teve uma rede social, mas a gente tentou crescer muito rápido e o dinheiro acabou”, afirmou.
Para Victorica, a experiência deixou uma premissa para a operação: o crescimento precisa estar associado à capacidade de sustentar a empresa. “A lição que ficou é que sair atrás do segundo usuário tem pernas muito curtas se você não souber quando a próxima rodada vai chegar. Tem que ser resiliência, ter disciplina e ser criativo, independente de ter dinheiro ou não, mas quando não tem é mais importante.”
Independência reduz tempo de decisão
A condição de empresa independente também é apontada pelos executivos como parte da estratégia de crescimento. Para Perdigão, uma das consequências é a redução do tempo entre a tomada de decisão e o lançamento de um produto. “Acho que uma coisa que ajuda muito essa independência é que a gente consegue tomar decisão muito mais rápido”, afirmou.
Segundo ele, a distância entre a gestão, os fundadores e as equipes é curta, o que reduz etapas de aprovação. “A distância do management, dos fundadores, até a pessoa mais baixa, é muito curta, porque a gente conseguiu ter uma organização bem pouco vertical e muito lateral, né, que todo mundo tá muito envolvido em tudo.”
A estrutura, segundo Perdigão, permite acelerar o desenvolvimento e lançamento de produtos. “Você consegue lançar coisas muito rápido, por exemplo, lançamos o consignado em dois meses”. O executivo compara esse modelo com estruturas nas quais decisões dependem de aprovações externas ou reuniões periódicas. “Quando você tem algo por cima, controlando, de certa forma, muita coisa precisa esperar uma reunião que acontece a cada um mês, dois meses, pra ser aprovada, pra acontecer, e acho que a gente não passa por isso hoje.”
Para Perdigão, essa velocidade tem impacto direto na oferta aos clientes. “Eu tenho a sensação que essa é a melhor diferença pra gente, que se reflete nos usuários, ter coisas novas com frequência muito rápido.”
O próximo ciclo da empresa
A expansão do portfólio, porém, não significa que a estratégia da RecargaPay seja adicionar produtos de forma contínua sem avaliar o impacto de cada um. Para Victorica, a disponibilidade de novas ferramentas tecnológicas aumenta a necessidade de manter o foco sobre os problemas que a empresa pretende resolver.
Segundo o executivo, empresas em crescimento podem entrar em um processo de adicionar funcionalidades e produtos simplesmente porque existe capacidade para desenvolvê-los. A inteligência artificial aumenta essa possibilidade ao reduzir o tempo necessário para determinadas tarefas.
“À medida que você vai crescendo, existe uma tendência de incorporar mais features, né? Tem que vender mais coisas, tem que colocar mais produtos, mais produtos. E você acaba perdendo o foco”, afirmou. Na visão de Victorica, a questão passa a ser identificar quais iniciativas produzem resultado para a companhia e para o cliente.
“Com inteligência artificial, agora você pode fazer aqueles produtos que antes você não fazia, você pode fazer mais fácil, mas ao mesmo tempo, qual deles está gerando impacto real? Tanto para o bottom line da companhia, como para o meu cliente.”
O executivo afirma que a companhia pretende aprofundar os produtos que já fazem parte de sua operação. “A gente veio realmente aprofundar o que a gente vem fazendo. É dar o melhor crédito para o meu cliente, o crédito mais barato, ser mais competitivo no meio de pagamento, transmitir segurança para o meu usuário, segurança de que ele pode deixar o dinheiro tranquilo comigo, dar o melhor retorno no investimento dele.”



