Quando o termo “sociedade do espetáculo” foi cunhado pelo filósofo e teórico francês Guy Debord, no longínquo ano de 1967, a expressão representava uma crítica contundente à sociedade capitalista e, principalmente, ao impacto dos meios de comunicação de massa nas relações humanas e na percepção da realidade.
E é por aqui que esse texto vai, sem nenhuma abordagem estritamente partidária, pois trata-se de uma crítica cultural para avaliar o debate presidencial realizado pelo Grupo Bandeirantes.
O fato é que a transmissão deveria servir como um ponto de apoio ao eleitor interessado em compreender os caminhos e as propostas para o país. No entanto, sabendo que a discussão de projetos — se é que eles existem — não rende tanta audiência quanto a troca de farpas, a emissora preferiu abrir um “ringue” e deixar a pancadaria verbal correr solta. Pobre eleitor.
Eu gostaria muito de acreditar que houve ali uma nobre esperança editorial e jornalística. Contudo, sendo bem sincero, a sensação é de que a escolha foi deliberada. Por isso, no fim das contas, a crítica poderia ser direcionada aos políticos, que abandonaram o debate de propostas, mas a verdade é que eles apenas sucumbiram à miopia da própria emissora.
E a miopia aqui não consiste em falhar em enxergar a possibilidade de um debate produtivo, mas em esquecer qual é o seu verdadeiro papel na sociedade. Esse fenômeno talvez ajude a explicar a decadência do jornalismo tradicional em geral, com índices de confiança cada vez menores, e o desgaste da relevância cultural e jornalística de veículos tradicionais em particular.
O Brasil ainda tem muita história pela frente, mas é certo que as transformações necessárias passarão por uma nova imprensa, por um novo fazer jornalístico e, acima de tudo, por uma mentalidade mais crítica por parte de quem consome informação.
Não há problema nenhum na sociedade continuar buscando o espetáculo, mas isso não significa que ele deva ser financiado ao custo do bom senso e do debate qualificado. Quem aposta nessa fórmula pode até se definir como veículo de imprensa, mas opera mais como um vendedor de pipoca de circo gritando pelo seu produto e torcendo para que, por sorte, a lona não pegue fogo.